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pintovieiradesenho

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segunda-feira, 29 de agosto de 2016



Este blog destina-se a divulgar 
as obras de artes plásticas 
que fui realizando desde 1965 
- mostradas em parte 
nas imagens das "páginas".  
Também noutras "páginas" 
se encontram textos diversos 
que entretanto fui produzindo.

Nesta página, "mensagens", aparecerão textos do momento, em secções próprias, imagens de obras recentes, notícias e, também, textos mais longos e curtos que tenham sido produzidos recentemente e que se justifique a sua divulgação no momento.

joaquimpintovieira1@hotmail.com

OS OUTROS BLOGS QUE EDITO SÃO 
http://drawingdesenhodibujo.blogspot.com
http://pintovieiraensinodesenho.blogspot.com
http://pintovieirapupila.blogspot.com
http://atalhadoagostinho.blogspot.com

BLOGS DE AMIGOS














Mensagens da quinzena


De 9 de OUTUBRO
23 DE OUTUBRO de 2017



.  O OUTRO

  



.  ESQUÍROLAS DO DESENHO

.  DESENHOS SEM PENSAR

.  AGUARELA



.  O OUTRO



.  ESQUÍROLAS DO DESENHO

.  DESENHOS SEM PENSAR

.  AGUARELAS

.  DUAS FIGURAS TÍPICAS falam...


.  O OUTRO

. UMA IMAGEM E QUASE
  MIL PALAVRAS

. EXPOSIÇÃO FAUP . Projeto RISCOTUDO

 DESENHO setorna PINTURA

 10 montagens de aguarelas e desenhos

. PINTURAS NO iPad
. NOVAS PINTURAS A ÓLEO
. NOVAS PINTURAS NO iPad
. AGUARELAS AO BAIXO
 

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O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio.

(os textos já publicados podem ser vistos, MAIS Á FRENTE e na Pág.
PEQUENOS TEXTOS no Blog)




GERHARD HADERER




















Gerhard Haderer, 1951, Áustria, é um dos mais destacados caricaturistas da cultura artística germânica, pois a sua expressão e atuação é feita, tanto na Alemanha como na Áustria, nas principais publicações de magazines. Conheço as suas imagens há mais de 30 anos, semanalmente na revista STERN.  As imagens com mais força não são caricaturas das figuras políticas mas a caricatura da sociedade germânica, europeia e mundial das sociedades contemporâneas.  A caricatura é uma prática ou modalidade artística moderna. Só as sociedades capitalistas avançadas e liberais permitem esse sarcasmo, sátira ,critica, denúncia dos costumes dos valores e personalidades.  Muitas vezes se atribui à arte, às artes plásticas em particular, o papel de mudar o mundo de agir sobre a sociedade e o poder.  É isso que Haderer faz há dezenas de anos todos os dias. A sua estética é realista e por vezes fotográfica, interessado que está  que o impacto patético das situações tenha mais efeito e mais ridicularize. Humor e comicidade são os âmbitos poéticos. A composição da imagem é muito variada e utiliza com muita inventiva esquemas expressivos e comunicativos surpreendentes ou convencionas,  buscando a máxima eficácia comunicativa.  As imagens tem quase sempre o formato de 18x25 cm e ocupam toda a página do magazine, como o exemplo mostrado.  No Renascimento esta modalidade de desenho e pintura era desconhecida. Só no século XX e nas sociedades liberais e democráticas a crítica mordaz dos costumes, das classes ricas, do clero fez-se em, especial, com os cartonistas modernistas e os pintores expressionistas alemães em particular.  Hoje há em todos os países caricaturistas, cartonistas com muito impacto na vida das sociedades. Se outro Gerhard também germânico é considerado um grande artista dos nosso tempos podemos compreender como a arte é hoje em dia uma realidade muito mais complexa e indistinta ou pluricompreensível. Em Haderer o significado do artístico, é elementar, primário e direto; é assim o universo caricatural. Não há complexidade concetual, sentimental, poética, simbólica e estética.  Mas elas estão lá mesmo que levemente anunciadas.  Em Richter podem algumas não estar sequer anunciadas. Mas a diferença entre “as artes menores” e as “artes maiores” continua a ser uma evidência para um espírito exigente e curial,  ainda mais num tempo do politicamente correto.






ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse  
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.

Muitas das anteriormente publicadas podem ser vistas na Página PEQUENOS TEXTOS NO BLOG





Esquírola cento e sessenta e cinco

O branco é paralisante. Conhece-se bem o drama do artista em frente à tela branca, do poeta face à folha em branco. Olhar para uma parede branca pode tranquilizar mas tenderá a paralisar. Os neurólogos e psicólogos sabem porquê. Muitos de entre nós apreciam muito a parede branca, o manto branco, o automóvel branco. Não se trata de simbologia ou de sensação de pureza, de limpeza, de neutralidade, de ausência. Como nos automóveis, um carro branco há dois anos era do pior gosto, ou era carro de serviço, neutro e invisível. Hoje é elegante. Mas basta-me a experiência e é essa que tenho. Desde a paisagem da cidade sejam elas quais forem as cores dominantes, estas lhe conferem um caráter e por trás uma cultura e enfim valores. A Natureza raramente se serve do branco e quando o faz é muito violenta (lagoas salinas). Não há nada como pintar sobre uma superfície magenta ou verde musgo para começarem a bailar na nossa mente hipóteses de atuação de ação e de imagens emergentes. Nós sabemos que o branco é, enfim, a ausência de cor ou a junção de todas. E é o tudo ou nada. E assim, como esses estados, é paralisante. É necessário que a centelha divina nos toque ou que se rompa a nossa apatia e paralisação através da matéria, não da sua ausência. Uma indução que venha de fora de nós e que a cor suporta e permite. Esta é mais uma dessas questões de que tratará o que se considera ser a Estética. No essencial, trata-se de discutir os gostos, o que alguns julgam não se discutirem por serem subjetivos ou, dizem também, pessoais.




DESENHOS SEM PENSAR
mostrados e apresentados sistemáticamente no blog drawingdibujodesenho.
Aqui alguns desenhos recentes entre os realizados diariamente



06.10.17


















22.09.17




















05.09.17























AGUARELAS
 a partir dos desenhos sem pensar


Atingidos



















acampamento





















 
voluntariamente























ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse  
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.

Muitas das anteriormente publicadas podem ser vistas na Página PEQUENOS TEXTOS NO BLOG





Esquírola cento e sessenta e quatro

Quais são os meios, os poderes, os mecanismos que criam a cultura artística. Se nos colocarmos nos inícios do que seria essa necessidade social, a que chamamos cultura artística, isto é, no Renascimento italiano, evitando ter que recuar até a Grécia, o que vemos? Um poder mecenático, não religioso que ostentava e valorizava imagens que remetiam para realidades religiosas, mitológicas, existências, morais, éticas e poéticas que escapavam aos ditames, exigências e usos dos valores do cristianismo dominante. Toda a baixa e alta idade média se encarregaram disso, à sua maneira, por necessidade e instituição. A cultura artística é laica pela natureza da sua teleonomia. Os senhores das cidades italianas viam nas artes plásticas a representação da sua grandeza, dos seus valores, desejos, sonhos, e poesias. Isso se passa nas letras e na música. O Renascimento tem uma ética não cristã essencialmente nascida das culturas greco-judaica- cristã. As academias nascentes sucedem às corporações medievais com o aparecimento e ascensão do artista. Não um artesão. Um inteletual e um artífice com projeto nascido em si. Daí com o nascimento do capitalismo se força a concorrência e o destino da cultura europeia. Nunca vista em qualquer tempo e lugar, como seria natural. A cultura artística desde essa época, na sua dimensão essencial que é a sociedade, afirma-se a assume-se com a imprensa e a reprodução ilimitada, embora diminuta. Hoje passados quinhentos anos existem apoios que começam em escolas universitárias, em museus, em centros de arte contemporânea, em feiras, congressos e encontros. A cultura apoia-se em disciplinas diversas como a história de arte, a sociologia, a comunicação e as tecnologias digitais de comunicação e difusão. A cultura artística está assim pujante, diversa, multifacetada, policêntrica ou em dissipação, desordenada, entrópica caótica. Há um mar, mas num oceano existe o bom e o mau, o que vai sobreviver e o que irá perecer, segundo critérios que ninguém pode prever ou conjeturar, mesmo para grupos restritos de zonas ou âmbitos culturais. Não há sentido e ordem senão aquela que a vida e a necessidade determinam. Sobreviverá o que for considerado necessário seja como utilidade seja como supra-utilidade.





Esquírola cento e sessenta e três

A ciência é o que faz a explicação ou interpretação do que acontece na matéria e na vida. A ciência baseia-se na indução ou dedução. A arte baseia-se na expressão e sensação. A ciência da arte não é a estética que é uma filosofia. Esta é uma das áreas da ciência da arte como o são a psicologia, a geometria, a tecnologia, a comunicação. Mas esta explicação não pode procurar justificar ou dar sentido ao lugar das coisas na nossa mente e no nosso espírito. Outras atividades mentais humanas o fazem. A arte procura dar sentido à existência sem explicar seja lá o que for. O sentido que se sente, não o que se explica. Não há nada a encontrar na arte que explique seja lá o que for. Da ciência surge a técnica que altera a nossa vida, desde sempre o fez, mais do que de qualquer outra atividade humana. A consciência do ser-se humano e do que é o mundo não advém da técnica. Mas sem os instrumentos que a técnica nos oferece, todos os dias com surpreendente novidade, a nossa capacidade de observação do mundo, da realidade como coisa concreta micro ou macro, não mudaria muito. Como não mudou em milhares de anos. Este vórtice da capacidade de observar está em nós, não na realidade. Cada vez mais o aumento da experiência percetiva e da observação que a ordena faz o ser humano mudar. Não sabemos como essa mudança ocorre e se permanece ou se dissipa na estrutura geral da mente e da organização cerebral. Só nos resta seguir, nessa insaciável necessidade de percecionar e para alguns, nem todos, e aparentemente poucos, o exercício dessa capacidade cuidadosa e empenhada de observar que é a Cultura. Aumentar a consciência.



esquírola cento e sessenta e dois

Talvez este seja mesmo o tempo para pensar em vez de agir. Neste domínio das artes plásticas tem-se agido e continua agir-se muito e a pensar muito pouco. A situação é boa? Estamos entusiasmados com o estado da arte? Há futuro para quem não está dentro? O Sistema é transparente ou é indefinido e obscuro? Alguma vez na história das artes estar dentro significou sentir-se mesmo muito fora! Nos anos1940 acreditava-se numa arte nova, (e homem novo) uma promessa de ligação de comprometimento, de partilha, de totalidade… Hoje alguém pode esconder que está tudo irremediavelmente separado, divorciado, descrente, desinteressado, desanimado, sem caminho para fazer com um fim em si. Acreditamos num sentido que a nossa obra se inscreve num quadro de vida, de história, e de futuro? O que nos move e segura é a necessidade e o interesse. Interesse tem por vezes uma conotação negativa e oportunista. Mas aqui quer dizer o que me interessa é o que me toca. O que me diz respeito e que por isso pertence e se inclui na necessidade dos outros e a todos pertence. O que a todos pertence é aquilo de que todos falam e todos entendem a fala. A necessidade não é uma imposição doutrinária ou apologética.  Ela só nasce da verdadeira vida. Quando falamos do que necessitamos e nos interessa só podemos ser, claros, explícitos e diretos, senão soçobramos. Mas hoje alguém entende o que dizem os artistas, quando falam?



esquírola cento e sessenta  e um

O ser humano já faz desenhos e pinturas há 50.0000 anos. Daqui por 1.000 anos já não fará?  Há quem ache que amanhã já não fará. O que pode justificar, explicar, ou suportar uma rutura na natureza da ação do ser, quando todos os outros seres, que Darwin também estudou, a mantêm criteriosamente e sem qualquer consciência? A consciência? Aquilo que a mente humana criada pelo seu corpo fez para se autodestruir? Mas se a probabilidade face ao avanço digital e robótico é de se deixar de fazer resta a possibilidade, que é sempre a demonstração que o que manda é ela e não a probabilidade. “A necessidade é o regulador mais eficaz da realidade”. Ambas mudam constantemente. O paradigma natural era (sempre foi) estável e imutável num tempo não humano; hoje o paradigma artificial –digital diz que tudo é mutável e que a realidade não tem a natureza e o homem como seu centro.  A possibilidade quântica é um fim em si mesma, sem que haja necessidade; o acaso desligado da vida e só ligado ao eletrão. As máquinas, auto geradoras de máquinas vão ser determinadas pela sua natureza antinatural. Não é uma questão de sentimentos e emoções. É de estômago e intestinos. É o comer que faz o homem pois ele é a interatividade essencial dos seres vivos e da vida – ser meio ambiente. As máquinas (robôs) não comem nem cagam. E isso é-lhes fatal. Por isso penso sempre quando como um arroz de tomate como ele me vai qualificar as possibilidades que o novo ato de desenhar vai fazer surgir.


esquírola cento e sessenta

Voltei há minutos do CAC-Serralves, aqui ao lado, onde por vezes vou. E de novo esse sentimento de indiferença, de fastio, mesmo de tédio me assalta. Mas não serão assaltadas também as pessoas que circulam, sem eira nem beira, pelas salas?  Encontrar uma pessoa que dedique mais do que 5 segundos a ver uma obra é raro. Não vêm nada. Só vêm o que mexe e faz barulho. Verifico com atenção particular, confesso já com maldade, que a maioria dos visitantes, a quase totalidade, não liga nada às obras expostas da maioria das exposições recentes. Passam. Por vezes vão ler a ficha, e pronto, lá vão. Não estará algo muito mal neste mundo que deus não criou? Os homens, já sabemos, são capazes do pior e do melhor pois só eles o podem fazer. Mas convém escolher da curta vida o pouco que podemos usufruir da vasta arte. E é, e será sempre, tão pouco o tempo, que se exige critério. O mundo da arte contemporânea é o sucedâneo de um logro, um dos maiores da cultura de raiz europeia desde Rousseau. Até onde? Falamos de critério acerca de quê? Que os artistas, depois da vitória histórica do anarquismo nos terrenos das culturas artísticas e dos costumes, possam fazer para si tudo o que desejarem sem que Deus, que desapareceu, os persiga, já todos experimentamos e cultivamos, mesmo. Aí o critério se esvai. Mas a socialização dessa produção que sai da esfera, sem critério, de cada um tem de seguir uma ordem. Quem detém esse poder hoje? Quem domina a rede dos CACs? Porque se gastam fortunas a fazer instalações, pinturas e esculturas e impressões digitais gigantescas (a que chamam pinturas) que ninguém poderá dominar e mesmo usufruir com um mínimo de constância discernimento, aproximação e usufruto. Parece que tudo é mandado por uma mão orwelliana.


esquírola cento e cinquenta e nove

Nunca será demais aumentar a nossa consciência do que é ver. A realidade em concreto que nos rodeia não chega para criar essa consciência. As fotos e os desenhos e pinturas são as realidades que comportam mais matéria a descobrir. O cinema diz o que devemos ver e num tempo limite embora se possa por vezes voltar a ver. O teatro e a vida ocorrem dentro de uma temporalidade rígida. Os objetos podem ser vistos muitas vezes o tempo desejado mas são multidimensionais. No cérebro a leitura de um texto e a observação de uma imagem são tratadas, em primeira mão, em hemisférios diferentes. Mas eu admito que a mente utiliza os dados da mesma maneira ou com o mesmo fim e processo. Isto é, utiliza e reconhece os conteúdos que são os mesmos nas imagens e nos textos. Um texto pode ser lido lentamente e relido, em seguida, várias vezes. Uma imagem pode ser vista rapidamente e várias vezes seguidas. Mas a leitura de um texto é feita sequencialmente e em certa ordem. Uma imagem não tem ordem para ser vista. E não pode ser vista durante muito tempo. Calculo que a maioria das pessoas só observa uma imagem, em média, 2 segundos. Estar um minuto pode ser difícil e 5 minutos é impossível para a maioria das pessoas, eu incluído. Mas podemos voltar a ver essa imagem instantes ou momentos depois e nessa altura vemos coisas que não tínhamos visto. Procuramos na imagem aquilo que queremos ou necessitamos ver; não aquilo que nos pode levar a descobrir o novo. Para isso só a cultura da curiosidade e do repositório da cultura da imagem leva à descoberta. A Consciência da imagem é a consciência dos conteúdos.


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DUAS FIGURAS TÍPICAS falam sobre o
estado de alma na pintura.


14ª CONVERSA

– Equilátero, estou enredado nos estados de alma, ou nessas simples complexidades que fazem o nosso ser e devem dar qualidade ao nosso viver. Os músicos e os poetas acerca das suas artes costumam falar mais deles. Os músicos barrocos, em especial Haendel, nas suas óperas estruturadas numa relação contínua entre ária e recitativo, aplicava nessas áreas uma forte carga emocional através de uma frase muita curta e uma melodia muito clara e simples. Mas tenho a impressão, há muito, que para nós artistas plásticos isso não é muito decisivo ou capital. O modernismo, como bem sabemos, postergou ou obrigou o sentimento a vegetar no inconsciente e só permite ao consciente tratar de conceitos. Mas lá voltaremos. Se nos interrogarmos sobre as obras de pintura que vimos nos últimos meses em direto ou nos média podemos concluir que, dessa coisa de estados d’alma, estamos muito arredados. Será o estado de alma o complexo global da energia artística. De onde vêm os estados de alma, se é que existem?

  Escaleno, acompanho-te, embora ande mais preocupado, nestes tempos, pelo que se entende por consciência e também porque é ela importante, ou necessária, ou conveniente para o pintor ou para a pintura, que podem ser duas coisas distintas. A origem da designação de estados de alma parece ser romântica mas de fato desde a poesia de longa data e da vasta diversidade de culturas, os homens cantam o que sentem, o que os emociona, cantam porque estão emocionados. Os pássaros também?!. Tudo começa nas emoções básicas que se diz serem 6 ou sete; alegria, cólera, desprezo, medo, surpresa, tristeza e nojo. Elas são o resultado da reação do corpo e da sua organização pelo cérebro, ao ambiente. Aí nas zonas mais primitivas do cérebro estão os componentes onde se trabalham esses processos. Têm uma origem mesmo animal e talvez mesmo nos seres mais elementares. Atentar o mundo e averiguar se ele é bom ou mau para nós. Se as palavras que hoje usamos para essas funções qualificadas são as mais corretas é irrelevante. O quadro e a condição é o mais importante, Trata-se de perceção multi-sensorial integrando sempre a mente e o corpo. Mas o estado de alma designará outro quadro e condição. O sentimental. Os sentimentos são o resultado da mente, mais do que do corpo, sobre o meio ambiente e a socialização do ser humano. Não porque estejam separados mas porque o processamento pode ter origem de fora para dentro ou de dentro para fora. Os cães têm sentimentos diversos e outros mamíferos também. Mas a complexidade e variedade é uma condição da humanidade e da sua cultura em especial artística e, acima de tudo, da consciência do sentimento em si. Há centenas de palavras que se utilizam para nos referirmos a esses sentimentos ou estados de alma. Como nas emoções, são só palavras, pois o que se passa na mente e é ativado quando ouvimos uma canção ou vemos uma pintura só cada um experimenta no seu corpo/mente.


– Concordo contigo e não posso deixar de pensar e visualizar mentalmente o quadro de Munch, O grito, como um dos exemplos dessa condição, ou noutra arte, a ária Ombra mai fu, da ópera Xerxes, de Handel ou o poema, a trova do vento que passa, de Manuel Alegre, ou o 2º andamento, do 622, de Mozart. Além das tradicionais emoções que enumeraste eu julgo que devíamos considerar a emoção estética como primordial, inconsciente, automática ou instintiva. Muitos seres tem que conhecer as características formais, cromáticas, dos outros seres com quem interagem para o poderem fazer com êxito. A perceção estética mais do que a perceção facial onde se exprimem essas forças emotivas é decisiva para a sobrevivência. Mas reconheço que o estado de alma só muito remotamente se evidencia na abstração que é só emoção estética, como vejo e sinto na pintura de Rothko, ou mesmo em Monet, por ex.. O estado de alma é o complexo global da energia artística. É a potência expressiva da obra ou condicionador do seu conteúdo. O que mais procuramos mesmo sem saber que o queremos. Somos apanhados ou conquistados para essa vivência que a realidade por vezes nos prodigaliza por acaso, mas que na obra de arte é intencionalizada, disponibilizada, enquadrada. Quantas pinturas viste, ou outras obras contemporâneas que te provocaram esse calafrio, essa exaltação, essa comoção, esse enfado, esse desnorte, mesmo? Nada disto tem a ver com intelectualização e por aí com concetualismo. Duchamp está no lado oposto, não achas, Equilátero?

– Escaleno, defendo que o estado de alma é a gestão não consciente mas criteriosa dos sentimentos. As emoções desenvolvem-se num quadro acima de tudo inconsciente e os sentimentos num quadro mais consciente embora se apoiem nesse quadro emocional. Nós podemos tratar os sentimentos e temos muita dificuldade em tratar as emoções, mesmo em termos clínicos. Os sentimentos exprimem valores também. A moral depende acima de tudo do quadro emocional. Nós sabemos o que é bom e mau, conveniente ou inconveniente, desde que nascemos. Ninguém necessita de nos dizer. Esse quadro quase natural ou mesmo animal, começa a modificar-se com a socialização humana que é exclusiva e típica da evolução da espécie. Nestes últimos cem anos terão ocorrido, e em especial nos últimos 50, as mais profundas, radicais e aceleradas alterações de valores. Essa relação social, na forma das diversas sociedades se organizarem e em especial após a globalização, mais do que económica, comunicacional, através da Net, marca a nossa existência. A ética surgiu daí da necessidade em ordenar a vida para além da moral. Hoje a grande luta no mundo centra-se nos valores coletivos e menos nos valores individuais que estão libertados. Pode-se dizer que a moral não conta, está lá. As exigências básicas das emoções estarão lá sempre pois são elas o nosso padrão vital em termos mentais. O cultivo dos estados de alma é uma exigência cultural evoluída e muito marcada pela libertação do individuo operada desde o séc. XVIII e no romantismo. As culturas orientais de raiz budista, há muito libertas das religiões do livro, sempre deram ao homem a “autorização” para serem, o si-mesmo, em plenitude. A pintura e o desenho de Egon Schiele, um dos “jovens desgraçados das doenças desse fim e início de séc.”, é para mim um exemplo do que se pode entender por estado de alma. Um todo muito conexo entre estética e sentimento, vida pessoal e vida dos outros. Uma totalidade espiritual e sensorial. Longe das modas morais e perto dos sentimentos muito comuns. Recordo também Caravágio.

– Equilátero, não posso deixar de me interrogar quais serão os elementos que conferem a uma imagem, seja uma foto, uma pintura, um desenho esse estado de alma. No cinema essa condição expressiva é conquistada pela associação da imagem com a palavra, o texto, como também na ópera. Essa valorização ou mesmo consideração expressiva, voltamos a repetir, foi renegada pelo modernismo com o desprezo pelo sentimento. O sentimento era burguês e por isso antirrevolucionário. O sentimento era o sentimentalismo. O papel da arte era perturbar, fazer o observador interrogar-se, pensar, contestar as suas ideias, convicções valores e sentimentos. Tudo jogos sobre a consciência e sobre a política como arrebanhamento das massas. O homem não como ser único e com um destino singular mas como carne para canhão ou fazedor da história e do destino coletivo. Isto tanto se passou nas esquerdas como nas direitas, mas é sempre direita; dominação, privilégio, sujeição, autoritarismo. O vício do poder e do domínio dos outros sempre foi a maior intenção das doutrinas e das ideologias. Voltemos à vontade, à necessidade de chorar e saltar de alegria e felicidade, sozinho. A presença simbólica na obra e a presença estética. Numa obra de artes plásticas a estética estará sempre presente, pois o corpo mínimo da obra é sempre uma realidade plástica o que não acontecerá, por ex., na poesia escrita pois é um código linguístico antes de mais. Mas a simbólica pode não estar aí, ser rudimentar ou vaga. Será que as obras no interessam mais pela sua presença simbólica ou pela sua presença estética? Há pessoas para quem a presença simbólica é chata e para outras a presença estética é quase ignorada ou inapreciada. A presença estética pode ser elaborada, conscencializada e aperfeiçoada. A presença simbólica só pode ser aceite e bem interpretada. Na obra de Munch, o grito, nas suas diversas versões, como se comportam estas duas presenças? E na obra de Schiele?

  O estado de alma ou de espírito pode ser encarado com dois exemplos, que me parecem ajudar a avançar. Todos temos a experiência de que o mesmo poema dá uma canção completamente diferente se for associado a um tipo de música ou mesmo, no mesmo tipo, a uma melodia diferente. Também uma pintura, de um tema qualquer, se for desenhado e pintado numa dimensão muito diferente ou num formato e orientação diferentes com um cromatismo muito diferente e texturas diversas provoca sensações sentimentos muito diversos. Se do lado do que se sente ou experimenta mentalmente e simbolicamente utilizarmos sinónimos para melancolia, que seria aquilo que alguns acham que as duas obras exprimem, podemos encontrar abatimento, apatia, comoção desânimo, desconsolo, desencanto, pena, mágoa, tristeza, saudade, solidão, que sendo todas diferentes tentam traduzir um quadro do estado mental em que nos encontramos. Todas pretendem dizer o que sentimos. E a questão é esta, Escaleno. Que importância relativa tem o fator estético e o fator simbólico na fixação ou na afirmação dessa força expressiva que configura o estado de alma por que passamos ou nos assola? Estado de alma e corpo poético, serão o mesmo ou existirão sequer? Qualquer um deles é uma dádiva da possibilidade. A possibilidade é o que se poderia chamar de Deus se se acreditasse. Mas é qualquer coisa que está no infinito da minha compreensão do que seja, mas que existe realmente e se manifesta em cada porção de tempo da vida de todos os seres e partículas. Em nós humanos que criamos com essas possibilidades uma recomposição das suas aparições somos capazes de dar um sentido a cada uma delas e esse sentido ganha por vezes um significado que parece transcender a nossa compreensão racional das coisas mas é muito convincente, harmonioso, adequado, totalizante e engrandecedor e que nos faz sentir mais ricos e com sentido profundo ou pleno. Há quem lhe chame a verdadeira verdade. O estado de alma parece ser esse estado psicológico que ultrapassa o consciente e se organiza em estado mentais mais complexos e inconscientes. Há obras de todos as modalidades artísticas em que se pode verificar que isso acontece ou que acontece uma relação ou ação da obra em nós que supera muito o que o artista pretendia fazer e muitas vezes surge sem que o artista julgue estar a fazê-lo.

– A dimensão concetual da obra parece não estar presente ou ser irrelevante na criação ou afirmação dessa realidade expressiva da obra, o estado de  alma, que partilhamos com ela ou que criamos  a partir dela. A intelectualização, que é sempre uma racionalização e tende a ser sistematizante e categorial e absolutamente fundamental na consciência das coisas, como agora acontece ao escrever isto. Será por isso que hoje é tão raro encontrar-mos qualquer obra que nos provoque esse estado mental? O domínio do concetualismo pós-duchamp, e da arte projeto, foi de fato avassalador e, se foi apresentado como uma libertação, é mesmo, há muito, uma segregação mental, um condicionador, um espartilho. As pessoas têm mesmo medo do seu inconsciente? Há muitas obras em que os artistas pretendem ter êxito usando estratagemas, modos, artifícios, gestos, provocações, excentricidades que funcionam com excitantes rápidos – drogas.  Mas elas terão sempre o público que as merece e ele as obras de que necessita. A necessidade é o regulador mais eficaz pois estabelece limites a realidade, como sempre me lembra Jung. E isto não é matéria moral pois é anti doutrinário. Se há pessoas que necessitam de ser enganadas é porque com o engano evitam conhecer algo que lhes poderia fazer compreender a existência doutra forma. Mas isso não é dado é só conquista do ser e do aproveitamento das suas oportunidades. Acho Equilátero que somos atraídos pelo que nos diz respeito. A obra é assim uma parte de nós que se reconstrói naquela circunstância. A vida são só circunstâncias dentro de um quadro geral de possibilidades, como tu referiste, que o acaso comporta. O quadro de possibilidades de um gato, por mais sensível e rico nos seus sonhos, nunca terá as circunstâncias de um humano e, entre estes, quem vive na mata da Papuásia não terá as mesmas de quem vive numa cidade europeia, embora o quadro de possibilidades seja o mesmo. Muitas vezes olho para o que faço e “acho-o sem alma”. Que outras palavras posso usar para falar do que sinto? É como fosse falso ou de “encomenda”.  Evito tocar em coisas que eu sinto que existem mas não é agradável ou de bom tom tocar. Muito calculado e pouco sentido; muito previsto e pouco encontrado. A possibilidade e mesmo a necessidade ou vantagem de existirem mais seres inteligentes no universo é incomensuravelmente mínima. É sobre os sentimentos que iremos construindo esta natural e inexplicável e, por isso, extraordinária consciência de si, a que alguns chamam espiritual quando experimenta espaços não cognitivos nem lógicos. Será este culto do estado de alma um desses percursos ou vias de aproximação e afastamento entre nós, Equilátero?

– Escaleno, a luz solar em especial, mas também a artificial, é possivelmente o elemento motor, já que é energética, da emoção e dos sentimento e daí dessa coisa a que vimos tratando como estado de alma. Na natureza a luz do sol direta ou indireta, numa sala o abat-jour, ou a sua ausência são capazes de nos alterar o estado de espírito como se diz, ou de humor. Um dia que começa sem sol ou com um sol no horizonte brilhando criam em nós uma vontade diversa. Daí que a luz, na obra de pintura da representação, e um dos seus sucedâneos retinianos, a cor, sejam fatores de criação de quadros sentimentais.  O Angelus de Millet é um exemplo de uma pintura que representando um gesto trivial duma sociedade rural em França no séc. XIX, e de muitos séculos atrás, se transformou, por ex., para Dali, numa imagem mitológica, arquetípica no seu universo imagético e foi um dos quadros mais divulgados no séc. XIX. A luz e a hora do dia são fundamentais. O sol é o nosso Deus? Ao meio dia, com sol, ou com nevoeiro, o estado de alma seria outro. Nos debates contemporâneos sobre a consciência, que ninguém sabe o que é, continua a ser dominante a consideração que estar consciente é dominar a perceção do mundo e depois articular numa linguagem os dados dessa recolha de forma que outros partilhem. Eu acho pouco. A consciência abrange dimensões do exercício da mente que os neurónios criaram – embora alguém pense que há uma consciência cósmica que se exprime em nós através do nosso sistema neuronal – que ignoramos em absoluto e talvez nunca venhamos a conhecer. Outros admitem que o nosso cérebro é só uma máquina que a robótica virá mais tarde ou mais cedo a replicar e que nessa altura produzirá a sua mente e logo a sua consciência. Mas não sei como ele sentirá um pôr-do-sol depois de ter saído das águas do mar, na praia, e depois de se secar com a toalha e ouvir no telemóvel que o pai morreu.

J.Pinto Vieira -Agosto de 2017






O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio.

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PEQUENOS TEXTOS no Blog)



EDUARDO LOURENÇO


















Eduardo Lourenço, 1923, Almeida, é uma das mais destacadas personalidades da cultura portuguesa da segunda metade do Séc. XX, e até aos nossos dias, pois ainda cá anda. Esta dupla fotografia de quando teria 60 e 30 anos, presumo, dá-nos a efigie do homem. Não nos ajudará muito, mas toca-nos. Ando a ler a edição dos seus textos sobre Pintura. Da pintura, Gradiva, Lisboa 2017. Conhecia por jornal, revista e livro muita da sua obra de ensaísta, crítico, pensador, sobre a nossa condição nacional, europeia  e humana em geral e sobra a cultura das artes  e das letras. Sempre foi, como se costuma dizer, a pedra que cai no lago parado e mesmo quando este mexe as ondas dele iam para outro lado. Esse lado era normalmente o da lucidez, da inteligência viva, do fundamento no saber, do conhecimento da história, e das disciplinas que abordava, da extrema atenção aos fatos, embora não seja empirista, julgo-o eu. Voltando aos textos sobre pintura devo dizer que ignorava quase todos, muitos deles são inéditos e são de tal interesse, qualidade concetual, precisão categorial, rigor analítico, delicadeza de síntese que só um apaixonado pela pintura, o que pode querer dizer que nada mais vê quando olha, pode dar.  Testemunho, juízos, declarações de que vivia nas obras em especial nos anos 50, 60, 70 e 80, capitais no segundo modernismo e na queda de Paris e do avanço do domínio dos USA da cena internacional da arte e em especial da pintura.  Destaco alguns textos só para abrir apetites.   1.24 - O equivoco do mundo estético,1.28 -  A pintura como objeto de compreensão. 1.32-O Romantismo estético de Croce.  1.52 - Em sentido e não sentido do moderno. Para um conceito de atual de modernidade.  Neste diz, a propósito da designação de deus ocasionatus para o homem, dada por Nicolau de Cusa,  “…desse ser nascem dois tipos de existência humana: a do homem que encontra na ocasião a forma de se demitir dos seus poderes e a do homem que se embriaga com esses poderes a ponto de crer dispensar o apoio da ocasião.(...) No domínio espiritual essas duas formas de convivência com o Presente traduzem-se na oposição clássico-moderno”. Ou então entre ordem  e rutura; manutenção  e aventura, etc.,  tendências imperativas ou básicas e essenciais , e por força oculta, desconsiderando-se mutuamente.  1.55 -No Ut musica pictura. Da poesia da pintura, considera e fundamenta a função primordial da imagem na criação da mente humana muito antes da fala e muito mais da escrita. As noções de moderno e clássico, da função da crítica, da natureza dos estético são basilares.  A critica da estética de Croce é exemplar num período que ele ainda era uma referência inquestionada, na cultura europeia de raiz francesa.  Se é verdade que se movimenta na esfera artística de Paris com desvios a Itália a Alemanha, começa a sentir a presença avassaladora da Escola de NY e da Costa Oeste. Mas ler/ver como se escreve bem sobre a pintura, sem ser pintor, embora trate também da questão de se  poder falar da pintura sem ser através dela, só sai de um grande intelectual e de um espírito raro ou ”tocado” .



 CÂNDIDO LÓPEZ









Cândido López,  Buenos Aires, 1840-1909, foi um pintor argentino que se notabilizou com as pinturas de guerra que fez da Guerra do Paraguai em 1867-69, a maior guerra entre nações sul americanas. Começou por fazer a guerra como soldado e depois de ferido gravemente fez uma vasta obra com pinturas como aquela que se mostra.  Quase sempre telas horizontais, com a relação 1/3, e de 150 a 80 cm de dimensão maior. As imagens são panorâmicas das diferentes batalhas em diferentes cenários naturais. É considerado um pintor naif, pois não teve formação académica, mas a sua interpretação das características do espaço natural, atmosférico, vegetal, perspético, não lhe permitem esse epiteto normalmente atribuído a conceções mais ingénuas ou primitivas. Na guerra perdeu o braço direito o que não impediu de pintar com a mão esquerda a quase totalidade da obra. A estrutura das pinturas é sempre muito semelhante.  Uma paisagem aberta com pouca vegetação e um enorme conjunto e subconjuntos de figuras militares em diversas funções ou ações.  O céu e a  terra ocupam metade do espaço da imagem, em muitos casos. Há mesmo o que se pode considerar o prolegómeno  do padrão, essa realidade plástica que cria um campo com unidade feita de  diversidade. Nalgumas das cenas, como a presente, é tratado o fim da batalha, noutras o decorrer.  A luz e os céus criam sempre um clima muito particular à cena e à pintura. As figuras são bastante detalhadas e por vezes são algo ingénuas, mas longe de primitivas. Estas pinturas retomam a questão central que o modernismo veio tentar evitar. A dimensão simbólica é tão importante na pintura como a dimensão estética. Uma pintura é muito mais do que uma superfície onde se organizam certas formas, certas cores, e certos tons. É um pedaço da representação da vida de cada homem, consciência de si e de todos os outros. Não um testemunho do que sente através  dos sentidos.  A guerra é o pior que o homem faz a si mesmo como espécie e individuo. Mas tem uma ética, em livro mesmo. Nenhum outro ser vivo conhece esse desígnio, vontade ou necessidade.  Estas pinturas que a representam num dos episódios mais sangrentos e longos, são vistas de longe, como encantadoras e sedutoras. Parecem mesmo algumas romarias, eventos, encontros, festejos. Mais de perto, muitas mostram a atrocidade a brutalidade revelada por uma estética de encantos.










O GRAFITER














Grafiter Anónimo, aquele que pinta a spray, o logotipo do seu nome nas paredes públicas. As paredes do edifícios em ruína, ou mesmo outros, e as designadas “obras de arte” do espaço publico são o suporte preferido por esse artista pós-spray. O spray que é um pistola de pintura é um instrumento magnífico. Tem poucas dezenas de anos e logo permitiu exercer uma prática pictórica que o homem nunca tinha conhecido. Uma vez soprou com a boca tinta sobre a própria mão, mas não voltou a fazê-lo.  O spray é muito cómodo, e hoje até tem preços em conta. É lata de tinta e pincel num só. Isso ajuda imenso. Tudo isto explica a extraordinária expansão e proliferação de obras no espaço publico.Talvez já ninguém lhes ligue e todos já deixaram de pensar que “suja a cidade”.  Um dos locais preferidos são os painéis das auto estradas e vias rápidas. Lugares ermos em que ninguém para e ninguém está autorizado a ver o que o cerca.  Passa-se a mais de cem sempre a olhar em frente. Os grafiteres fazem as obra para o “bando”.  Não confundo o grafiter com o estampador nos edifícios públicos, como Banksy, que tem uma poética e um projeto artístico e social de intervenção ideológica e poética. O bando aprecia, legitima e cultiva a ação e a solução plástica ou estética. Raramente estas obras adquirem um valor simbólico ou poético. São logotipos pessoais que a intempérie e o clima vão tratando até à fusão com o pó. O pintor das cavernas faria o mesmo? Era ele um outsider que às escondidas do bando gravava nas pareces e nos tetos em pedra? “Arte pura”. A ação sem fim em si mas com a finalidade de estar presente, deixar presença na circunstância da sua existência para si e para o grupo. A imagem que mostro foi recolhida na VCI, foi fotografada em andamento. Julgo que ninguém a vê pois a velocidade de circulação é sempre acima de 100km. Mostra a precaridade que essa imagem gráfica tem para todos nós mas não deixa de ter uma presença subliminar que é sempre ténue ou vaga. Interrogo-me, quantos mais anos assistiremos a essa continuada repetição dentro das mesmas variantes do modelo gráfico?




BILL VIOLA
















BILL  VIOLA, 1951, New York, é um dos mais destacados cultores da vídeo arte performativa. As suas obras muito divulgadas pelo YouTube, nomeadamente, são duma vibração emocional e de uma simplicidade comunicativa que lhe granjeiam muita admiração e até culto.  São já vulgares as considerações de que a água, a luz, a terra e o fogo estão na base da organização concetual e motivacional da ação das performances. As imagens registadas são editadas e tratadas em ambiente digital e, assim, se tornam a Obra. Considero que a sua obra é muito marcada pelo espírito do ar. Eu sinto falta de ar quando as vejo. Afogamento, irrespirável, secura ou paragem. O elemento expressivo mais determinante dos  vídeos é o movimento lento. Qualquer ação, independentemente de na realidade ter sido mais ou menos rápida, é depois reformatada para um tempo, um ritmo, que criam uma tensão, às vezes exasperante ou ansiosa, que é matéria expressiva artística. A violência , não só física, mesmo contida, está sempre presente ou é anunciada e em muitas obras ela vem da água mais do que do fogo ou dos homens. A água é muitas vezes agitação. Não é tranquilidade. Se a purificação como conceito ou experiência é por vezes induzida nem sempre é verdadeira. O corpo humano, em especial o do homem, é objeto e conceito de sofrimento, ou de sublimação, transfiguração ou espiritualização.  Esse universo pretende por vezes ligar-se a Cristo. Talvez por isso a dor é mais comum do que a alegria e o prazer. Religiosidade como anti hedonismo? Como por vezes se dizia dos realizadores de cinema, há quem diga que os pintores do renascimento se tivessem vídeo não fariam pintura. É uma suposição ou ideia tola; tão tola como achar que Viola, se não houvesse vídeo, seria um excelente pintor. Ele cria analogias ao nível do caráter das figuras, da sua força representativa, com imagens ou figurações de pinturas do renascimento maneirismo, barroco. Mas isso parece ser mais uma “habilidade” para estabelecer proximidades, citações e alusões no reforço de intencionalidade expressiva. Mas nada tem a ver o que se passa num quadro de Masaccio, Giotto,  Rafael, Pontormo.  A pintura é um outro objeto significante. As nossas mentes estão preparadas, mesmo sem treinos, para ver a diferenças.




BELLINI












Giovanni Bellini, 1430-1516, foi um dos mais destacados pintores venezianos. Esta pintura, com 119x73 cm, a têmpera sobre madeira, designada habitualmente como "sagrada alegoria"é para mim, há muitos anos, um epígono como imagem. É a “situação”. O que quero dizer com situação? É uma qualidade própria da representação num contexto semântico de forte conotação. O tema é uma incógnita. Algumas das figuras são reconhecíveis e possuem um significado canónico ou estalecido pela religião cristã e a moralidade envolvente da cena, ou situação, remete para esse contexto ou universo mítico. Mas a poética não é aquela das mais acostumadas nas cenas da ilustração da historiografia cristã. Estamos a falar de uma sensação de mistério, de ação suspensa, de voto de felicidade, de redenção ou plenitude. Esta imagem, admito, não a considero como sendo uma ilustração mas talvez uma alegoria ou então uma interpretação poética do autor duma situação imagética. A pintura veneziana como em Giorgione, por exemplo, tem outras obras de igual condição.  Talvez a condição burguesa da cidade, menos dominada pela moral e costumes religiosos mas pelas “leis da vida social e comercial”, explica essa poética. Hoje achamos isso natural. Pintar o que nos apetece, com as figuras que nos interessam e nas relações semânticas que surgem, procuramos ou impomos. Mas desde esse final do séc. XV até aos tempos simbolistas do final do séc. XIX, essa experiencia criativa e expressiva dos significados da obra de pintura quase não existiu. Ou se fez a denotação; retrato, natureza morta, paisagem ou se ilustrou a história bíblica, a mitologia grega ou cristã. É por isso que surge esta situação.


GALVÁN




















José Luis Lopéz Galván, 1992, é um jovem pintor mexicano que me apareceu nos passeios pelo Google. As imagens das suas pinturas surpreenderam-me pela profunda irracionalidade, arbítrio e delírio e, ao mesmo tempo, mestria da representação da figura humana e animal e na interação entre elas e os níveis de conotação. Ele habita as cenas internacionais, pois há muito que se desloca por esse mundo das cidades em que os gothics, freaks,heavymetal têm poiso. Não me é um cenário habitual nem de culto ou de adesão. É-me estranho. Essa estranheza manifesta-se no domínio da poética ou do estado de alma, coisas que andam muito ignoradas da vida das artes plásticas e que quando surgem ou se insinuam, como neste caso, nos levam a arrebitar a mente. Parece que o que domina a sua mente são os dispositivos imagéticos que insinuam anormalidade, abjeção, tortura, pânico, … Este quadro veio do surrealismo na sua senda de provocação moral da burguesia religiosa e convencional. Bosch foi o primeiro, para além das mais ou menos habituais representações medievais das torturas dos santos e pecadores nos infernos diabólicos, que se dedicou a levar-nos para essa zona das impropriedades dos corpos, das funções e das relações entre causa e efeito nas imagens. As tentações do Museu de Lisboa são um bom repositório. Mas nessas grandes cenas sobre o mal, a presença do bem, do bom, do perfeito lá está, mesmo que seja necessário procurá-lo. Mas nas obras de Galván estamos sempre a defrontar o grande mal, o grande distúrbio, a grande anomalia. O cinema e a BD já nos habituaram a essa condição de viver pelo horror. Mas a pintura que é uma arte objetual, e que existe como coisa em si, que vive num espaço, tempo e lugar especifico, leva-me a interrogar sobre quem gostará de ter em casa imagens destas? As imagens, como as pessoas e as situações desencadeiam em nós emoções e sentimentos e de seguida conceitos. É isso que nós esperamos da vida, que seja boa para nós, isto é reveladora, descobridora, transfiguradora, superadora mas longe do mal, já que estas ações o podem trazer. Estéticamente ele adota com algum critério na composição, como nesta imagem, a forma da mandala, e noutras imagens certas formas arquetípicas mas acima de tudo plásticas. A expressão cromática e textural é muito convencional e respeita critérios miméticos básicos e normais. Deus é para ser contemplado; o Diabo é para ser analisado.




      HIROSHIGE






Utagawa Hiroshige ou Andō Hiroshige, 1797–1858, foi um célebre desenhador, pintor e gravador japonês. Há dias caiu-me na mão uma edição com reproduções das Cem famosas vistas de Edo. Já conhecia há muito uma versão fac-similada das 53 vistas doTokaido. É um verdadeiro encanto esse encontro entre uma realidade natural e cultural tão invulgarmente estetizada, como é, em especial, a costa leste do japão entre Tóquio e Kyoto, e a estética das imagens produzidas através da gravura em madeira. Nesta metade do séc. XIX, no Japão ainda fechado ao exterior é surpreendente e fascinante como se desenvolveu uma tão delicada, intensa, apaixonada cultura da imagem do real. Esse real era o ukiyo, traduzível por mundo flutuante , termo budista surgido no séc. XVII, que era um mundo de tristeza e pesar mas também de hedonismo e contemplação muito próximo da vida das gentes e das paisagens que habitavam e construíam, longe da vida dos grandes senhores. Os motivos escolhidos eram desenhados primeiro, depois aguarelados e depois adaptados técnica e plasticamente à gravura em madeira. Estavam relacionados com diversos valores de natureza religiosa, mística, moral e social e não só a valores plásticos ou formais. A construção da imagem que partia do real era em muitos casos recriada e sujeita a transformações dos elementos representados naturais ou culturais como arquitetónicos e outros. A invenção formal e de efeitos plásticos é muito atraente. A composição da imagem é duma clareza, imprevisibilidade, surpresa, força expressiva que Van Gogh e os pós impressionistas da cultura francesa não puderam ignorar. Mas como vemos nas cópias de Van Gogh ficaram muito longe de ter compreendido. Os conceitos de vazio, assimetria, ritmo, tensão cromática eram estranhos à cultura artística e das artes plásticas europeias. Só no séc. XX os europeus artistas puderam aceder a esse universo.  Os japoneses desconheciam a perspetiva mas é surpreendente como ao contrário de todas as culturas não europeias dominavam a profundidade como realidade empírica, como a experiencia de quem vê o que o rodeia mas sem ter um sistema que o explique. A obra de Hiroshige tem em Hokusai um mestre genial e mais eclético. Não só se exprimiu através das imagens do espaço mas também dos animais e plantas que inclui duma forma surpreendente e original na imagem da paisagem. Na senda da grande pintura chinesa a representação constrói o mundo.









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AS TRÊS GRAÇAS

È  uma imagem do Vietname do tempo da terrível e estúpida guerra que  os USA promoveram. Três jovens de Saigão, capital do Vietname do Sul que os Americanos dominavam, hoje Ho Chi Minh. Logo fiquei atraído pela força do símbolo. As três graças são uma situação simbólica da mitologia grega que expressam o encontro no que é diverso, da alegria do encanto e da concórdia, coisa não frequente. São representadas nuas, pelos artistas em diversas épocas, tocando-se nos ombros com as mãos e olhado para direções diferentes. Chamavam-se Eufrósina, Talia, Aglaia. A tríade não é um símbolo de totalidade mas de abertura e de relação. Quando há três hipóteses para ver o mundo cria-se a possibilidade de uma das tendências ser preterida as outras. Se procuram a concórdia, a sorte, a gratidão elas sabem que não precisam de estar todas de acordo e haverá sempre um caminho a seguir. O três é o número perfeito para vários sistemas filosóficos, religiosos e simbólicos. Fé, esperança e caridade; soma, unidade e diversidade; nascimento, vida e morte; pai, filho e espirito santo, entre outros. Mas a cena de três mulheres, jovens que se relacionam com gestos delicados encontra aqui uma versão que encontro muitas vezes no real. A conversa entre três mulheres. A conversa entre três jovens não tem para mim a mesma expressão. Na imagem é importante a estética associada aos fatos ou vestidos. A imagem é dominada por tons de cinza que se espalham por toda ela e só os cabelos são de um negro intenso. A que não tem chapéu é a única que leva uma candeia e uma bolsa pequena. O passo é o mesmo das exteriores e diferente da do meio. Suavemente a brisa levanta as leves túnicas dos vestidos sobre as calças. Estamos longe da nudez que a pintura cultivou por razões sobejamente conhecidas. Os textos gregos não falam de cárites nuas mas vestidas. Nas duas que olham há uma apreensão, que aquela que para elas olha, tentará alimentar ou desvanecer. Há ali um espaço de segredo e, talvez, secreto. Mas é este um dos aspetos fascinantes do mundo da feminismo.







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NÁUFRAGO

O que se terá passado? O que aconteceu? O que espera o homem? Como foi fotografado antes de ser socorrido?  É uma imagem de tranquilidade no meio do caos e do horror, da solidão e do desamparo. A imagem a preto e branco como a maioria destes tempos dos anos 70, fornece muita pouca informação sobre o que estamos a presenciar, isto é, em presença de que estamos. É evidente que para se produzir um efeito de mal estar, de  desgraça, desconforto,  pouco é preciso. Logo me ocorreu a imagem das aves presas pelo petróleo dos desastres com petroleiros nas praias. Nós identificamos os sinais que apresentam certos objetos que julgamos reconhecer através de certas partes e do corpo e da face de uma pessoa que esteja integrada ou tenha sido afetada pelo evento. A luz da cena é neutra e não há luz solar, o que cria um clima depressivo e ausente de esperança, ou se presente o anúncio ou promessa de bem estar. No plano formal ou estritamente estético a imagem é constituída por uma forma tubular em curva fechada que entra no campo da imagem e dele sai. Sobre ela uma figura está sentada e inerte. Tudo se passa no quarto inferior da imagem.  O que há para ver no resto da imagem, são restos de coisas mais do que formas icónicas. Enquanto que toda a imagem é de um cinza que parece brilhante, metálico,  pela presença de reflexos, a figura é quase toda um cinza escuro com algumas presenças leves do mesmo cinza geral. Quase tudo se exprime por essa simples variação de dois cinzas com ligeiras nuances. Para se sentir a tristeza não precisamos de procurar mais.




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AS LUZES

É uma imagem muito imprecisa e da qual não temos informação documental ou funcional. Parece haver uma ação coletiva e em que as pessoas levam na mão uma vela, lanterna, ou luz. Estarão num lugar ermo e a imagem foi recolhida debaixo para cima o que reduz a informação sobre a envolvente. O elemento mais preponderante da imagem são as luzes.  E em termos de valores plásticos aquilo que reconhecemos como fogo e luz é uma pequena forma branca oval com ponta rodeada por um arco alaranjado que se junta a essa forma por uma zona amarelada imprecisa. A “ luz” surge porque nada na imagem tem uma luminosidade cromática próxima desse branco e laranja. Assim se faz a imagem do fogo. A luz retida na mão é um gesto e uma ação dum enorme e tradicional efeito. Quem o experimentou a primeira vez nunca o esquecerá e talvez mesmo, se não o fizer regularmente terá uma renovada  sensação muito particular. O fogo, a luz e a energia elétrica, hoje muito vulgar e com aspeto  físicos muito diferentes e mesmo sem calor, são a mesma coisa. Estamos em contato com o imaterial, o fugaz o repentino. Agarrar um relâmpago, reter um raio do sol, agarrar a faísca que salta da pedra faria de nós deuses. Então nestas pequenas velas nos aproximamos com receio, apreensão, atração, sedução e encantamento. Manter a luz acesa é, nas cenas como esta, uma tarefa preponderante. Hoje o interrutor afasta-nos dessa dificuldade, desse risco ou dessa contingência. Estamos afastados das forças vitais. Protegidos contra os perigos e as precaridades e desejamos ardentemente aumentar esses regimes securitários. Mas em grupo ter na nossa mão uma chama de fogo, um incandescência, a luminosidade como coisa em si mesma é uma tarefa , uma disponibilidade e um privilégio que deixamos de ter oportunidade de exercer. Provoca o recolhimento mental ou psicológico como as figuras da imagem parecem exercer. Cria uma referência para o próprio corpo não só simbólica ou mítica mas mesmo física ou de risco.  Porque estar junto à luz é o supremo privilégio.





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MARILYN MONROE

Vénus, em vida, entre os anos 1926 e 1962, em Hollywood, no cinema, retoma Afrodite, primeiro grega, nascida do mar numa concha de madrepérola, depois Vénus romana. È uma das figuras supremas de mulher, é uma das imagens de mulher mais difundidas no mundo ocidental nessa metade do séc. XX. Hoje poderia ser em todo o mundo globalizado. Mesmo noutras culturas e tradições a força da sensualidade, da sedução e  inocência, do erotismo, da ternura, da alegria ou felicidade, da juventude ou pureza se imporá ao observador. Esta imagem é muito marcada culturalmente, ao contrário de outras imagens de Marilyn, em que se mostra toda nua, como quase sempre Vénus é mostrada pelos pintores e escultores. O que há de mais branco, claro está na figura. É uma fotografia e preto e branco num tempo em que nos magazines a fotografia a cores era invulgar ou rara. O brilho dos tecidos exalta o branco acompanhado pelo brilho dos cabelos. Ela recebe a voz de alguém do outro lado da linha, segura numa mão o bocal do telefone, que era constituído por dois objetos dependentes ou solidários, quem se lembra? A outra mão segura uma caneta, objeto-instrumento também já raro e de coleção. O caderninho ou agenda de registos de moradas e telefones de interesse ali está. A Vénus romana só usa o corpo. A modernista tem que usar a tecnologia e os acessórios e objetos industriais. A face olha-nos, não só os olhos, mas os lábios, as sobrancelhas, os dentes. A postura é aquela aconselhada às datilógrafas e secretárias. Coluna curva, peito em frente, nádega recuada. Vestido decotado e com saia travada. E se algo do corpo se mostra ou anuncia do que se pode ver, as luvas se encarregam de esconder o que mais nos toca, os braços e as mãos. Ficam em reserva na promessa de maiores intimidades. A cabeça, tombada ligeiramente, exprime a fragilidade que esperamos poder vir a acudir.




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PAISAGEM DA MONTANHA

Este é o paradigma da “montanha mágica”. No espaço a terra sobe e cresce para o céu e parece subir sem fim. Temos o deserto plano que podemos percorrer com os olhos e com o corpo andando, e temos a montanha que esconde outra, e outra, e que impede o corpo de andar. Há os povos da montanha e os povos da planície e muitas guerras se guardam na crónica humana sobre os seus confrontos e recontros. A montanha é lugar de refúgio. O sente quem lá está. Estará mais alta e dirão “perto do céu”. Eu sei que não. Mas sei que o ar é mais rarefeito a força da atração da terra é menor mas o cansaço no corpo é maior. Por isso estamos menos na terra. Nesta imagem da montanha, nos Himalaias, a presença dos habituais mosteiros budistas é costume. Mas aqui o que me interessa é a possibilidade que essa presença nos oferece de sentir a escala no real, pois ela é de fato uma relação entre o real e a sua representação. Mas que tamanho terão as imagem de mais três conventos colocados nos outeiros das montanhas seguintes? As montanhas que vemos atrás não têm uma dimensão relativa. Vemos no primeiro plano umas rochas. Elas terão cem metros ou dois metros de altura? As paisagens naturais, que não são constituídas por objetos produzidos pelo homem, não têm um valor dimensional. Nunca sabemos a sua relação com a dimensão humana. A isso com pouca precisão se diz escala. Por isso as paisagens com presença de construções humanas confere à dimensão da montanha um valor e um referencial que nos permite sentir o que é grande e o que é pequeno. Nesta paisagem da montanha parece não existirem árvores ou o mundo vegetal relevante visualmente. A montanha, a partir de certa altitude, é sempre assim desértica, ou árida, ou rochosa pois mesmo quaisquer elementos orgânicos foram retirados pela erosão. É a montanha descarnada mais afastada da presença ou da revelação da vida. Então parece que surge mais intensa a presença do espírito. Podemos dizer que o espírito só surge depois da vida ter desaparecido? Que os monges tibetanos encontram nesse ambiente o seu lar pode ser só uma ação de proteção e defesa. Ou mais que isso.




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FACE DE MULHER

A face é a parte da cabeça dos humanos que tem a mais complexa relação de elementos expressivos.  São eles que nos produzem, quando vemos uma face humana, muitas sensações, emoções, sentimentos, indícios além de sedução e dependência.  Uma face pode ser vista de frente, de perfil ou a três quartos. Nunca ao mesmo tempo. E quantas vezes verificamos como a face de perfil nos comunica ou exprime sensações que a imagem frontal não revelava, ou vice-versa. Essas duas visões da mesma realidade são fascinantes em termos de perceção e comunicação da imagem da pessoa, de variação e diferenciação do tipo de face ou de fisionomia. Nesta face de uma octogenária poderemos encontrar sinais e expressões que cada um recolherá. Eles surgem a partir da plasticidade de um órgão, a pele, que se apresenta conforme se vão alterando os processos de envelhecimento celular. As alterações que os componentes da forma da face vão sofrendo conferem à face uma atração, um fascínio e uma variedade que a mesma face, com 15 anos, não teria embora expressasse, pelo seu caráter e estrutura os mesmos sentimentos ou outros muito semelhantes. É possível encontrar conjuntos de padrões nas rugas entre as sobrancelhas, sobre os lábios, sobre os olhos, sobre o nariz, na testa que são muito atraentes plasticamente ou esteticamente, embora desagradem, normalmente, ao seu portador. Psicologicamente a face é o terreno onde podemos detetar os sentimentos ou a emoções e o caráter e até sinais da história mental do ser. Desde o sofrimento recalcado, à serena existência, à tranquila vivência, etc. Mas estas interpretações, estejam mais ou menos fundamentadas por sistemas interpretativos da fisionomia das marcações musculares da face,  estarão sempre longe de nos dar a “história da pessoa”. Esta face tanto me transmite uma tranquila vida como sofrimentos aceites. Tanto são sensuais os lábios como são tristes ou melancólicos os olhos com as curvas baixas das pálpebras. As sobrancelhas estão muito firmes ao centro e muito caídas, em sofrimento, para os lados. O olhar, as iris são muito grandes e escondem muito do branco do globo ocular. Bondade, perdão, serenidade, aceitação… ,ou…




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A MÃO

Nove mãos tentam tocar outras mãos. Temos a sensação de opressão e carinho. Uma irreprimível necessidade de tocar o outro é o que origina esta imagem. Como seria uma necessidade irreprimível, idêntica, com cães, que também as têm, sei eu? Tocando-se com a boca. Nós também o fazemos. Mas nada substitui a mão quanto ao tocar, ao saber e ao conhecer o que é a outra coisa ou o outro em que está a mexer.  Baxandall no seu livro, Giotto e os oradores, trata dessa ordem dos gestos e das posições da mão na pintura e na prática da prédica cristã medieval. Cada gesto tinha um sentido e um significado mais ou menos canónico ou cultural. Mas aqui os gestos que se manifestam pelos movimentos das mãos são a manifestação de uma energia, de uma confidencialidade comunicacional. Sempre preferi apertar a mão a uma pessoa, aos meus netos, do que dar o simulado beijo na face que eles repelem e que eu me lembro de repelir quando menino. É húmido e se fosse na boca era reciprocamente húmido. No aperto de mão, que pode ser muito variado, é seco mesmo nos casos de suores excessivos. Mas eles também são comunicação. As mãos são ossos, músculos, tendões, textura, e calor. Sabe-se que nas pontas dos dedos a pele têm uma capacidade de recolha de informação muito superior a todas as outras partes do corpo. Estes humanos que se atiram ao figurante e querem tocá-lo usam deste dispositivo do seu corpo na relação com meio. A imagem é muito curiosa pelo movimento da  associação rítmica das mãos. Por outro lado, as mãos são todas magras ou pouco grossas ou gordas. Essa magreza dá mais energia, vigor, nervosidade aos gestos. Todas as mãos estão abertas prontas a receber o contato. Sabemos como a mão desempenha um grande papel, mais do que qualquer outra parte do corpo, na violência sobre os outros e sobre o meio. Olhamos as nossas mãos, num tempo de estetização do corpo e da própria mão, acima de todos, na mulher, sem exigências. Mas podemos ver nela corporizados, mesmo latentes, esses desejos de contato, posse, ação, domínio, carinho, afeto, agressividade, castigo, punição, destruição, que nenhum outro ser vivo usa com tanta precisão e segurança. Cinco dedos.



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ESTAR

Esta é uma imagem que só poderia ser recolhida, ou vista, a partir dos anos 60 nos USA e na Europa. Ela contém ou exprime uma conceção de grupo social, de vínculos, e dependências, de regimes morais, de costumes sociais, de crenças e de sentidos de segurança e bem estar. O homem sempre procurou os grandes agrupamentos e há imagens de festas religiosas diversas em que o agrupamento se faz mas não tem esta forma este padrão, este aspetos. Apesar da aparente desordem todas as pessoas, homens e mulheres entre os 15 e os 30 anos, estão viradas para uma direção, salvo raras e ocasionais exceções, como o fazem as gaivotas em grupo na praia. Ainda não olham para algo preciso, num sentido definido, mas parecem esperar que algo nessa direção aconteça. A maioria está deitada o que quererá dizer que estão nessa posição há bastantes minutos ou horas. Sair deste espaço ou lugar é uma tarefa que só se pode verificar individualmente e com muita dificuldade.  Em grupo só com muita ordem – caso contrário é um caos. Mas esse risco é bem aceite ou ignorado. Há um sentimento de intimidade, mesmo entre estranhos. Com frequência nas grandes praias sucede algo semelhante e aí estão todos quase nus. Mas esta presença só se realiza para assistir a um ato ou a uma atuação, talvez musical ou previsivelmente de música pop-rock. Todos estão sentados ou de joelhos e essa condição de pose dá essa sensação de passividade ou não ação que certos grupos pacifistas na América lançaram como ideologia politica e social. O cromatismo da imagem não é muito fidedigno face ao que se encontraria no real. Mas é sempre curioso ver como ao caso se criam padrões cromáticos ou tonalidades dominantes na imagem que lhe conferem um caráter próprio. Tudo seria diferente se estivessem todos de preto ou de cor rosa e amarelo. Aí a cor desempenharia um papel não só estético mas semântico e alargaria o espaço de significação da imagem. Nesta domina a neutralidade. É um padrão, em termos estéticos, e podemos encontrar leves movimentos rítmicos originados não no acaso mas no que resta duma ordem formal aplicada ao ajuntamento informal de grupos humanos. Um padrão que é, também por natureza formal, o local da indiferenciação, da igualdade, dos diferentes e dos iguais.  Estão tranquílos.





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FUNDIDORES

A tarefa milenar da fundição de metais está na base da tecnologia industrial. Estes homens filhos de Vulcano, recordam-me a pintura de Vélazquez, Apolo na forja de Vulcano, não pelo tema ou pelo significado ou conteúdo mas pelo contexto e pela cor dominante.  Têm nas faces um orgulho que vem dos deuses, não sei se dos gregos ou dos da idade do ferro, mas  não do calor e do esforço de domar o metal fundido. É uma imagem em tons de sépia e algum preto e branco. A composição da imagem é clássica ou convencional. Figuras hieráticas sem ação ou me ação contida. Só vemos 5 mãos das dezasseis possíveis. Isto diz-nos que pouco têm a dizer. E mesmo essas estão um pouco recolhidas. O que têm a fazer é muito mais importante, como acontece com quase todos os operários, figura que deixou quase de ser nomeada pois a industria já não é o único motor do mundo. Todos nos olham, perante a formal fotografia de grupo, do repórter, exceto o da esquerda que olha para longe. Mas estão sorridentes, por alguma piada de ocasião se produziu. Mas o líder está indicado e presente. Todos têm óculos, ele não. Tem pala como alguns outros. Não é o mais baixo mas é o mais frágil fisicamente. Um homem de barba dura que se envolve no manto de amianto e ligas de materiais resistentes ao fogo e ao seu calor. Sempre me senti fascinado pelas profissões nos limites do suportável, como é a dos mineiros. Sempre me surpreendeu e encantou ver como não trocam essa vida por nada deste mundo. Parece que têm um pacto secreto, uma sina ou uma marcação feita por magias ocultas. Mas hoje e agora há tanto o sentido do confortável, desde os carros, aos locais públicos, às casas e locais de trabalho, hospitais, nesta sociedade do desperdício, do irrelevante e vulgar, que só nestes contatos podemos olhar a vida com outros olhos e tomar consciência que ela é, por natureza, precária, rude, perigosa, desconfortável tanto como deliciosa.





UMA IMAGEM E QUASE MIL PALAVRAS.  3















GENOCÍDIO


Esta imagem é uma fotografia. Poderia ser um desenho a grafite em barra, em pastel seco. Mas alguém assistiu a esta cena. Alguém viu esta imagem antes de ser fotografia. Nenhuma das pessoas, que acreditamos serem aquelas figuras, viram esta imagem ou as imagens que os seus corpos nus e os seus corpos vestidos, associados de forma terrível, infernal, demoníaca, viveram. Esta associação é um dos mistérios do sentido do devir humano. Elas não olhavam para os assassinos. Estes mataram de costas. Será melhor olhar de frente quem nos vai matar, ou não ver? Como é possível que alguns homens armados matem dezenas de mulheres nuas num descampado duma mata? Há mulheres já mortas. Outra estão ainda vivas, uma estava a ser morta a tiro. São soldados nazis. Mas ainda há poucos anos, nos Balcãs, em várias regiões do Oriente e na África os homens exercem o extermínio de outros seres humanos por diferenças de cultura e crença. Seguem uma necessidade e uma pulsão que a Bíblia nos mostra, em muitos momentos, ter uma funda tradição no ser humano. A fotografia deixa-nos ver, como imagem, uma cena que a história humana testemunha com inúmeros eventos semelhantes conhecidas por testemunhos dos sobreviventes ou dos carrascos. O fotógrafo estava a documentar o massacre como prova para os chefes ou como meio de denúncia? Como se pode sentir o ódio, a ignominia, o rancor, o horror? É possível apreciar esteticamente esta imagem? Se fosse um desenho seria? Uma fotografia de um massacre não é arte. Mas a pintura de um massacre é arte. A representação é a volta que a mente do homem descobriu para poder fazer isso ao realizar a imagem e a observá-la. É irrelevante o grau de nitidez, de detalhe, de resolução, num caso ou noutro. Estamos emocionalmente, eticamente, impedidos de olhar para esta fotografia e reconhecer valores estéticos na imagem. Só nos resta rezar, orar, silenciar, parar, parar, em memória.



 IMAGEM E QUASE MIL PALAVRAS . 2




















INSTITUIÇÃO

É a primeira palavra que me ocorre depois de ter visto a fotografia algum tempo. E devo escrever quase mil. Quando a encontrei, nos encontramos, fui dominado pelo fenómeno estético. A imagem antes de representar ícones ou figuras de seres humanos é um campo plástico em que se ordenam tensões, movimentos, repetições e ritmos que são, como na música, os fatores decisivos da estética. A regularidade desses fatores plásticos cria um padrão estrutural mesmo dentro da diversidade ou das particularidades. Se olhamos para a imagem, sem fixarmos o olhar, ela cintila ou o nosso olhar salta pelas formas antes de serem cabeças. A força da imagem estará aí. Também senti um apelo, pois esta não é uma imagem abstrata mas uma representação e contém forças sentimentais e morais. Todas estas pessoas olham para mim e já morreram. As séries de filas sempre cada vez mais longe e cada vez com mais figuras, que me olham, deixam-me perturbado. Elas sabiam que alguém, passados 75 anos, iria olhar para elas, mais do que para a imagem delas. Nós não temos consciência da nossa imagem mas temos consciência de todo o nosso ser até ao ponto em que a consciência é capaz de atuar. Em cada uma delas havia um problema para resolver na Escola de Artes Aplicadas em que trabalhavam em New York. Mais próximos de nós estão os mais idosos e lá no fundo os mais jovens, provavelmente. Em muitas delas havia uma esperança de que nos dias seguintes se realizaria o seu desejo ou encontrada a solução para o problema do momento. Procurei verificar se alguém me não olhava. Na terceira fila, à esquerda, a senhora desvia o olhar. Saberia que eu iria constatar esse fato único? Todos os outros me olham. São uma instituição. Só o individuo é capaz de ter ideias de inventar de criar. Mas só a instituição que outros criaram podem dar sentido ao seu poder. Acho que todos sabiam isto. Alguém propôs ou decidiu que esta fotografia fosse feita. Ela foi feita numa data especial, não interessa qual. As pessoas acreditam que essa imagem vai ficar e que eles vão desaparecer. A fotografia veio tornar este desejo ou invenção muito fácil ou acessível. Mas a força comunicativa, expressiva, indutora, não sabemos como se vai constituir e atuar nos tempos. Eu não posso mais esquecer esta imagem que ultrapassa a condição de cada um dos presentes na sala e apresentados nesta imagem. Entre eles, os mais próximos, podemos estabelecer empatias leves mas nunca passaremos daí. Não ignoro o cenário neo-gótico muito cultivado nas instituições culturais americanas. Mais instituição presente. Estas 70 pessoas presentes e visíveis são quase com certeza de idade superior a 40 anos o que é surpreendente pois parece que nestes tempos não havia gente jovem nestes locais. Fico com a impressão que são todos da mesma idade. As fotografias coletivas são sempre comemorativas. Num certo dia, numa festa ou evento as pessoas devem deixar registado esse momento, para mais tarde recordar. E sabemos como as pessoas se deliciam a encontrar, a descobrir aquele ou aquela que eram seus colegas. Esse contato esse reconhecimento faz o tempo e o tempo cria essa necessidade e esse prazer que nos faz pertencer. Esse sentimento de pertença, de ter sido com outros, é muito reconfortante e está muito para além da fotografia. Quantas imagens existem nesta fotografia? Quantas imagens esta fotografia, que nos é estranha, nos faz surgir no ecrã da nossa mente?

Nov.2016




UMA IMAGEM 
E QUASE MIL PALAVRAS  .1















O PINTOR E O MODELO

Este é um dos temas pós-clássicos e misteriosos da pintura. Porque quer o pintor mostrar-nos o que se passa nesse delicado momento em que entre o que não sabe o que quer pintar e a vontade de o fazer? Esta imagem, que é uma fotografia, mostra esse momento. Quase não o mostrava. O que a torna mais misteriosa. Uma oficina de tecelagem e também atelier de pintor. À esquerda pode ver-se um retrato de um “modelo” feminino, desenho ou pintura, tanto faz. À direita, com muita evidência, uma mulher nua posa para o artista pintor, pois que estaria a fazer uma mulher nua numa oficina de tecelagem.  Dele aparece um braço armado de pincel que pinta uma tela onde parece surgir a imagem de uma mulher nua. Estará ele a servir-se da mulher nua com o modelo? Sabemos demais como os pintores desde o séc. XVIII iniciaram uma já longa exploração desse tema. Um modelo, existirá, porque se quer fazer um retrato. Um retrato é uma tentativa de apreender e representar os aspetos essenciais visíveis e latentes de uma certa realidade. Um modelo não é uma imagem mas um reservatório potencial de imagens. Se desenhamos uma mulher nua de imaginação fazemos recurso a enorme quantidade de imagens de mulheres nuas que a nossa mente contém em níveis muito diversos. Isso destina o desenho a recorrer-se de configurações que estão estratificadas e sedimentadas de na nossa mente segundo certos padrões de gosto, de sentimentos e valores morais. Por isso se dizia no classicismo em geral que desenhar a partir da natureza, do modelo, era a forma de fugir aos vícios formais e às convenções. Ser criativo e inovador. Com o modernismo este quadro cognitivo, este processo de gestão do conhecimento e do saber foi anulado. Ficou só um quadro de saber que reside no interior experienciado e herdado do autor. Assim se passou à situação do modelo ser um mero pretexto. Como quase sempre é um modelo feminino e o artista é homem.  Poderá haver uma relação entre o modelo e o artista que ultrapassa a condição de objeto retratável. Pode ser voyeurism, pode ser estimulo sentimental, erótico, sensual,  enfim... Todos sabemos que um modelo nunca é a imagem para obra. Para isso existe a fotografia. Um modelo é uma motivação, um condicionamento que produz libertação. Um ponto de partida para uma chegada inesperada. Mas o que está na base desta atitude ou desta satisfação é o abandono da mimésis, da representação da realidade iniciada na arte nos meados do séc. XIX. A expressão do próprio artista é a base do critério para valorizar o ato de pintar que passa, acima de tudo, a ser “criação”. Não representar o visível mas o que está “dentro” do artista. Ainda hoje esta cultura, este paradigma, se mantém pois assenta na força de um direito bem moderno e romântico. Ser-se o que se é e não se submeter a modelos consagrados a modelos morais. Ainda vivi, na idade dos dez, esse universo e a presença dessa condição, desse paradigma. Senti como foi duro e complicado vencê-lo. E vejo hoje como ser autêntico, individual e subjetivo é comum e aceite. Uma ética da autenticidade é aquela que nos enquadra mas que encobre contradições e mesmo desvios e abandonos. Mas como todos sabemos este mar moderno e modernista não é de rosas; às vezes é quase um pântano.





. EXPOSIÇÃO FAUP . 

 Projeto RISCOTUDO
     https://riscotudo.wordpress.com/
   de 20 de Março a 20 de Abril
 

  
DESENHO setorna PINTURA

 10 montagens de aguarelas e desenhos
  

As peças da exposição mostradas a seguir, são a montagem ou associação de um desenho sem pensar, realizado há alguns anos, com uma aguarela que foi elaborada a partir dele. As aguarelas são mais recentes e fazem parte de um conjunto de aguarelas, entretanto realizadas, e em realização, seguindo o mesmo processo. 5 peças são baseadas em desenhos sem pensar, em A4, ao alto. As outras cinco são baseadas em desenhos sujeitos a tema livre, em A4, ao baixo
















PINTURAS NO iPad
- imagens a Sul 2015




























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. DESENHO DE NATAL 








. NOVAS PINTURAS A ÓLEO


 
óleo sobre tela 140x110 cm


óleo sobre madeira . 60x40 cm


























. NOVAS PINTURAS NO iPad








 










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Equilátero e Escaleno 
falam sobre se
VALE A PENA MORRER PELA 
CULTURA ARTÍSTICA
13ª conversa

1.1–Escaleno, presumo que estejas em viajem afastando-te desta nação, tanto quanto possas, para sentires mais falta dela. Não sei como encaras esta interrogação ou afirmação. VALE A PENA MORRER PELA CULTURA ARTÍSTICA (?) Será que poderemos passar da interrogativa? Será a cultura um instrumento ou o corpo essencial da existência, como dizia certa filosofia na1ªmetade de XX? Ou a cultura nesta época contemporânea não existe mais como teria sido definida na antropologia, sociologia e filosofia anteriores aos anos 50? Ainda me recordo que na nossa cidade há 60 anos, havia 3 jornais diários onde tudo o que se passava na cidade e alguma coisa do mundo das artes ali se encontrava tratado ou referido. Avida cultural artística tinha uma página em que semanalmente muitos dos intelectuais da cidade e do país recenseavam as exposições, os filmes, os livros, etc.. Internacionalmente isso também se passava nos principais jornais e revistas. Parecia haver a crença numa “ordem cultural” e num destino. Hoje isso desapareceu. A modernidade na sua versão modernista e posmodernista transformou essa vida na afirmação de um exercício individual, totalmente livre. A história é ignorada pois só trata do que não existe e o que existir, amanhã já será história, por isso futuro. Têm quarenta anos as primeira reflexões sociológicas sobre a sociedade em que vivemos. Dizia-se, “o modernismo era uma fase de criação revolucionária de artistas em rutura, o pósmodernismo é uma fase de expressão livre aberta a todos.” Com a sensação de comoção, na sociedade de consumo massificado, que já nessa altura se sentia, estaremos nós hoje mais envolvidos, integrados, pacificados, alienados, ou perdidos?


2.1 – Equilátero ainda bem que voltas. Eu também já voltei. Ando precisado de viver. Mas não sei se a nossa salvação está na cultura artística e se vale a pena morrer por ela. Num tempo em que o individualismo ganhou cidadania, pode mesmo ser considerado narcisismo, hedonismo, o que vale a nossa relação ou dependência com os outros? E não é isso a cultura? Como disse Max Weber, se não me engano, desde que a política, a filosofia, a religião e arte se separaram a salvação do homem faz-se ou por um, ou por outro dos caminhos. A cultura é aquela prática que a mente inventou para nos permitir criar e alimentar o conceito de eternidade. Não são só as religiões. Não sei se vale a pena morrer pela cultura artística mas pelo clube de futebol do meu coração valerá, com certeza. E já morreram vários. E também pela ideia de serviço ao outro. Stephan Hawking acha que daqui por mil anos o homem abandonará a Terra. Que se cumpra o Apocalipse. Mas estará enganado, pois deve ser mais brevemente. Eu por mim não estarei cá para ver e se estivesse só me restaria continuar a fazer as minhas pequenas obras artísticas e a cuidar das minhas flores que não sabem o que disse Weber. Será a cultura artística a minha salvação? Nem a religião me é útil, a filosofia e a ciência, ficam aquém e a política faz o que pode para nos iludir. De fato viver hoje a realidade cultural é impossível. Também me recordo dessas páginas de cultura dos anos 50 e 60. Eram ternas e tranquilas mesmo quando nelas se passavam debates acesos. Hoje o mal-estar advém da perda de sentido que está associada ao excesso, ao indiferenciado, ao igual, ao fácil, ao pessoal. Nunca tanta gente foi a concertos, a exposições, a museus e comprou livros. Mas quando por lá andámos o que vemos é que raros vêm, ouvem e lêem. E mais raros ainda falam ou gostam de falar do que viram e viveram. Hoje nos vários média o que encontramos são algumas conversas de promoção entre amigos. O mundo da música pop-rock surge como o mais são, sincero, ingénuo! Lá voltaremos.

1.2– Julgo que concordas comigo se disser que somos uns papaguiadores. Dizemos aquilo que os outros disseram. Bell, Lipovetsky, Marina, Taylor, etc. Reconhecido isso ficamos dispensados de estar a citá-los e aconselho mesmo aqueles que aqui chegaram a lê-los, de preferência, do que a seguir o que dizemos. Apetece-me, porém, referir um filósofo do nosso tempo, Charles Taylor, que voltei a reler e que estará na base da motivação para pensar contigo – a sós é tão penoso – sobre essa coisa de cultura artística. Algumas das ideias a que  chegaremos são dele, mas não é necessário estar sempre a referi-lo. Como tu dirias, quando as ideias forem boas não são nossas, são deles. Em cada hora, de cada dia, de cada mês, de cada ano convivemos com a diversidade artística. A mais agressiva, a mais tradicional e conservadora, a mais elaborada, a mais corriqueira, a mais antiga, como a mais recente. A esta realidade chama-se cultura que se junta ou aparato mais ou menos complexo de atos de socialização que os média dominam a seu belo prazer. Nunca a vida do homem, se fez, se cultivou perante um quadro semelhante. Não sei se isto nos faz bem ou mal. Se é um mal menor ou bem maior, ou o contrário. Mas não se pode deixar de reconhecer um “mal-estar”. As posições mais agressivas da cultura modernista sempre defenderam que o papel da arte era perturbar. Isso destruiria a sociedade burguesa e abriria a porta para uma sociedade mais igualitária ou mais perversa. Para um crente, a cultura é um elemento do processo da vida mas não é um bem em si. A dimensão ou a experiência contemplativa e espiritual que o homem cultiva há milhares de anos, fez dele o depositário de uma relação entre o microcosmos e o cosmos que deverá ter qualquer sentido?


2.2 – Equilátero, a nossa vida cultural moderna decorre em três dinâmicas que a sociedade capitalista na Europa e América desenvolveu nos últimos 100 anos. Ela alargou-se vertiginosamente nos últimos anos por todo o mundo, com fortes reservas no mundo árabe em certas dimensões  culturais.  A tecnociência, a gestão e a comunicação apoiam e determinam os caminhos da globalização. A democracia provocou mais igualdade na vida social e nos direitos cívicos e o reforço de uma ética universal, a livre expressão do individuo e a eliminação de critério morais restritivos. Para isto concorre um laicismo evidente mas ao mesmo tempo a maior liberdade religiosa. Essas três dinâmicas não são concordantes, nem estabelecem entre si ligações coerentes. São mesmo contraditórias. Taylor fala da conflitualidade entre culto da autenticidade individual, domínio instrumental da sociedade e de fragmentação do corpo social. “Cultura é todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, o direito, os costumes e qualquer outro hábito ou capacidades adquiridas pelo homem”, disse-o E.B. Tylor, em 1871 e ainda tem sentido. Outros autores, mais recentemente, afirmam que “Cultura é um conjunto de atributos e produtos das sociedades humanas, em consequência, da humanidade, que são extrassomáticos e transmissíveis por distintos processos da construção e criação genética”.
Mas por ser cultura, seja lá o que for, não é por isso que é bom. É muitas vezes mau e há culturas anexadoras e destruidoras de outras. A sobrevivência de certas culturas só existe por destruição de outras. Há o pensamento politicamente correto de que tudo o que é produzido pelo homem merece ser protegido, pois será cultural. Mas isso é falso não por ideologia mas por necessidade. A sobrevivência cultural até um período expectável é uma luta permanente e constante dos seus herdeiros.

1.3– A cultura é por definição o espaço que envolve a criação. A criação não é um atributo exclusivo da arte pois a arte é um dos campos da cultura. Nos anos 40 e 50, nos EUA e no Canadá, desenvolveu-se uma investigação no campo da sociologia da cultura. As noções de alta, média e baixa cultura baseada na análise de obra e contextos artísticos e comunicativos, que os novos média vieram criar, permitiram uma teorização que deixou de contar, por não ser politicamente correta. Sabemos que tudo o que homem faz é cultura e talvez mesmo a sua modificação genética. O desporto e o espetáculo, como o futebol, e  o golf são cultura. Maradona e Cristiano são para os argentinos e portugueses heróis. Mas são o quê culturalmente? Ícones, cromos? Qual é o corpo cultural de uma estrela de futebol? Quais valores e experiências enriquecedoras transferem para nós? O universo cultural é hoje em dia, ou na modernidade, ou na contemporaneidade um fenómeno muito diverso ou uma realidade com muitas diversidades. Há o culto das artes antigas, edições, vídeo, concertos, exposições, etc., com grande adesão de públicos e uma outra realidade feita de ações atuais com públicos mais restritos. Mas há públicos para tudo. Como já vimos a tradição do novo tem um paralelo na novidade do antigo. Pois cada vez mais o novo deixa de um ser com mais velocidade. As variações de grau, como já referi, tornam ainda mais alargado esse universo. A nossa sociedade é pluricultural e os seus membros estão-se nas tintas para qualquer veleidade interpretativa e categorizadora. É bem conhecida esta situação e a influência que tem nas instituições de ensino. Não lhes restará mais do que assumirem uma orientação específica, crítica e de tendência para conquistarem posições de diferenciação qualitativa?

2.3 –  A cultura como conceito moderno é aplicado a quase todos os produtos e ações que a revolução social e política e a revolução industrial e tecnológica, iniciadas no final do séc. XVIII, produziram. Vivemos há algumas décadas o tempo da indústria cultural. A cultura pertence ao setor terciário. É um serviço. Mas é um serviço que quer conduzir o grupo e o sujeito, quer ser super-estrutural e, ao mesmo tempo, negócio e mercado. Dantes era a igreja ou a religião que incluía e ditava a arte. Depois a aristocracia e a burguesia, desde Roma antiga, continuaram a fazê-lo. Há algum tempo, os estados totalitários também. Aquilo que chamamos cultura artística é uma enorme amálgama de realidades artísticas, disciplinares e sociais. A música e a canção pop e afins, a música erudita, o jaz, o cinema de autor e a telenovela, os marionetes e o teatro nacional, a exposição de Bosch, as instalações nos CAC, o romance policial e o poema são mundos que coabitam permanentemente em contexto. Podemos fazer reservas, mas eles não deixam de andar em volta. Assiste-se também a forças e dinâmicas ditas de multiculturalismo. Equilátero, nunca saberemos o que é isto tudo, como nunca saberemos como é o Universo. A consciência que temos hoje do que se passa no domínio das relações de causa-efeito no universo é semelhante ao que se passa no universo cultural. Uma realidade é cósmica e incluímos a outra que é antropocêntrica e queremos incluir lá tudo. Para que vale a pena saber o que é a cultura? Para dirigir ministérios, para orientar a pedagogia artística, para fazer arte, para que os artistas tenham consciência do que são e para onde vão? Acho que não servirá para nada, como podemos comprovar todos os dias em tanto desvario e sem sentido. Só interessa aos média como seção dos alinhamentos dos programas. No El Pais, na seção de Cultura podemos verificar, nós os portugueses, como isso é entendido pelos povos e como os seus arautos o conformam. A maioria dos autores referidos com muita prodigalidade são espanhóis e hispânicos, os estrangeiros são raros e são sempre as estrelas consagradas. Portugueses, gente irmã, só muito raramente. Quer dizer a cultura portuguesa só interessa aos portugueses. Mas nós seremos daqueles povos que mais se interessam pelas outras culturas. Confesso que gosto de deitar o olho quase diário ao El País cultural, coisa que nenhum espanhol fará pelo JN.

1.4 – A modernidade queria criar um autor novo. O autor que nasce, se desenvolve, isolado, seguindo o seu caminho e que depois a sociedade adota e reconhece como saído de si, ou pertencendo-lhe. Pode mesmo fazer toda a obra contra a sociedade. Depois ela aceita-o e glorifica-o. A cultura é essa relação contraditória entre o velho e o novo, o que nasce e o que existe, o que foi aceite e o que surge, e a sociedade necessita disso. A cultura é uma realidade efémera, como o inseto macho com esse nome, que vive um só dia, do nascer ao pôr do sol. A vida, os gestos e as obras tendem cada vez mais a ser assim. Há cada vez mais autores, e obras e cada vez menos espaço e tempo para as poder conhecer e, menos ainda, para as cultivar, o verdadeiro sentido de cultura, desde os romanos. Há poucos anos a cultura era definida e enquadrada por uma élite. Na modernidade iniciou-se um movimento de liberalização e democratização dos critérios que no pósmodernismo desapareceram.  Continua a haver especialistas mas sem autoridade.  Gente que pensa o “e porque não” como caminho para surpreender e  vencer  e não como caminho dialético. Hoje tratamos de nós e de alguns dos nossos parceiros mais ou menos próximos e temos as “grandes referências clássicas” para não nos sentirmos mesmo sós. Como Taylor admitia há anos, este contexto encerra o risco da fragmentação social e de num mundo global o que passar a contar ser o local. Mas eu não vejo nisso mal, como também não o vê Fernando Belo. A cultura popular numa das suas versões mais eruditas ou elaboradas concetualmente, a BD e afins, continua a com a música pop rock a viver com naturalidade num contexto da baixa cultura na sua relação com os públicos  e os criadores, como tu já anuncias-te. Os eventos promocionais nestas áreas associados à animação, ao vídeo e filmes têm uma forte presença e uma forte vivência cultural. Há ações de criação em grupo, de animação interdisciplinar e socialização de obras, debates em público e nos média. O suporte desta dinâmica é o comércio de produtos e a consolidação dum mercado internacional. Os autores e obras são transnacionais. Onde ficamos nós, Escaleno?


2.4 – Equilátero, à deriva ou em devaneio, como para aí se diz, como gente deste tempo! Muitos dos artistas plásticos modernistas e em especial pós, continuam nos seus discursos a querer convencer-nos de que o que fazem é, por inerência, arte, já que são artistas. Eles não têm um espaço, nas suas mentes, de dúvida ou de dialética. Eles são senhores do seu destino e duma “razão” que não é racional. Nunca se tinha ouvido da boca de qualquer pintor desde tempos imemoriais tão pobre tautologia. E como arte é a mais nobre das ações humanas a que todos podem aceder como autores a tautologia é total. O urbanismo, isto é, a transformação do espaço natural para o bem estar e elevação do homem, reflete a cultura de uma sociedade. As cidades emanam um espírito que é o espírito dos seus habitantes daqueles que lá viveram e dos que vivem. Mais do que nas grandes obras ele está nos pequenos detalhes ou pequenas coisas. Ocupar o espaço natural reflete sempre um certo modelo cultural, um conjunto de princípios, de valores. Consideração pelo natural e pela sua sobrevivência e afirmação de intencionalidade humana. Nem todas as artes, nem toda a pintura , buscam estetizar o mundo. Mas a arquitetura sempre o procurou e com o modernismo, exigiu; o design só o deseja e muitas artes de projeto só pensam nisso. Mas a tradição da pintura como arte não é a mais radical causa da pintura fazer isso. O naturalismo/realismo é a corrente que mais se afasta desse desejo e se coloca na pura contemplação do natural sem vontade de o alterar. As artes autonomizam-se da religião depois de terem surgido dela. O espaço artístico autónomo. A arte assume o papel de dar sentido à existência para o homem, perante as coisas invisíveis ou inexplicáveis, coisa que a religião o fazia. Pretende criar um homem novo. Não será isso uma vã ilusão, ou uma recusa do humanismo? O que move hoje o mundo, não são os intelectuais como o eram desde a Grécia. É a tecnociência. Ela interroga permanentemente, em milhares de centros de investigação do mundo, através das mentes mais dotadas, o que é a vida e tenta dar respostas efetivas. E nós cá fora ansiamos por respostas para os medos, os anseios e os desejos mais variados.


1.5 –Escaleno, sempre me senti em terra própria com os domínios da minha liberdade, de me libertar das peias, das convenções e das normas e das regras que ainda vivi numa escola de artes nos meus 14 anos. E se há conquista marcante da vida artística é a desse quadro que alguns chamam de autenticidade, de individualismo, de narcisismo e hedonismo. Eu sei que esta sociedade capitalista que a esquerda tanto ataca é a que permitiu este mundo em que a ciência e a tecnologia e a gestão com disciplina e rigor, nem sempre adequados e sérios, nos dão soluções para a nossa vidinha. A democracia, o modelo político institucional promove a igualdade ou solidariedade e em que se cultiva a expressão livre e a inovação artística permanente como uma moda, de duração curta e efémera. Ao mesmo tempo rentabiliza economicamente os museus e as salas de concerto com multidões de incertos cultivadores Promove-se, quase como culto, o corpo como fim em si (o que é o hedonismo? através de artes marciais, ginástica, natação, patinagem  etc. Como exercícios e manutenção  e logo como espetáculos artísticos com júris muito rigorosos tecnicamente. Isto só nos pode deixar perplexo! Como podemos encontrar sentido? Claro que hoje em dia a variedade de meios e produtos que o homem utiliza para exercer a sua relação com o meio e com ele mesmo, quase onanística, aumentaram de tal forma, nos últimos 50 anos, que a noção restrita elitista, sofisticada de cultura tem muita dificuldade em se caraterizar, nem digo impor.  O que podemos fazer hoje para, mantendo o direito à autenticidade e liberdade expressiva reencontrar a dimensão dialogal que dantes era uma condição natural da cultura. Tratar nas obras, as coisas e os conteúdos que são pertença e culto do outro e de mim?  O aperfeiçoamento é o objetivo principal das espécies para a sua sobrevivência, lembrando Darwin nos 150 anos da publicação da sua obra maestra. O homem não pode deixar de seguir este ditame. Faz isso com vários aspetos da sua vida, nem sempre bem. Porque é que nas artes a partir da eclosão do modernismo esse deixou de ser um objetivo e um ditame? O desinteresse pelas gerações futuras parece ser umas das tendências do narcisismo. O discurso de muitos jovens artistas e de outros mais idosos assim o revela. As dicotomias parecem ter perdido sentido. Não há espaço ou lugar para a dialética, para a incerteza para a dúvida. Só a suposta realização “autêntica do eu” tem sentido. Não se trata de monismo mas de sujeição de todo a visão da realidade ao seu corpo como subjetivação de si mesmo. O outro não tem sentido, nem há um sentido grupal e social. Quando abordo um livro da literatura destes tempos encontro quase sempre o autor a falar de si. O mundo existe porque ele existe. Dou logo um salto e pego em Camilo. Mas nunca em Pessoa. Estarei longe da realidade cultural dominante?

2.5 – A música pop rock é um âmbito cultural mais consistente. Sempre o terá sido. Ele responde e emana das energias mais comuns e mais acessíveis. É uma prática disseminada, como o futebol, tens muitos fans, ou cultores que sabem as letras e as músicas de cor. O público paga para ver os artistas que só tem êxito se vendem e aí são recompensados. Confunde-se o espetáculo o divertimento, a arte, expressão poética. O conceito de inovação é permanente como na moda, mas é ligeiro epidérmico ou recorrente. Os seus cultores são radicais pois só cultivam certos tipos de música e de autores. Pode exigir erudição, atenção elevada, cognição estruturada, experiencia multifacetada, abertura sensorial.  Fazem a obra pensando no que os outros tenham que lá descobrir mesmo que não lhes interesse nada. Mas o autor é quem manda. As novas ideias boas e más e as obras boas, só nascem no ser individual; mas só ao coletivo organizado, a instituição as reconhece e salva.) A diferença entre alta cultura, média e baixa é o grau de elaboração como sabemos. Não é só erudição mas exigência relacional, interativa, disciplinar, concetual e operativa sempre no nível mais elevado. Os artistas dantes faziam as obras pensando naquilo que as pessoas pensavam das coisas do mundo que eles representavam. Nas artes decorativas (abstração) não era preciso pensar em nada mas sentir e estar em sintonia de gosto, estética. No início do modernismo a estetização tomou conta da arte. Volto a insistir, Equilátero. Só o fator estético contava. Os outros sempre presentes na arte eram desprezados. Hoje o esteticismo tomou conta da nossa vida e do nosso quotidiano. Tudo é design. E o resto ainda existirá? A maquilhagem era arte para Baudelaire e hoje pertence ao domínio do corpo e é um dos exemplos da esteticização da vida cultura como a moda das unhas, dos cortes de cabelo, da tatuagem, etc. A outra área artística que domina a esteticização do mundo é o design de produto e de comunicação. Consumismo e abandono rápido, como exigência do processo. Conhecemos tudo duma forma quase infinita e podemos perder tudo. Tudo se vulgariza. O mundo da cultura, e não só, é como aqueles quebra-cabeças em que vemos uma pequena peça e não sabemos para que se erve e como se liga ao todo, (Lipovetsky). O papel dos intelectuais continuará a ser dar ordem nesse caos, criar vínculos, e coerência entre fatos, obras e conceitos que a vida vai segregando.  


1.6 –A minha conceção de cultura é a de que é conhecimento, razão. No conhecimento há análise, reflexão crítica e compreensão e permanência: na sabedoria à contemplação, intuição e compreensão e permanência. A sabedoria não chega a ser cultura mas é o seu substrato pois está encerrada no eu, não se alarga aos outros. A cultura é o eu com os outros. Começa com o habitual e reiterado contato com um poema, uma pintura, um trecho musical, etc.. Esse contato ainda não é cultura. Só quando refletimos e reconhecemos valores resultantes dessa experiência sensorial, psicológica e concetual é que se inicia o processo cultural. Mas ele só se afirma se há interação com os outros, seja na comunhão dos valores seja na afirmação das diferenças embora a comunhão de valores seja mais compensadora mas pode não ser a mais estimulante e produtiva. Daí o espaço para o confronto cultural. Assim o vejo Escaleno, no centro da polémica que enfrentam as conceções humanistas herdeiras duma tradição da cultura como construtora de identidade coletiva. Ainda como horizonte de sentido para a espécie, e na visão cultivada em muitos meios da pré-cultura hedonista individualista, libertária, anarquista, joga-se na afirmação da autenticidade ou da originalidade não como fim em si para o homem ou artista neste caso. A necessidade em abrir-se a horizontes de sentido e a definição de que é feita em diálogo e em enriquecimento mútuo. O afastamento entre a estética, a  ética e a moral começou já no séc. XIX. Vemos isso bem emVan Gogh, por ex., com dramatismo e sofrimento e vai intensificar-se nos dadaístas com muita ironia e atingir o nível cínico com Duchamp. Ele compreendeu como dispunha de um dispositivo concetual destruidor do sentido como força social e o potente estimulante da vontade individualista e solitária e auto- suficiente. Venceu mas não sabemos em quê porque as obras estão encerradas no seu invólucro de autenticidade não partilhada. Com que fim?

2.6– Reconheço-me nisso, Equilátero. Fazer arte não é a cultura embora seja considerada pela ideologia pósmoderna, na sua dimensão acima de tudo individualista, como a mãe da criatividade, da originalidade, da expressividade. Os pássaros, muitos deles cantam que nos encanta, e presumo que a eles também. Mas não possuem uma cultura do canto. Não chega cantar. Nem chega que outros ouçam o nosso canto. Precisamos de reconhecimento do outro e da posição relativa do nosso canto face aos outros cantos. As artes, as ideias, as crenças, os ritos, não são a cultura, são as matérias da cultura. A cultura é imaterial, volátil mas substancial e condição da vida espiritual. Mas essa cultura está pelas ruas da amargura no campo das artes plásticas, pelo menos. O que é a cultura da pintura? É aquilo sobre que raros escrevem e poucos o leem e muitos raros compreendem e retêm? É a fruição livre , individual, solitária que cada um faz? É a existência de atos públicos a que os média dão relevo e fazem com que se criem filas para ver algo que quando não é anunciado ninguém vai ver? É a existência da história e dos museus? Mas é falta de cultura, a inexistência regular de espaços público ou privados de informação, diálogo e debate entre os atores das artes. As Escolas de Arte deveria ser o ninho do gosto e do culto dessas práticas. Mas são hoje repartições, públicas e privadas, de atribuição de graus académicos que ninguém valoriza. Mas o mais absurdo é que nunca tanto se produziu teoricamente sobre as matérias das artes plásticas e tão pouco se fala disso, se utiliza isso, e se entende para que servirá isso. É a mais hipócrita burocracia encoberta pelo conceito de investigação. As seções de cultura dos jornais e revistas neste país são uma lástima, como já falamos. Leio o El Pais todos os dias, online, e aí as coisas são muito melhores. Mas mesmo assim os espanhóis lamentam-se do “deserto”.  


1.7– Escaleno, estou contigo e também me intriga em que ritmo se fará o progresso da cultura humana. Em 500.000 anos, nos últimos 50 produzimos mais alterações, a todos os níveis, do que nos 499.950 anteriores. Mas estou calmo, e se for para a semana que venha a ordem para que uns eleitos partam para Marte para tentar salvar a espécie, eu continuarei a fazer os meus desenhos e a cuidar dos meus cães que todos os dias esperam comida e carinhos, que lhes faço, inconscientes da história da sua espécie. Para os autores da nossa cultura não há mestre, nem deus, nem norma, nem futuro. Está entregue ao que de si sair. Todos somos artistas. Aquilo que o artista faz é arte. Nos desportos de medida o melhor é o que vai á frente. Nos jogos, o que vence no fim do jogo é o melhor, e assim sempre, sem fim e sem qualquer outro critério. Nas artes o êxito é medido no mercado. Ele existe a partir de redes de interesses e negócios baseados em feiras internacionais e redes de instituições que destilam versões mais regionais e locais por todo o globo. Hoje nas escolas de artes faz-se o que faziam os artistas há 50 anos. Recordas-te como quando andávamos nas Belas Artes nada podia ser feito que já existisse! Era um dos lados do modernismo. O conceito de novo, capital para o modernismo, claudicou no pós perante o, “e porque não”. Mas está tudo tranquilo e sereno. Não há nada a perder nem mesmo o emprego dos docentes. Não há qualquer conceito associado a qualidade, eficácia, necessidade. Há uma certa referência, como na moda, a tendências do momento, que será sempre breve e destinadas ao esquecimento. Diz-se por vezes que os grandes artistas são portadores de um projeto ou corpo poético que se imporá sobre essa circunstância. Deve ser verdade. Para o artista da arte erudita a sacralização da arte pode ser um dos caminhos, como um modernista radical, Mondrian, já propunha, mas considerando que a arte era só estética. A arte trata dos mistérios que são o incompreensível e o inexplicável, por natureza. Enquanto houver mistérios haverá arte. Se é pintura, instalação, fotografia, poesia, música ou teatro isso dependerá do mercado para se impor, mas nunca para se fazer. Basta que um homem faça uma delas para que a possibilidade, esse básico elemento da vida das partículas ou da inteligência cósmica, se concretize e venha a dar origem a algo de novo. Essa coisa também a tecnociência anseia vir a compreender e a dominar. A cultura popular, veiculada, ou não, pelos média, seja de cariz poético ou estritamente plástico, fomentará o prazer, o divertimento, a sedução que são tão necessários à sociedade e aos eruditos, como os românticos bem entenderam. A inteligência crítica, a erudição e o humanismo ético ou moral estarão, como sempre, na primeira linha cultural. A cultura artística sempre foi considerada um domínio da corte. É uma longa tradição centralista que Portugal cultivou mais do que qualquer outro povo na Europa. Ainda hoje só se é gente com um pé em Lisboa. Mas os novos tempos estão a mudar tudo. Hoje o saber e o fazer, desde as universidades em diversas cidades e regiões, às novas instituições culturais, estão a mudar a cena. Este mundo confuso e diverso não deixa, porém, de nos maravilhar e encantar. Mas estamos intranquilos e inseguros. Mas alguma vez deixamos de estar?

2.7 – Também partilho essa tua visão desastrosa duma política cultural centralista, duma corte medieval inculta e iletrada que o modelo francês centralista veio reforçar. Mas pior do que isso é que essa política tende a levar para a corte os melhores e a destruir, pela desertificação humana, a criação de uma sociedade civil consistente e de qualidade. Mesmo assim, como sempre, os criadores nascem por qualquer lado. Mas se há pior terreno para os cultivar é esse da corte, seja a antiga, seja a moderna. A venda em leilão do espólio de diversos bens e de obras de arte de David Bowie foi considerado, nos rodapé  da SIC, como Cultura. Mas trata-se só de negócio. É uma notícia que só interessa aos negociantes. Mas para os jornalistas da SIC é cultura. Para que servem estes estratagemas comunicacionais? A cultura precisa de existir? É preciso um Ministério da Cultura para quê? É um instrumento centralista?  Para gastar dinheiro com os funcionários?  Para dominar controlar e orientar? Só começou a haver cultura com a moda da história de arte, ou já Platão, Plinio,Vasari era nessa coisa que pensavam quando olhavam as cenas dos Vasos Gregos, os frescos de Pompeia, ou os frescos de Miguel Ângelo? Se cultura é tomar na sua mão o destino do que se fez, do que se faz, e do que venha a ser, então cultura é designação na modernidade de ações que procurem dar sentido à existência do homem. Antes do séc. XVIII não se fala dela. A Cultura “ à francesa” era um estado institucional que resguardava as obras passadas, as classificava e orientava para que no futuro viessem a ocupar o seu lugar nesse panteão. Havia a cultura nacional, a pintura nacional, as academias, os laureados, os prémios, etc. Na cultura a que pertencemos espera-se que desenvolvamos pela reflexão solitária, as nossas opiniões. Até um nível considerável. Mas não é o mesmo quando tratamos de matérias importantes, como a nossa identidade ou caráter. Nós definimo-nos em diálogo, muitas vezes por oposição com a identidade dos outros. Assim a cultura é sempre mais o resultado da interação do que da afirmação isolada e solitária.  Quando há dias via, de novo, uma edição fac-similada das Trois belles Heures du Duc de Berry, dos irmãos Limburg, ficou de novo claro como ser pintor naquele tempo era muito diferente do que o é no nosso tempo. E isso só nesta perspetiva que venho a falar. Para os Limburg construir uma imagem era uma complexa rede de singularidades e intencionalidades  pessoais em relação com as expetativas e as convenções que a natureza do poder e da religião configuravam como realidade. Hoje, há poucos anos, ninguém entende o que possa ser isso. As obras não se radicam a países, nem povos, nem grupos. A total autonomia do artista como garantia primeira e última da criatividade deve ser assegurada. O seu papel só pode ser satisfazer o presente. Esse presente é curto, como podemos ver pela vida dos prémios Turner, pois tem que ceder espaço, não lugar, que é coisa sem sentido, ao que vem aí. Ser chinês, malaio, uruguaio, queniano, eslovaco é indiferente e irrelevante. Tem que ser original e inovador, se puder, inventivo. O seu tempo pode ser glorioso mas será breve, pois está desligado, está solto, como se vogasse no espaço sideral como os astronautas na F.C. Não mais vai ser recordado pois não há cultura, isto é culto, reverencia, atenção, herdeiros, etc.. A cultura é a recusa do esquecimento.


1.8 – Há mais de 20 anos as críticas contundentes à sociedade individualista, narcísica, hedonista, libertária, não solidária e não racional, não replicativa, deu origem a diversas teorias sobre o entendimento do fenómeno e sua integração ou aceitação e à sua recusa e combate. Esta é a questão central, ainda hoje, da cultura como afirmação de sentido. Será que para o homem da sociedade avançada capitalista, liberal e global, a existência de sentido de futuro e, por isso, de sentido no presente, não existe. Sempre achei que os estudantes em 90 não se viam como eu me via, na idade deles, nos anos 60. A ligação que mantinham entre si e com projetos institucionais eram desprezada. Já eu nos anos 60 sentia que muitos artistas consideravam o que faziam desligado de qualquer tipo de compromisso, de serviço, de sentido a não ser o serviço a si mesmo. Existe algo para além do eu? A contenção parece ser uma exigência ecológica. Cada ser não pode pensar ou viver como se nada existisse para além dele. A subjetividade baseada no modo, na matéria ou assunto é redutora. A autenticidade não pode encerrar-se no sentido do sujeito para si mesmo. A verdadeira plenitude  ou assunção do sujeito só pode ser feita em relação com algo que o transcenda ou lhe seja estranho. O antropocentrismo tem na vida artística modernista um terreno de eleição. Talvez maior do que na ecologia. Nesta admite-se que lhe possa vir a ser fatal. Mas na cultura artística não haverá já sintomas de entropia e esvaziamento?
A retórica da diferença, da diversidade e do multiculturalismo constitui um aspeto essencial da cultura contemporânea. A valorização de qualquer escolha não é assumida como diferença mas como indiferente. O princípio subjetivista nega a existência de um horizonte com um sentido pré-existente, anterior à escolha. Aquilo que podemos chamar horizonte é uma referência para que haja significado que se constrói. Esse valor é depois, por incorporação, presente na interpretação e valoração de outros fenómenos, eventos ou obras. A cultura artística era a posse da obra. Ainda o será? Há anos e séculos os particulares mandavam fazer obras que usufruíam pessoalmente e privadamente. O poder público mandava fazer obras que as pessoas em geral usufruem livremente e quotidianamente. Mas por delegação ou passivamente. Veja-se a “vida” das obras que povoam as estações de Metro em Lisboa! Mas em Lisboa ninguém duvidará que é “um grande gesto cultural e artístico”.  Escaleno, ao fim desta conversa acaba de vir ao de cima uma questão da relação da crença com a cultura. Em diversas sociedades a crença num ser superior e noutras formas de vida desvalorizou o papel central da Cultura. A entrega à contemplação, à oração, o abandono dos bens materiais e à volição por uma outra vida melhor, do que o de melhor esta possa dar, contínua. Desde as planícies da India, aos altos vales dos Himalaias, aos Mosteiros cristãos, sem o sacrífico da vida do crente, como os muçulmanos assim o entendem com base no ódio ao outro, essa prática anti-cultural e anti-humana, mas talvez divina, os homens procuram sentido. Essa perspetiva existencial solitária e exemplar continua a ser exercida, eu ia a dizer, cultivada. Mas pode ela atrair um crente? 

2.8 – "Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis", como diria Cândido, quando conheceu todos os males do mundo depois de ter sido educado por Pangloss nas melhores das virtudes, mesmo que à sua volta tudo parecia estar fora do sítio ou a caminhar para o abismo. "Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis",…"devemos cultivar o nosso jardim." A posição centrada na autenticidade absoluta do sujeito, da sua expressividade como fim em si e a posição crítica dessa liberdade foi conquista da modernidade. A progressão ética do homem tem que dar origem a uma posição que inclua o planeta no horizonte de sentido. Na ecologia há quem pense que o dióxido de carbono é um mal para o homem, e não entende que é um mal para o planeta a que pertence o homem. A cultura artística em última instância não existe para que o homem reforce o seu orgulho antropocêntrico como sujeito que se exprime totalmente. A sua expressão total só existirá se nele estiver incluída a diversidade do outro e do próprio horizonte de ser coletivo. Responder à questão, VALE A PENA MORRER PELA CULTURA ARTÍSTICA ?  é para mim evidente. Não. Se perguntarmos se vale a pena morrer pelo país, pela nação, pela pátria estamos a perguntar se vale a pena morrer pela nossa cultura. E quem sabe o que é a nossa cultura de ocidentais, europeus, liberais, democratas e individualistas mesmo diante das imagens de destruição das ruinas clássicas de Palmira pelos Jihadistas? Porque só podemos morrer pelo que tem sentido, futuro. A cultura só existe sendo uma realidade coletiva grupal. As pessoas sempre se mataram por ideais e também por amor de outro. Não creio que alguém se tenha matado por amor à arte. Normalmente vive-se por amor à arte. Neste tempo a cultura é campo de divergência, de diferença, de afirmação, não é aquela realidade a que se referiam os antropólogos clássicos acerca da totalidade que era a vida simbólica material, física, sentimental, religiosa de um grupo de humanos. Nessa relação do individuo consigo mesmo e ainda num tempo em que o individuo moderno deixou de acreditar que haja qualquer coisa em que acreditar resta, no fundo de cada um, a incompreensibilidade. Eu não acredito, não sei porque não acredito e não sei porque a minha consciência é tão limitada.
Dezembro de 2016







AGUARELAS 
A partir dos DESENHOS SEM PENSAR


 
acompanhamento




















esperado esperando





















inexplicado aceitável






















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Reposição de algumas imagens













































































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Reposição e revelação de imagens da série
Cenas em frente ao mar 





























DESENHOS SEM PENSAR 

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Série de 2010



























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