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pintovieiradesenho

pintovieiradesenho

segunda-feira, 29 de agosto de 2016



Este blog destina-se a divulgar 
as obras de artes plásticas 
que fui realizando desde 1965 
- mostradas em parte 
nas imagens das "páginas".  
Também noutras "páginas" 
se encontram textos diversos 
que entretanto fui produzindo.

Nesta página, "mensagens", aparecerão textos do momento, em secções próprias, imagens de obras recentes, notícias e, também, textos mais longos e curtos que tenham sido produzidos recentemente e que se justifique a sua divulgação no momento.

joaquimpintovieira1@hotmail.com

OS OUTROS BLOGS QUE EDITO SÃO 
http://drawingdesenhodibujo.blogspot.com
http://pintovieiraensinodesenho.blogspot.com
http://pintovieirapupila.blogspot.com
http://atalhadoagostinho.blogspot.com

BLOGS DE AMIGOS














Mensagens da quinzena


De 16 de ABRIL 
a 30 de ABRIL de 2018



Textos e obras disponíveis nesta página
Nas outras páginas estão as imagens e textos aqui publicados e não publicados.


LISTA DE PUBLICAÇÕES RECENTES
.
.  DUAS FIGURAS TÍPICAS falam sobre 
   a Exposição DESENHOS A5

.  ESQUÍROLAS DO DESENHO

.  DESENHOS SEM PENSAR

.  AGUARELAS
 
 . NOVAS PINTURAS A ÓLEO

 .  PINDUAS/PINDOIS
    Pequenas pinturas em madeira

.   DESENHOS E 
   PINTURAS no iPad

. DUAS FIGURAS TIPICAS...
   A consciência na Pintura e não só.

. O OUTRO

. UMA IMAGEM E 
  QUASE MIL PALAVRAS 


. EXPOSIÇÃO FAUP . Projeto RISCOTUDO
  DESENHO setorna PINTURA 
  10 montagens de aguarelas e desenhos



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DUAS FIGURAS TÍPICAS falam sobre 

a Exposição DESENHOS A5

na Galeria EXTÉRIL. 

Porto.Março de 2018

19ª CONVERSA


1.1 –  Escaleno, fui há dias convidado para participar na exposição, Desenhos em A5, na Galeria Extéril, ali no Bonjardim, 1176, no Porto, a já célebre galeria que é muito maior do que a arrecadação-oficina em que se encontra instalada. É uma aparente contradição se só pensarmos que as coisas são só o que vemos e experimentamos e não aquilo que pensamos e sentimos. Como é do nosso gosto, convido-te a entrar neste jogo de reflexão e crítica que é o que nos mantém em pé. Somos, eu sei, dos que pensam que o mind/body problem, não o é, mas que a existência humana é um problema constante para a mente e para o corpo que a criou, ou é o reconhecimento de que essa existência é um mar de problemas que a consciência nos exige ponderação, escolha e participação. A obra do Zé Manel, ou Teixeira Barbosa, tem 20 anos, ou por aí, e quem quiser conhecê-la melhor e ao seu pensamento tático e estratégico, nesse mundo da Alternativa Artística, deve procurar a revista mola, organizada pela Vera Carmo e o João Ricardo Moreira, que inclui uma entrevista com o Zé Manel. A revista encontra-se nos locais alternativos.



2.1 – Já passei por lá porque soube através do site, mas não fui convidado, nem isso me perturba ou diminui. Estou contigo nesta desbunda sobre a existência mental, que como sabemos não é muito cultivada entre nós. A crítica e a reflexão são considerados desconfortáveis, chatos e pouco convenientes e mesmo prejudiciais para o comum dos artistas nascentes ou finantes. Oh Ruskin, como te ignoram e desprezam! Deixemo-nos de lérias. Equilátero, não conhecia a Galeria mas foi uma boa experiência. Tanto por tão pouco! A vida também é assim, se for vivida intensamente e com a máxima entrega e consciência (crítica). O Desenho também o é – tanto com tão pouco. Como já falamos noutras conversas é aquela atividade, ação ou pensamento, como um rio. Nas nascentes, lá no alto puro, como o rio vai fazendo o seu percurso com poucos meios e serpenteando, procurando os melhores terrenos, por vezes difíceis e com períodos de seca,  acaba por desaguar no estuário marítimo, para subir depois às nuvens, e de novo e voltar a correr. A Extéril pertence às suas margens. Serralves é o estuário, está longe desse vital e fascinante nascer e percorrer. O que para viver não nos serve de muito, mas é politicamente rentável. Nestes ancoradouros ou pesqueiros, são como os locais nos rios, onde se encosta ou se colhe na corrente sem fim, o peixe que nos calha.  Isto é aquela matéria ou problema central: a política cultural, que havemos um dia de pegar pelo rabo. Equilátero, avancemos então por esta pescaria, embora a nossa experiência nos diga que as águas andam turvas e o peixe fugidio. Será que isto é conversa de velhos?

1.2 – Já cerca de 200 artistas expuseram na Galeria e esta exposição resulta do convite a número idêntico. Não sei se seriam os artistas que aí expuseram, o que é irrelevante. Na exposição há cerca de 80 desenhos o que mesmo no formato exigido não preenche as vastas 3 paredes com 2 metros quadrados cada. Faltaram alguns dos convidados. Escaleno, gostei de ver tanta gente num espaço apertado da oficina, que estava cheia, dentro do qual estava  a galeria. Isto é uma formulação ilógica ou quântica. Isto é uma impossibilidade só aparente pois há sempre formas de se arranjarem as coisas. As pessoas estavam contentes por se verem e penso por pensarem que todos faziam desenhos – aqueles que fazem desenhos – a confraria. Mas terão visto os desenhos? Ou só viram o seu? Não era fácil. Decerto voltaram! Este projeto expositivo tem mais de perfomance cultural do que de serviço artístico. Quer dizer alargamos todos a nossa consciência do que é hoje desenhar pelo fato de termos confrontado obras diversas com origens em sensibilidades, conceitos e interesses diferentes? Quase se poderá dizer que em cada autor existe um universo artístico e que a nossa possibilidade de o partilhar é muito reduzida e exige para o ser mesmo, muita dedicação e atenção.

2.2 – Vi a exposição sozinho e pude ver com mais atenção cada obra. Não é fácil, mesmo para quem como eu viu tantas centenas de desenhos por dia, como docente. Vi alguns melhor, outros mal e outros mal vi. Porque aí na escola estamos a ver as imagens de um contexto preciso e idêntico, e nestes casos estamos a ver a total divergência e variância de todos os fatores do desenho. Por isso “ as coletivas" são mais feiras do que lugar … Hoje as artes plásticas são o motivo para uma “movida”; andar pelos locais com marca, ver; ser visto. Também se podem ver obras. Mas não é importante. Sempre achei que se entrar no MSR é para ver um quadro do Pousão durante 15 minutos e sair em seguida. Mas no fim são experiências e vida. Como é do nosso gosto e intenção refletir, interrogar e criticar, com que fazemos o existir, além do infinito gosto do fazer. Gostamos do que é, mais do que o vai ser. Estamos por isso longe da prática hoje comum de se escrever sobre desenho, pintura, imagem e arte, só para falar das coisas que andam nas modas da cabeça. Em vez de falar/escrever mesmo sobre as obras em si, sem rodeios. Por outro lado, como a crítica desapareceu escreve-se de forma laudatória, explicativa, didática, curatorial para proteger. Sabes que curador para o dicionário é aquele que cuida, administra orfãos e menores. Mas deixemos estas graças! Vamos por isso questionar a exposição, o desenho mais do que os desenhos em particular o que seria muito duro e muito provavelmente desigual. Quais são os problemas que encontramos no desenho ali e hoje? Que apostas se fazem em alastrar o campo expressivo, poético e simbólico do desenho?  Há amostras de projetos de campos expressivos e concetuais? Vemos enunciadas tendências ou vertentes que aprofundem os vales desconhecidos, profundos e misteriosos do desenho?  Equilátero, o desenho é misterioso ou é essa coisa que se está mesmo a ver o que é, e como é?  Vejo a rua, vejo a face, e pronto. O que sair é desenho ou um desenho. Vejo muito disso por aí, gente a desenhar na rua, como todos desenham, sem que surja o olhar novo e surpreendente. Há diferença entre desenho e um desenho ?


1.3 –Quantos artistas desenhadores voltaram lá para rever desenhos? Esta é sempre a maior manifestação, ou exercício, ou prática cultural no desenho, como o é na música que gostamos. Ouvimos o mesmo trecho muitas vezes até cansar. Lemos o poema várias vezes e decoramos Porque não é assim com o desenho?  Estou confuso Escaleno. Mas não estou só. Os líderes políticos, religiosos, inteletuais, artísticos e desportivos estão todos. Ficamos confusos quando trocamos o desejo em se ser com o se quer ser. A mente humana parece ser atraída por esse abismo para a frustração. A humildade que é o culto do nada ter, nada ser, nada querer, nada aspirar é o outro caminho. Como pode agir bem, mesmo a desenhar quem está confuso? Um desenho é um problema como o é qualquer momento da vida. Como o resolvem os animais? Escutam, olham e escolhem um caminho. Os nossos problemas são mais da mente do que do corpo. Devermos estar mais interessados em compreender  e esclarecer um problema do que em resolvê-lo. Depois de resolvido vai dar origem a outro. Então devemos viver os problemas como se fossem parte de nós que exigem ser vividos  e esclarecidos. Soa a metafísica e filosofia barata?!  Mas quando desenhamos, e fazê-lo é uma graça da mente, estamos a afastar-nos ou a aproximar-nos da humildade ou da vaidade ou orgulho. Pode isto ser orientado? Há algum método? Não sei. Duvido. Sei que está só em mim o poder de avançar ao lado dos outros.

2.3 –  Nas pedras da praia os mexilhões juntam-se uns aos outros para sobreviver. Ao lado, as lapas vivem isoladas. Nós, como vivemos soltos como os camarões, temos que estabelecer ligações. A cultura é a principal, por sermos humanos. A cultura não é saber quem foi Giotto. É ter dentro de si e viver com as imagens das pinturas de Giotto. É ter ido à exposição e ter dentro de si algumas das imagens que lá estavam. Também é fazer o que estamos a fazer agora, que é prolongar essa vivência. Somos solitários irremediavelmente mas não queremos ou podemos ser lapas. Há duzentos anos uma exposição deste tipo teria os desenhos enquadrados por poucos temas: retrato, figura nu, figuras da vida popular, paisagens pitorescas, vistas de cidades, naturezas mortas, e alguns desenhos do imaginário religioso e mitológico. Talvez algumas primeiras caricaturas. Nesta exposição que mostra uma ínfima parte da enorme variedade de tipologias de desenho, mesmo assim ficamos algo desorientados. Há duzentos anos também se acreditava no progresso em Arte e num Sentido. Desde a Idade Média, depois do escurecimento Helenístico, a partir do Renascimento que o retoma, vinha-se avançando. A filosofia alemã escolástica e depois o formalismo concetual francês fez-nos crer que o abstraccionismo era o culminar desse destino. Hoje sabemos que era tudo treta. Sabemos que a arte essa atracção do homem para encontrar o seu Sentido não tem sentido em sim mesma, como não o tem a vida. Mas o nosso maior desejo, Equilátero, como o partilhamos e vivemos, um problema  existe não para se encontrar solução, mas para se viver a sua complexidade, como fazia Shakespeare na sua dramaturgia. Aqui estão os males e as grandezas do homem e como as podemos viver. O que aconteceu foi que, após a Revolução Francesa e depois com a Descolonização e a Globalização, o mundo deixou de ser culturalmente centrado. Hoje todos em todos os locais se incorporam, partilham, fundem e afirmam diferenças duma forma não centrada mas aberta ou em rede, como agora se diz. Não fiquei atraído por nenhuma imagem. Não há nenhum “golo de pontapédebicicleta”, nem de “calcanhar”.  Muitas intenções, mas pouca afirmação disciplinar. Parece que as pessoas pensam não ser conveniente mostrar o que têm de melhor. Uma atitude defensiva em tempos sem esperança?




1.4 –  Da exposição retiro, sem novidade mas como confirmação ou reencontro, algumas noções ou aspetos que nos permitem autopsiar ou esquartejar o desenho, ato considerado por alguns destruidor da sua pureza e naturalidade. Escaleno, nós gostamos de mexer no que está dentro. Alguns encararam o desenho nessa folha A5 como um estudo; outros encararam como obra finita. Em todos eles há uma sentença. Nalguns casos é veemente, noutros é quase liminar e invisível. Uns acham que o campo de A5  é um suporte material anódino e indiferente. Outros acham que é um campo de ação que marca limites e tensões próprias e tempo próprio. Esta é a matéria da Composição que devia ser a matéria base do Desenho, como o é em todas as artes. O A é uma relação proporcional convencionada. O 5 é uma escala de representação (na abstração não existe) que faz com que a imagem de uma face esteja em metade e que uma abelha possa estar 15 vezes maior. Esses limites não são perda de liberdade expressiva, são condição de qualidade, do valor e caráter da ação expressiva, plástica, poética e simbólica. Posso apontar algumas linhas detetáveis nessa autópsia. As linhas da representação do visível, da figuração pop, da introspecção, da abstração, da caricatura, do ideografismo, da concetualização, da experimentação formal, do prazer no gesto gráfico, da ilustração, do conhecimento formal e funcional, da sugestão psicológica, do retrato, do esquematismo icónico e simbólico. Essas linhas saem dum núcelo que é a disciplina e, sendo no início independentes, algumas tendem a aproximar-se e a fundir-se. Por vezes cruzam-se ou juntam-se, em especial se passamos à pintura que é o desenho que quer sobreviver materialmente, outras fundem-se mas quase sempre são afirmação dominante. A mancha exterior neste ideograma é toda a obra do desenho, o centro o núcleo disciplinar e as linhas são as variáveis de ação.







2.4 – Equilátero sigo o teu caminho. Ao recordar, passados uns dias, quais são as  imagens que me surgem? Citarei algumas, mas o que me leva a  retê-las? Serão acima de tudo fatores psicológicos mais do que ideológicos. Poderiam ser esses os determinantes num tempo em que os valores estavam definidos eram regra e dever. O psicológico aqui vai dos universos secretos de cada um, às modas estéticas ou icónicas que são superficiais por serem circunstanciais e passageiras. Recordo uma caveira, uma paisagem plana, um tronco esfumado, uma figura de costas em escorço; na mão que segura um aparelho, uma equívoca imagem de escuros com aberturas; figuras em volta de um espaço triangular. Que perguntas podemos fazer quando vemos uma exposição de desenhos, ou só devemos escutá-los? Para que nos serve perguntar? Ver um desenho é-se  afetado pelo que está ao seu lado? Na exposição os desenhos estavam  expostos aleatoriamente e isso criou condições particulares ou especiais para a sua apreciação? As pessoas que viram a exposição na noite de estreia, quanto tempo dedicaram a ver cada desenho?  10’’? 80 desenhos dá 15 minutos dentro da caixa branca. Quem os explorou? As obras que fazemos acabam em nós quando as fazemos e depois passam a viver em nós como nas outras pessoas. Uma obra é acima de tudo o testemunho do autor. O outro inclui ou afasta-se desse testemunho. Também pode construir um testemunho que fica dentro de si. Se o outro me interessa pelo desenho que fez é porque me é diferente e próximo. Nunca indiferente. Podemos ver uma obra e usufruí-la sem que lhe coloquemos parte de nós? E ela só existe se nós existirmos?

1.5 – O Desenho tem a possibilidade – além de ser o único meio de tornar visível as imagens da mente, que são as únicas –  de alargar a consciência do real. O cinema desde que surgiu, e em especial nesta era digital, quer nos fazer crer que criar a grande ilusão é coisa boa. Mas no desenho não se trata de ilusão. Trata-se de realidade. E não fabricada por enormes e poderosíssimas máquinas e homens. A imagem que o desenho nos dá, em especial na representação, pois na abstração é sensorialidade, é uma porção da infinita variedade de sentidos, sensações, emoções, fantasias, que a mente humana é capaz de tratar com base na memória pessoal e na memória da espécie. Fico sempre surpreendido, que até já não me surpreende, o que as pessoas vêm nas imagens de diferente daquilo que vejo. Dos desenhos que vi, que referiste concretamente não vou deixar uma reflexão. Há alguns que ainda retenho, de que me recordo. Outros nem me lembro. Mas aqueles que eu gostaria de ficar com eles para mim não me surgem com evidencia ou desejo claro. Mas esta é a pedra de toque da cultura do desenho. Passar os níveis inconscientes e assumir a consciência, o mais plena possível, do Gosto. As culturas artísticas sempre viveram encerradas em si. Hoje temos acesso a imagens de desenho com origem em todas as partes do mundo, numa dimensão e quantidade que nunca poderemos ver ou experimentar. O realismo no desenho, isto é, a representação do real – aquilo que me é estranho e vejo (uma foto é igual a um objeto) – é baseado em duas disposições. Aqueles que desenham o que vêm em concreto em tempo, lugar e luz, e aqueles que desenham os mesmos motivos baseados exclusivamente no reportório formal e nas memórias de circunstâncias de tempo, lugar e luz . Estas disposições parecem ser inatas e inconciliáveis embora me atraia traí-las na minha ação artística. Mas não partilho a ideia de que é o observador que faz a obra. A obra é um testemunho único, irrepetível, singular. O próprio mesmo não a pode repetir. Aos outros cabe interpretar.

2.5 – Pode ou deve haver crítica na arte e no desenho, e são de natureza diferentes? Quais são os âmbitos em que pode ser feita a crítica? A crítica deve permitir ser-se melhor e, acima de tudo, ser autocrítica? Ou melhor pode a autocrítica tornar a crítica menos ou mais pertinente? A mente ou o processo mental da existência que faz o pensamento (consciência) assenta em aspetos que devem ser percebidos pois se não forem não existimos de fato. Sofrimento, dor, amor prazer, ódio, deleite, sentimento, ilusão. Mas o nosso apego à memória e tradição das nossas mentes impede que tenhamos uma consciência limpa desses aspetos. E isso é muito difícil mas é de admitir que seja verdade. Será o desenho um dos meios mais poderosos ou eficazes de nos aproximar da possibilidade de termos essa perceção ou compreensão do que é a nossa realidade mental ou de como a nossa mente experiência a realidade de forma muito intensa e rica? Fazer desenhos e vê-los com outros é viver afinidades. A afinidade é a partilha mais contentadora. Ser em vez de querer vir a ser. Saber escutar e sentir o “nosso fundo”. Escutar ou ver sem que se pense o que se está a ver. Estas são ações básicas da criatividade. E o desenho é o meio inato de o fazer desde o Homem Neandertal. O cinismo duchampiano, que é um egoísmo inteletualizado, que desconhece o amor, leva-nos a crer que podemos viver pensando no pensamento e nas suas formulações acessórias ou arbitrárias. A arte é, uma finalidade sem fim, e por isso tudo pode ser realizado por, e para si. Este é o quadro em que se desenha hoje, em que cada um desenha e se desenha a si, mais que ao mundo, mais ou menos feliz ou infeliz. Mas o desenho é uma disciplina antes de ser arte. Lá fora, fora de si, o amor pode esperar. Será assim Equilátero?

JoaquimPintoVieira.Abril.2018















ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse  
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.

Muitas das anteriormente publicadas podem ser vistas na Página PEQUENOS TEXTOS NO BLOG



 Esquírola cento e setenta e nove



A obra é feita pelo observador? Marcel Duchamp dizia que, são os observadores que fazem os quadros. A Obra Aberta de Eco, vai no mesmo sentido. A filosofia pós-modernista cultiva-o. Mas será isto verdade, útil, eficaz, conveniente, oportuno?  Se quando observo uma pintura, ou qualquer outra coisa, eu anteponho a minha conceção das coisas, os meus valores estarei a impedir-me de conhecer o outro. Qualquer possibilidade de haver alteração no nosso ser, que lhe seja propícia e vantajosa, só pode ser feita em completa liberdade mental. Liberdade mental implica recusar o aprendido, o sabido. Escutar o outro, ou a natureza, ou um objeto é uma atividade básica para que se possa aceder a qualquer coisa que chamemos meditar. Meditar é palavra difícil de compreender. Mas se aceitarmos a palavra conhecimento também não ficamos melhor. Discernimento e não condenação podem ajudar. Só na total ausência de preconceito sobre o outro podemos descobrir, não só o que está no outro, mas o que está em nós. Nós vemos uma obra de acordo com as nossas tendências particulares, nosso saber e idiossincrasia provocando inevitavelmente a perda de quase tudo aquilo que o autor deseja transmitir.  Devemos ver sem o controle da mente consciente e deixarmo-nos levar pela obra e esperar que ela se revela sem que haja da nossa parte, vontade, sentido crítico, análise e juízo. Hoje no tempo da pós-modernidade tudo é ideia e sensação fugidia. Ninguém pára a ver obras nos CACS. Uma ideia, de fato, vê-se logo, como na “fonte”. Não há nada para ver. Duchamp era coerente e para ele a visualidade não tinha interesse. Esta questão da visualidade é central. Trata- se, de fato, de Perceção que é a base da nossa cognição e também da nossa emoção. Perceção não só visual. E a perceção que é a base da observação implica dominar complexos processos de apreensão e de conscencialização do real. Tal como os músicos bem sabem, e nos dizem, só depois de ouvirem a obra muitas vezes ela se revela. Nós só vemos uma pintura revelar-se se a virmos muitas vezes. Isto não diz nada a uma concetualista que deseja, acima de tudo, o já e o novo, já. Tudo para esquecer. Quem fez a obra foi o Outro.


Esquírola cento e setenta e oito

Num tempo em que a pintura é questionada mais uma vez, mais do que na sua base oficinal, na sua razão ontológica e expressiva, com o futuro da Inteligência Artificial, convirá reencontrar uma  vertente da vida artística nas artes plásticas que também o fez e faz.  O ataque da pintura feita pelo conceptualismo que ainda hoje se mantém, sem que se vejam frutos doces. Alguns querem ver na afirmação de Leonardo, a pintura é coisa mental, o suporte do concetualismo em arte. Mas é um equívoco. A sua origem ou afirmação terá outros motivos e influências. Porém, ele introduziu a mais profunda alteração que a experiência artística se viu enquadrada. A pintura foi mais atacada disciplinarmente do que pela fotografia, que se tornou mesmo, desde o início, um forte aliado.  Porque teve êxito a doutrina concetualista proposta e instigada por Duchamp? As suas origens vêm de Max Stirner, que Duchamp apreciava na suas vertentes anarquistas, com o isolacionismo, individualismo, egoísmo. A pintura que era no final do século XIX um feudo do elitismo, do funcionalismo, do snobismo merecia ser atacada. Atacou-se uma tradição e prática europeia, criada na Idade Média com os monges ilustradores no combate contra a ideologia muçulmana e afirmada e cultivada em Itália duma forma extraordinária, sobre todos os pontos de vista. O cristianismo que é a religião que coloca o homem  igual entre si e Deus, deu azo a uma atividade produtiva em termos de imagens da representação que o homem alguma vez conheceu. Esse processo foi, durante 600 anos, criando na Europa um património da arte da pintura como nunca se viu noutra cultura e noutra parte do mundo. É contra ele contra essa disciplina artística empirista que se revolta o concetualismo. Duchamp tem na sua implantação uma importância seminal lançando em obra e em teoria informal um quadro de ação.  Dizia que estava mais interessado em ideias do que nos produtos visuais. Afirmava, com razão, que os artistas impressionistas e abstratos só pensavam em agradar à retina. Ele pensava que a arte devia servir a ideia. Surgiu no tempo em que a disciplina agonizava entre o academismo vazio, convencional, cego ao mundo e o advento do experimentalismo formalista. Mas sempre se soube que o êxito do concetualismo acenta em várias vertentes algumas puramente oportunistas. Pode-se ser artista sem ter qualquer formação específica. Só ideias, para satisfação do próprio artista (individualismo e egoísmo) e para que outros as concretizem. A “arte projeto”. Todo o ser humano é um artista, não só quem joga xadrez. Livrar o homem das dificuldades disciplinares e mesmo da sua implicação corporal em todas as artes é a chave. Rudolf Steiner pela mesma altura, também o reinvindica, mas valorizava a expressão e o sentimento contra o intelecto. Retome-se o programa. Recusa da manualidade –coisa de operários– como condição da cognição e emoção humanas, a recusa da expressão do autor na relação com a plástica e a visualidade, a redução da estética ao que a mente pensa disso, a recusa dos valores da qualidade e aperfeiçoamento, a destruição completa de vínculos disciplinares. O combate da pintura contra a IA vai assim continuar. Toca a reinventar a pintura e a alargar a sua exigência disciplinar.




Esquírola cento e setenta e sete



Há muitos tempos surgiu o castigo, e daí o prémio? O que cada humano espera da vida é que os outros o premeiem? Haverá gente que se deita com a cabeça no travesseiro, ou com ela mesmo em pé, que se põe a pensar em receber um prémio? Nesta carruagem do Metro quantos esperam que a sua vida teria mais sentido se lhe dessem um prémio pelo que fazem, com prazer e dor, todos os dias?  E aquele que faz qualquer coisa que não esperava e que o surpreende e encanta deve achar que merece um prémio por isso? Quando se fez um desenho mau deve-se ser castigado? E quando se faz um desenho bom, ou vários, deve-se ser premiado?  Os prémios interessam a quem os dá como aos que os recebem? Nas cerimónias públicas aqueles que recebem os prémios são mais vistos do que aqueles que os concedem? Dar um prémio provoca uma certa dependência, da pessoa que o recebe, daquele que o dá? É uma honra receber um prémio se consideramos que se fez nada mais do que se faz com naturalidade? E há atos que são mais merecedores de honra que outros? Porque foram realizados sem que a pessoa estivesse a realizar ou a cumprir naturalmente as ações e pensamentos que lhe são próprios?  Devemos admitir que atribuir prémios a certos cidadãos melhora a sociedade? Ou que as pessoas que realizam com naturalidade as várias tarefas da sua vida esperariam que houvesse prémios para elas? Uma sociedade sem prémios era uma sociedade em que as pessoas não reconheciam nos outros as virtudes e os qualidades impares que elas próprias não possuem? Ficamos diferentes por receber um prémio, por pensarmos que os outros nos vão ver de forma diferente? É bom pensar que somos reconhecidos como diferentes dos outros? E que os outros gostariam de poder ser como nós? É aceitável pensar que estas interrogações ou questões são pertinentes, ou contêm, em si mesmas, o mal daquele que pode achar que merece ser premiado?


Esquírola cento e setenta e seis



Há dias foi retirada das paredes da Exposição-Feira ARCO, em Madrid,  uma obra de um artista espanhol, pouco antes da abertura. Estes atos geram sempre polémica. Os que defendem a ação dos que as retiram e aqueles que defendem que elas deveria continuar expostas. E de novo voltaremos um dia destes a outro fato semelhante. É possível e importante que estes atos decorram em países em que há total liberdade de expressão e comunicação, como em Espanha. Mário Vargas Losa uma das mais prestigiadas figuras da cultura literária hispânica, a propósito do caso disse que , ” A Cultura deve manifestar-se com liberdade, agrade-nos ou não, incluindo a pseudoarte”.  Eu estou do lado dos que retiraram a obra.  Mas não por razões de natureza política de qualquer dos lados do conflito da vida política espanhola que, como Vargas Losa, considero anacrónico como europeu, inteletual e artista. Das nações não vejo a necessidade nestes tempos tão novos, estimulantes, atraentes e cosmopolitas mas que do seu crescimento só temos incertezas.  Kant afirmou, e é para mim uma “máxima”, que “a Arte é uma finalidade sem um fim.” Sempre fez para mim todo o sentido, até ao mais profundo do meu ser livre. Se um adepto do Real Madrid tivesse colocado na ARCO uma obra em que adeptos do FCBarcelona eram enlameados numa poça imunda, estaríamos perante uma imagem que tem um fim político/desportivo. Um Museu/galeria de arte é um espaço público específico, como há muitos outros. Aí esperamos encontrar o que lhe é próprio, o tal que não tem fim, supremo desejo espiritual. A arte serviu, antes da moderna sociedade liberal e democrática em que vivemos, para através dela as religiões e o poder político e pessoal exercer a sua ação e domínio. Mas hoje recuso essa possibilidade embora aceite que continuem a  haver obras de arte em que se fundem essas funções, não respeitando a máxima de Kant.  Como moralista aceito coisas que como ético nunca poderei tolerar. Sempre que o direito da sociedade, do grupo, seja manipulado por manobras hábeis.



Esquírola cento e setenta e cinco




A Veneração é uma consideração particular de relação entre dois seres.  Os animais não a consideram.  Se nós a consideramos é porque é importante para ser humano. Ou será pouco!? Tem origem do latim “venerari”, que significa a ação de reverenciar, de ter uma grande admiração pelo outro.  Não se tem veneração por uma ideia, por uma obra. Parece que a veneração espera vantagem, ganho, proveito. Há a veneração como idolatria, como prestar culto a uma divindade, a algo sagrado. Também pode ser amar sem “limite” uma pessoa que nos é querida, que exerce um papel especial na nossa vida. Será que a veneração tem na história da arte moderna e contemporânea uma importância ou um papel que nunca teve noutras épocas, embora a saibamos como Miguel Ângelo, por exemplo, era idolatrado por certos contemporâneos e o foi depois por adeptos? A pergunta é para que serve a veneração para um jovem, por ex., pela figura ou pessoa de um artista? Como já vimos, venerar uma obra não dá jeito. Conhecemos muitos casos em que parece haver veneração de várias pessoas por certos artistas? Sim conhecemos, direi eu. Toda a existência se perde se essa figura tutelar venerada e veneranda desaparece. Nunca experimentei esse sentimento e, como dizia o outro, isso não é uma vantagem. Nunca passei da admiração ou mesmo do fascínio. A questão essencial parece ser a de saber se viver afastado do outro é mais importante, do que se viver ligado ao outro. Na Meditação só se estivermos completamente sós a Fazemos. No conhecimento só o temos se nos afastarmos do objeto.  Então a veneração ou é um “interesse”, ou é uma dependência vivencial. Quem a julga cultivável?
 
Esquírola cento e setenta e quatro

Há dias voltei a dar o passeio dos tristes pelas coleções dos diversos Centros de  arte contemporânea da Península Ibérica, no seu todo. Voltou ao de cima o ”sem sentido”.  Para ali estão diversas obras, já aos milhares, que nunca mais dali sairão. Aqui o “sem sentido”. A maior parte não merecem sair. Mas as que merecem que sentido se lhes pode encontrar? Esta situação é nova. No início do século  XX não havia esta instituição do património e de um  sistema que o alimenta e se alimenta a si.  As obras ou se usavam ou iam para certas coleções de eruditos, seguindo uma tradição muito elitista, com 500 anos. Mas que sentido podemos encontrar nisto tudo que crescerá como sem sentido todos os anos, sem critério ou com critérios sectários e insondáveis e indizíveis. Atrás está a democratização da arte. Se a obra de Fernando Pessoa for toda destruída, para ele será indiferente. Para muitos de nós será pessoalmente uma perda vital. Não penso na sociedade. Enquanto o artista é vivo a sobrevivência da obra é para ele a sobrevivência de si.  Durante essa vida muitos artistas partilham com os outros, em pequeno ou grande grupo, essa vivência de algo que a todos diz respeito, tem sentido.  Como já o disse, é isso para mim a cultura. Partilha, nada mais. A vida só tem sentido, entre os homens se for dirigida para a oferta aos outros de oportunidades que cada um tem a possibilidade rara de criar. Utilizemos enquanto estamos vivos ou depois de mortos se outros as quiserem utilizar.  Não há outros seres vivos que vivam para isto, com este sentido. E ele transformou-se numa necessidade, o que é extraordinário! Aqueles de nós que no dia a dia ouvem as canções dos seus ídolos e as trauteiam, procuram esse sentido. A pintura que procuro ver, em fotografia ou no museu, em alguns dias, de algumas semanas, e de alguns  meses que se seguem, dão-me esse sentido.  Quando coloco nos blogs imagens de obras e textos só espero que, mesmo com um só visitante, se cumpra essa partilha de que tem algo para dar e aquele que se espera receber. E não há mais nada, como não o há no trabalho feito pelo operário na fábrica. Mas isso não é pessimismo ou deceção pela vida ou pela obra. É mesmo encantador nessa sua simplicidade de dimensão pequena e restrita. Que vale um milhão mais do que um?! O que conta é o sentido que se encontra só, ou sempre, no interesse desinteressado pela consciência do existir e partilhar nesse exclusivo tempo que nos diz respeito.







DESENHOS SEM PENSAR
mostrados e apresentados sistemáticamente no blog drawingdibujodesenho.
Aqui alguns desenhos recentes entre os realizados diariamente.





12.04.18

























28.03.18


























15.03.18

























01.03.18



























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AGUARELAS 
A partir dos DESENHOS SEM PENSAR



acompanhamento


























esperado esperando
























inexplicado aceitável































. AGUARELAS AO BAIXO

Reposição e revelação de imagens da série
Cenas em frente ao mar 































NOVAS PINTURAS A ÓLEO

óleo sobre tela 140x110 cm













óleo sobre madeira . 60x40 cm





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PINDUAS/PINDOIS   Pinturas em duas faces e dois tempos


Projeto de pintura em pequena dimensão, em objetos ou superfícies anexas ou contíguas. Como as superfícies ou planos da pintura e da imagem são normalmente opostas quando de vê uma delas não se vê a outra. As superfícies podem ser em número superior e dar origem a situações de desenvolvimento temático ou semântico mais complexo. A exploração da condicionante temporal da apreensão e observação das imagens é o vetor mais importante do projeto pois deve permitir criar inusitadas situações expressivas.

Os objetos são em madeira de diversas árvores e as superfícies são preparadas com colas, tecidos e papeis.  São pintadas em acrílico, esmalte sintético e óleo de água. Também se utilizam pigmentos diversos, purpurinas e folha de ouro.

As dimensões e formatos variam com o tipo de cortes nos troncos das árvores. O clip
presente nas imagens dá a sua dimensão.













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DESENHOS no iPad
Nova série de desenhos há tempos experimentada e em desenvolvimento pois dá algum gozo.
Tem um Tema. Um Medo





















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 . PINTURAS no iPAD






















































PINTURAS NO iPad
- imagens a Sul 2015





























. NOVAS PINTURAS NO iPad








 













. iPADs dos SAPOS

   Algumas  imagens pertencentes a um conjunto mais vasto
  glosando o sapo como humano

























 




















O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio. O outros textos podem ser vistos na Página própria.



RUBENS






























Peter Paul Rubens, 1577-1640, nasceu na Flandres. É um dos maiores pintores do Barroco. Fez mais de 9000 desenhos e um deles é o que se vê aqui. O  Museu do Prado vai mostrar a sua vasta coleção de pinturas de esbocetos, desde alguns com cerca de 10 cm, até outros com 1 metro. Tal como os desenhos os esbocetos são produtos direto da sua mão e mente. As milhares de enormes pinturas eram também pintadas por muitos outros pintores com quem trabalhava – chegaram a ser 25. É o pintor das cortes do grandioso, como a Corte espanhola. Velázques conheceu-o mas era o pintor de câmara do rei e designer das festas reais. A decoração dos palácios e igrejas eram para Rubens. Este desenho como outros semelhantes no tema e processo é muito esclarecedor das suas capacidades e caráter . Ele desenhava da imaginação tratando os temas bíblicos e mitológicos e também desenhava do real, como no caso o real popular, como o fazia com paisagens aparentemente vulgares. São esquissos de casais de camponeses dançando. Ele desenha em direto ou de memória as variantes da composição ou articulação dos corpos no espaco, como fazia na sua pintura. É curioso como ocupa a folha na diagonal em três faixas. O papel era raro. O traço muito tenso e curto agita-se com uma secura e firmeza notáveis. Apanha o essencial que dá sentido ao movimento dos corpos em relação no espaço. Será um desenho de 1627, 13 anos antes de morrer. Um autor feito mas que continuava à procura da vida e a ver como era a realidade mesmo que na sua pintura trate dominantemente de temas do imaginário cultural. Nos retratos ele está sempre ali. Naquele raro momento. Viveu jovem, 8 anos em Itália, e de Veneza trouxe a libertação expressiva plástica da pintura. Ver um quadro de Rubens chega só a1metro de distância. Em Ingres podemos encostar o nariz à tela. Foi uma enorme mudança da experiência da imagem da pintura como objecto.




 AUGUST MACKE





























August Macke,1887-1914, foi um pintor alemão, que morreu jovem como se usava na altura. Cultivava a tendência expressionista, no pós-impressionismo, dentro do grupo, Der Blaue Reiter,, de que foi fundador, e armava, sem bem o saber, os arraiais da abstração. Esta aguarela, 29x22 cm, de 1913, bem o demonstra ou evidencia. Em 1912, Duchamp pintava e expunha sem qualquer êxito o, Nu descendo a escada, uma obra futurista exprimindo a ideia de movimento e da 4ª dimensão. Eram os vetores do pensamento modernista da época. Mas na base do formalismo abstrato, que Duchamp desprezava, estava este espírito e este entendimento do que é um quadro, uma pintura e o que se espera que ela trate ou nos toque. Ainda temos presente uma porção da experiência real, do dístico, da rua, do balcão mas tudo começa a ser subjugado pelo jogo absoluto dos valores plásticos. A cor, a composição geométrica ou informal, a forma, o ritmo, a textura. Ainda hoje este quadro é satisfatório para muitos pintores e, cem anos depois, não deixa de ser com ternura que olho para estas aguarelas, tão delicadas, espontâneas, seguras, sabendo-se que não se sabia bem o que se estava a fazer. Com 27 anos deixou de seguir esse caminho que trilhava com muito empenho, crença, fascínio e surpresa do feito. Outros o fizeram e fazem ainda hoje.






Pintor Grego


























Pintor grego anónimo, cerca de 450, AC, é o autor desta taça em terracota. A cena representará a oferenda diante de um altar. A Pintura de fundos ou campos circulares de taças foi muito frequente na arte da pintura cerâmica na gécia antiga. Depois passou para os pratos. Mas é sobre o desenho/pintura deste grego, “outro” de há 2500 anos, que eu quero escrever; quero ver. O campo circular no desenho é dos mais complexos porque não tem axialidades fixas e tem um centro que o é de tudo à sua volta. O próximo e o exterior. É um campo que encerra mas sem pressão clara. A orientação, como neste caso, é clara e a ocupação do centro na vertical pela figura principal, também. Para a esquerda se coloca a outra figura que indica a ação. Do centro da figura, do centro do circulo e mão, sai uma linha que é quase um diâmetro e parece apoiar a leve queda traseira da figura. O braço direito contraria, também, essa tendência de queda. É esse o elemento principal da ação. Admitamos que o braço direito não existia. O equilibrio desaparecia e os sentidos da ação ou imagem seriam outros. Não se sabe se existiria algo sobre a cadeira ou base à esquerda, O desenho é linear, como um arremedo de mancha no lenço sobre os ombros que se liga ao cabelo. Três grupos de conjuntos de linhas verticais ondulantes alimentam essa expressão de movimento suave. Também dois conjuntos de formas ritmadas, muito pequenas, são indispensáveis, na base do vestido e na base do objeto. Façamos a experiência de retirar qualquer destes elementos e antever o que se ganharia ou perderia. É esta, sempre, a prova do valor de um desenho. Se perderia também a graça insinuante que um pequeno gesto, como motivo, faz o que é importante.






UMA IMAGEM 
E QUASE MIL PALAVRAS  .1



















O PINTOR E O MODELO

Este é um dos temas pós-clássicos e misteriosos da pintura. Porque quer o pintor mostrar-nos o que se passa nesse delicado momento em que entre o que não sabe o que quer pintar e a vontade de o fazer? Esta imagem, que é uma fotografia, mostra esse momento. Quase não o mostrava. O que a torna mais misteriosa. Uma oficina de tecelagem e também atelier de pintor. À esquerda pode ver-se um retrato de um “modelo” feminino, desenho ou pintura, tanto faz. À direita, com muita evidência, uma mulher nua posa para o artista pintor, pois que estaria a fazer uma mulher nua numa oficina de tecelagem.  Dele aparece um braço armado de pincel que pinta uma tela onde parece surgir a imagem de uma mulher nua. Estará ele a servir-se da mulher nua com o modelo? Sabemos demais como os pintores desde o séc. XVIII iniciaram uma já longa exploração desse tema. Um modelo, existirá, porque se quer fazer um retrato. Um retrato é uma tentativa de apreender e representar os aspetos essenciais visíveis e latentes de uma certa realidade. Um modelo não é uma imagem mas um reservatório potencial de imagens. Se desenhamos uma mulher nua de imaginação fazemos recurso a enorme quantidade de imagens de mulheres nuas que a nossa mente contém em níveis muito diversos. Isso destina o desenho a recorrer-se de configurações que estão estratificadas e sedimentadas de na nossa mente segundo certos padrões de gosto, de sentimentos e valores morais. Por isso se dizia no classicismo em geral que desenhar a partir da natureza, do modelo, era a forma de fugir aos vícios formais e às convenções. Ser criativo e inovador. Com o modernismo este quadro cognitivo, este processo de gestão do conhecimento e do saber foi anulado. Ficou só um quadro de saber que reside no interior experienciado e herdado do autor. Assim se passou à situação do modelo ser um mero pretexto. Como quase sempre é um modelo feminino e o artista é homem.  Poderá haver uma relação entre o modelo e o artista que ultrapassa a condição de objeto retratável. Pode ser voyeurism, pode ser estimulo sentimental, erótico, sensual,  enfim... Todos sabemos que um modelo nunca é a imagem para obra. Para isso existe a fotografia. Um modelo é uma motivação, um condicionamento que produz libertação. Um ponto de partida para uma chegada inesperada. Mas o que está na base desta atitude ou desta satisfação é o abandono da mimésis, da representação da realidade iniciada na arte nos meados do séc. XIX. A expressão do próprio artista é a base do critério para valorizar o ato de pintar que passa, acima de tudo, a ser “criação”. Não representar o visível mas o que está “dentro” do artista. Ainda hoje esta cultura, este paradigma, se mantém pois assenta na força de um direito bem moderno e romântico. Ser-se o que se é e não se submeter a modelos consagrados a modelos morais. Ainda vivi, na idade dos dez, esse universo e a presença dessa condição, desse paradigma. Senti como foi duro e complicado vencê-lo. E vejo hoje como ser autêntico, individual e subjetivo é comum e aceite. Uma ética da autenticidade é aquela que nos enquadra mas que encobre contradições e mesmo desvios e abandonos. Mas como todos sabemos este mar moderno e modernista não é de rosas; às vezes é quase um pântano.


































DUAS FIGURAS TÍPICAS falam sobre 
A CONSCIÊNCIA NA PINTURA E NÃO SÓ.



19ª conversa

1.1            – Escaleno, como te tinha anunciado tenho vindo a viver envolvido com as ideias sobre a consciência. O que me despoletou ou forçou esse interesse foi a aproximação dos teóricos ou dos escritos mais recentes de divulgação e especulação sobre Mecânica Quântica. Talvez esse mundo, essa ciência, que dá origem a uma tecnologia que suporta este espantoso mundo merecesse mais atenção mesmo sendo tão estranha.  Sempre me interessei em saber porque o são as coisas como julgo que são. A pintura, um quadro ou uma tendência na pintura tem variado de interesse para mim de forma contínua. Costuma dizer-se – eu não tinha consciência disso. Quer dizer que não via isso, nem pensava isso sobre a “coisa”. E que consciência posso dizer que tenho hoje disso? A coisa pode mesmo ser uma ideia, como Deus, mas aí nunca se vê a “coisa”. Falo por isso de coisas que se vêm e ouvem, etc.. Para os físicos quânticos, não acompanhados pelos físicos clássicos, a consciência da observação faz parte do que chamam o “segredo de família”, que trata do fato, indiscutível para eles, de que a realidade das partículas básicas, eletrões, protões, etc., é afetada pela observação, isto é, pela consciência de quem observa. É que nesse mundo em que não vemos diretamente as “coisas”, mas só através de aparelhos de medida, eles nos revelam que elas não se comportam como as coisas macro, explicadas pela fisica clássica. Não estou autorizado por ignorância e incompetência a falar mais do mistério.  Dizem, sem essa consciência do observador não há fenómeno. Isto para um artista é só ambiente poético e concetual. Não percebo nada. Mas aprendi coisas muitos estimulantes com a aproximação às teorias e aos fenómenos descritos.

2.1 – Para mim, que prezo muito o inconsciente, não tenho dúvida que ele inventou a consciência para que pudéssemos ter conhecimento da sua existência. Ele não foi bensucedido com os outros seres, mesmo os mamíferos superiores, mas parece que foi bensucedido com o homem. Nossa tarefa humana, desde sempre filosófica, foi saber o que é a consciência de si, que é aquilo que permite fazê-lo, o que é uma maçada. Não sei mesmo se a consciência não é uma ilusão. Quer dizer, aquilo que eu considero ser a realidade, que me é estranha, e mesmo a minha noção de mim-mesmo que possa existir para além daquilo que a minha mente é capaz de ordenar. Quando vejo uma pintura eu estou perante um conjunto de estímulos que se deixam manipular por aquilo que eu “quero” que eles sejam. Quero ver o que me interessa, apoia, confirma e fujo das imagens que contrariam ou criam crise acerca disso. Há dias um jovem que esteve duas semanas em coma depois de um acidente, disse que não se lembra de nada antes do choque. Não tinha consciência do que lhe tinha acontecido. Nós dizemos – perdeu a consciência.  Mas o corpo dele continuou a manter as funções básicas e mesmo o cérebro. A mente parou e recomeçou. Os reducionistas não vêm grande crise ou perplexidade. Mas esta consciência não é aquela que vamos considerar. Ter consciência é sentir o prazer; sentir o corpo e pensar que o estou a sentir com o que vejo e ouço. Que sou eu entre os demais que partilham essa consciência. Que mais quero ter, Equilátero?


1.2 –  A consciência que é o termo usado para nos referirmos à possibilidade e capacidade de dizer o que estou a dizer e de saber que outros o fazem também. Nunca foi a mesma desde que surgiu, não se sabe como, e mesmo hoje é muito diferente nas idades do ser humano e entre eles. Talvez vir a conhecer o que é a consciência seja uma impossibilidade ontológica ou epistemológica – o que exerce o conhecimento não pode sair de si para se ver. Talvez possa ser a IA – Inteligencia Artificial – que nos venha dizer à nossa consciência o que é que ela é. Mas ela continuará a desenvolver-se por si. Mais do que um “corpo” parece ser um processo, uma nuvem que se move anda. A consciência humana não pode conhecer-se a si própria. O ser está impedido de sair de si e de se olhar como fosse estranho, ou exterior, a si. Assim, admitir que venhamos a conhecer o que é a consciência é tão interessante como saber se Deus existe. Saber que penso e que logo existo é uma formulação filosófica conhecida e conhecer-se a si mesmo é o desígnio de várias filosofias, teosofias, religiões ou práticas espirituais. O que nos rodeia, seja ínfimo ou vasto, é infinitamente mais vasto do que aquilo que podemos ter consciência. Quantos ignoram a nuvem singular que lá no alto, pela luz do sol, que é por si “criada”; quantos olham demoradamente o percurso irrequieto da formiga: quantos olham cuidadosamente a face do velho, em frente, no Metro?. Ter consciência parece depender do observar. Só têmos consciência do que observamos. Não chega estar em contexto. Seja a ver uma pintura, um filme, um edifício ou ouvir uma canção. Ser consciente exige participação. Alguns acham que só há religiosidade com participação mística, que não é propriamente consciência, embora seja vivência.


2.2 –  Há quem pense que a consciência é o Universo. No Cosmos surgido do Big Bang a possibilidade ou probabilidade de existir o ser, mais ou menos parecido connosco, possuidor de consciência, é de 1 seguido de 23 zeros. Logo será de pensar que o universo se é consciente de si não lhe chega ser e quer que outros sejam conscientes que ele existe. Porque não admitir que ele, consciência suprema, tenha decidido que neste particular plano se pudesse desenvolver uma possibilidade de surgir essa consciência.  Será que o Universo nesta altura tem ânsias que o homem cientista vá, enfim, descobrir como tudo começou inquestionavelmente. Isto é, atingir a consciência absoluta de si e do cosmos? Sabes, Equilátero, por vezes, aproximo-me daqueles que consideram que o homem é o centro do universo. Para alguns o Homem criou Deus e, daí, não custa a admitir que criou o Universo. Se as coisas são o que são, como as vemos, e se tivessem seguido outras improbabilidades, ou possibilidades, nós não existiriamos para o observar e consciencializar. Uma pintura só existe se houver quem a consciencialize intensamente. Se não dissipa-se ou nem sequer chega a ser. A visão ou conceção antrópica parte do pressuposto de que o mundo, o universo, foi feito à imagem e necessidade do homem. Com a desgraçada utilização que este ser faz do planeta custa a crer que seja consciente de si. De fato, se o homem desaparecer vai ser uma maçada para o Universo. Ninguém mais o vai apreciar, já não digo o planeta, que mesmo deixado no mais miserável estado só vai ser reconhecido por seres que resistam à destruição, mas sem consciência. Isto parece um pouco tolo, Equilátero, mas há consciências a mexer por aqui.


1.2            – David Chalmers, filósofo e físico, que pode ser seguido no Youtube, considera, há anos, que compreender ou explicar a consciência implica resolver o que chama o problema difícil. Os problemas fáceis que a compreensão da Consciência levanta são aqueles se explicam através das medidas, dos efeitos de estímulos nos neurónios e células cerebrais. Eles interagem e se correlacionam para nos permitir viver como todos os outros animais. Temos avançado muito nesse conhecimento e explicação. Mas o que ele chama, o problema difícil é compreender como é que surge e para que surge a subjetividade. Como surge e para que serve o livre arbítrio? A arte? A filosofia? As coisas que não servem para nada mas que são decisivas para ser-se humano. Berkeley, um idealista radical considerava que ser é ser percebido, observado, o que quererá dizer que o que existe é criado pela observação e ser conscencializado. Uma pedra só existe se alguém a reconhecer e ver, é verdade. Escaleno, a nossa consciência tem uma condição civilizacional natural ou ecológica que orientou a vida dos humanos desde sempre. Sabiamos e tinhamos consciência de que o que nos rodeava era imutável e se iria manter para sempre, até ao fim dos tempos. Mas hoje a nossa consciência tem uma condição civilizacional artificial ou cientificotécnica que nos diz que tudo o que é natural desaparecerá e será substituído pelo novo artificial, ou pelo nada. Assim visto e pensado, todo o mundo é criado pela nossa observação e desaparecerá connosco. O físico Casimir, depois de descobrir o positron dizia que parece, por vezes, que as teorias não são a descrição da realidade quase inacessível, mas a realidade é o resultado da teoria. Os velhos gregos solipsistas já tinham encontrado essa ideia. 


2.3 – “Mas enfim há uma diferença. /Se a flor flore sem querer, /sem querer a gente pensa. /O que nela é florescer / Em nós é ter consciência.” F. Pessoa, 1931.  Equilátero, a consciência tem a ver com racionalidade, embora Pessoa não o afirme.  Mas será a nossa vida, no dia a dia, dominada pela racionalidade? É evidente que não. Só em raros e curtos momentos a ligação racionalidade/consciência é plena. Então podemos estar conscientes sem estar a racionalizar ou a compreender os dados dum certo momento ou ação. Isto, por ex., é muito importante nos processos da pintura. Há artistas que dizem que a arte é dominada pelo inconsciente e os cientistas dizem que é a racionalidade (consciência) que domina os seus processos, embora induzidos pela intuição; o eu é irracional. É evidente que todo o ato criativo é dominado pela intuição. É uma função mental irracional, como o é a perceção. Não podemos dominar a sua ação. Mas só atuamos criativamente a partir de um património de saberes e de dados. Ele se constrói basicamente através de processos racionais. Pensa-se que em arte se trata das técnicas. Ensina-se técnica porque pode ser racionalizada. A aprendizagem dum método é essencial; exige muita racionalidade, conhecimento sistemático, analítico e crítico.  O mesmo se verifica com conceitos, como composição e com conceitos expressivos. A consciência é diferenciante. Quando comemos tripas podemos fazê-lo quase sem dar por isso, sabendo por hábito que são boas, ao que sabem e como acabam. Mas se tomarmos em consideração e atentamente (diferenciação) cada garfada veremos que cada uma delas nos provoca efeitos diversos pelos condimentos associados. Estaremos aí em elevado grau de consciência, Equilátero?


1.4 – As emoções universais, receio, fúria, tristeza, nojo, felicidade e surpresa, não são conscientes, são realidades mentais que muitos animais experimentam e usam na sua vida de forma decisiva, não só o ser humano. Repare-se que só uma é claramente positiva, uma surpresa pode ser má, e as outras são todas perniciosas. Por outro lado, penso como alguns, que os sentimentos são uma construção da consciência e nos integram na ética que é uma construção da consciência humana, diferente da moral que é inata e está ligada às emoções básicas que nos defendem, ajudam e protegem. A emoção estética, embora não seja considerada pelos teóricos, é determinante para a maioria das escolhas que fazemos sobre o meio. As emoções surgem através do corpo e dos sentidos e estabelecem no cérebro por processos muito complexos, sobre as quais já há muitos estudos.  Mas estudar o que se passa nos neurónios não tem a ver com o conteúdo das emoções que é a única coisa que interessa ao ser mas nem sei se interessa saber como. A nossa experiência artística é sempre iniciada por essa adesão emocional estética. Depois outros níveis da exigência mental ocupam o seu lugar na nossa experiência e gozo do mundo e da nossa circunstância. A probabilidade é aquilo que a consciência mais gosta de tratar de assegurar. Mas não é muito criativo, excitante, prometedor. A possibilidade é muito mais atrativa, por ser imprevista, insegura e inquietante. Jogos e lotarias estão aí em força. A consciência também aprecia mais o princípio, a norma, a regra, o previsto do que a circunstância, o acaso, o inesperado. Mas todas essas realidades fenoménicas ou ontológicas não se contradizem. São a própria vida e a origem ou fim do espírito.


2.4 – Há quem ache que a consciência não é uma pirâmide, mas sim um labirinto. Também posso achar que é uma esfera. Começou por ser uma esfera muito pequena, com uma superfície pequena e um interior muito denso. Foi crescendo e acima de tudo cresceu a superfície, que é a verdadeira consciência, pois o que fica dentro de esfera é o inconsciente, o não conhecível. Na superfície da esfera não há orientação preferencial nem pontos bons e maus. Há possibilidades de relação. Dado o espaço esférico, quando vemos uma zona estamos impedidos de ver outras. Isso acontece, julgo eu, na experiência que temos dos inúmeros atos conscientes e ideias que outros não consideram aceitáveis. Não sabemos bem o tamanho dessa esfera nem se irá sempre crescer e como crescerá. Acho que vai crescer sempre, pois é a nossa condição humana vital que a fez aparecer, não digo criar. Nenhuma máquina será consciente pois ela não é capaz, por natureza não vital, de fazer surgir uma esfera assim. Para os budistas ancestrais, como Hui Ming Ging, que Jung estuda na introdução ao Segredo da Flor de Ouro, a proteção da unidade da consciência, contra as permanentes fragmentações provocadas pelos “sistemas autónomos” que constituem o inconsciente, é o mais importante. Para que isso resulte é preciso que o intelecto não pense que domina a mente e que a estrutura fundamental do inconsciente não seja afetada pelas circunstâncias do consciente. Daí, a etapa, O centro no meio das circunstâncias, nas quatro etapas da meditação.


1.5 – Quem pinta deve ter consciência do que está a pintar, do que é a sua pintura, e o que são as suas obras para si e para os outros. Mas que quer dizer isto, Escaleno? Será possível ter consciência do efeito que uma pintura que fiz tem sobre um observador dela?  Que consciência interessa ao pintor? A consciência do que sou como pintor depende das referências que tenho do que é ser pintor e de como posso ter êxito. O êxito é um dos aspetos mais curiosos, não só da consciência. E o que é? O êxito para os animais, que não são conscientes, é realizar instintivamente o projeto de vida da espécie. Se as condições naturais mudam é preciso mudar o corpo para sobreviver. Aqui a parte do corpo que decide é o cérebro. Um pintor tem êxito na disciplina e no contexto que lhe é favorável, não no dos outros. A disciplina e contexto dos outros pode ser o seu principal adversário mesmo em termos de sobrevivência das suas obras. Mas tem consciência do que está a fazer? Picasso em Paris, em 1907, não o poderia fazer noutro sítio, que tipo de consciência tinha do que poderia pintar tudo diferente? Sabemos que queria, acima de tudo, ser conhecido, estar à frente dos outros. E Mondrian em 1920, e Rothko, em 1950, e Bacon, em 56, em Londres? Tenho consciência, isto é, sou capaz de estabelecer nexos entre ideias que agregam certas possibilidades de compreender o sentido de certas ações ou fatos. Mas tudo isso são imprecisões ou potenciais possibilidades. Quando pinto, a consciência atua sobre a escolha entre sempre inúmeras possibilidades. Ao nos encerrarmos numa temática, num dispositivo técnico, num universo icónico, numa poética, numa modalidade formal o que estou é a tentar evitar que a consciência se dissipe. Paul Valéry, um inteletual francês que viveu nos anos 30, direta e intensamente, a mudança de paradigma que o modernismo protagonizou, dizia, “a arte moderna tende a explorar quase exclusivamente a sensibilidade sensorial a expensas da sensibilidade geral ou afetiva e as nossas faculdades de construção e adição de durações e transformações do nosso espírito”, (…) “ o que chamo Grande Arte é simplesmente uma arte que exige que nela se empreguem todas as faculdades de um homem e cujas obras são tais que todas as faculdades de outro se vêm requeridas e compreendidas”. Um grande passo para uma consciência mais plena.


2.5 – A consciência do pintor como é? Por vezes tenho a impressão, ou a certeza, que é baixa e raramente alta, isto é, muito inconsciente. No músico compositor é alta como nalguns escritores e ao contrário, nos bailarinos. A que se deve esta impressão ou estas certezas, já que ter certeza é assumir a consciência clara sobre a realidade, mesmo que isso seja uma ilusão. As artes populares são menos conscientes pois reproduzem modelos consagrados e convencionais ou comuns. O que é comum não exige muita consciência. Erudição quer dizer consciência, pois é uma racionalização vasta e correlativa de realidades afins. Consciência do seu lugar no conjunto com os outros. É o que faz da arte erudita a sua razão de ser para a comunidade humana. A propósito das palavras de Valéry, diziam nos USA, nos anos1950, os sociólogos da comunicação, que a Alta Cultura implicava a mais elevada consciência da complexidade da expressão e da comunicação, ausente parcialmente na Média Cultura e reduzida na Baixa Cultura. O politicamente correto não deixou a ideia vingar. O que eu pinto espera ter um lugar entre os outros. Não interessa se vai ter esse, outro ou nenhum. Mas se tenho consciência do que pinto, sei isso. Ter consciência do que pode significar para o outro e as outras obras. O nosso público de eleição, de primeira linha, são os nossos parceiros de ofício, os pintores – embora aceite que são também os nossos maiores detratores. Mas é aí que reside a consciência mais elaborada. Nunca sabemos que a consciência que temos é uma consciência dos outros. Sabemos muitas vezes que não é. Ter consciência como pintor, foi coisa que o modernismo nas vertentes dadaístas, surrealistas, expressionistas, e mesmo concetualistas, veio dissipar. Deu espaço ao inconsciente e à subjetividade do individuo que recusa encarar-se como parte de um todo e como atuando numa disciplina ou ação específica. Para Poussin, pintar era ter uma vasta e profunda consciência de si e do mundo e da disciplina. Equilátero, estou consciente de que pinto quando começam a aparecer essas maiores ou menores porções de matéria liquida? Ou quando elas surgem e se integram numa entidade concetual e existencial que sou eu, a disciplina, com os outros?

JoaquimPintoVieira Jan2018





. EXPOSIÇÃO FAUP . 

 Projeto RISCOTUDO
     https://riscotudo.wordpress.com/
   de 20 de Março a 20 de Abril
 

  
DESENHO setorna PINTURA

 10 montagens de aguarelas e desenhos
  

As peças da exposição mostradas a seguir, são a montagem ou associação de um desenho sem pensar, realizado há alguns anos, com uma aguarela que foi elaborada a partir dele. As aguarelas são mais recentes e fazem parte de um conjunto de aguarelas, entretanto realizadas, e em realização, seguindo o mesmo processo. 5 peças são baseadas em desenhos sem pensar, em A4, ao alto. As outras cinco são baseadas em desenhos sujeitos a tema livre, em A4, ao baixo













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