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pintovieiradesenho

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segunda-feira, 29 de agosto de 2016



Este blog destina-se a divulgar as

obras de artes plásticas que fui realizando desde 1965 - mostradas em parte nas imagens das "páginas".  Também noutras "páginas" se encontram textos diversos que entretanto fui produzindo.

Nesta página, "mensagens", aparecerão textos do momento, em seções próprias, imagens de obras recentes, notícias e, também, textos mais longos e curtos que tenham sido produzidos recentemente e que se justifique a sua divulgação no momento.


Nos blogues associados - drawingdesenhodibujo.blogspot.com e pintovieira ensinodesenho.blogspot.com - podem ser encontrados imagens de obras de outros aspetos da minha atividade.


Mensagens da quinzena

De 12 de SETEMBRO
26 DE SETEMBRO DE 2016






.ESQUIROLAS
.DESENHOS SEM PENSAR
.AGUARELAS
 
a vermelho estão as seções incluídas, intercaladamente, 
na semana mais próxima da quinzena. 




ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse 
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.




esquírola cento e quarenta e um

 
Ao ver há dias o site do Museu da Fundação Sorigué, em Lérida, Catalunha, voltei a deparar um panorama já conhecido nestes tempos de globalização e descomprometimento. Em todas as coleções dos centros de arte contemporânea e nas coleções dos museus de todas as Fundações por esse mundo fora, salvo raras exceções, vemos os mesmos artistas: 20 americanos, 5 alemães, 5 espanhóis, 5 italianos, 5 britânicos e mais alguns outros países do mundo menos visível. É o mesmo que se passa nos centros comerciais de todo o mundo. Em todos eles encontramos as mesmas lojas de lingerie, calçado, roupa de homem, de criança, malas, perfumes, etc. E diz-se que é tudo o melhor que há. Dizem os colecionadores, gente com dinheiro, que o que querem é partilhar com o grande público as suas coleções de arte que durante a sua curta vida compraram com muita paixão e dedicação – o que é só uma parte da verdade. Mas essa parte não os deixa muito bem pois revela uma dececionante falta de originalidade, cariz, caráter, diferenciação, enfim, classe. De fato se percebe que têm as obras que o Sistema disponibiliza em cadeia. Ir a um museu em Oslo, no Dubai, em Lima, em Houston, ou Tóquio deveria ser uma experiência única, fascinante, original, aventurosa e surpreendente. Mas isto não é possível porque é ideológico. Que chata a vida institucional a destes mecenas e curadores. Valha-nos o futuro sem eles.



 esquírola cento e quarenta
Já é mais do que uma deceção ou desencanto conformado que alguns mais cultivados manifestam sobre o que se vê nas exposições de Serralves, CAC e todos os centros por esse mundo fora. Que se tinham transformado em sósias dos centros comerciais onde se pode passear toda a família sem grandes custos e com conforto, já todos sabíamos. Se estabelecermos qualquer tipo de analogia entre o que se passa na música erudita ou pop, na literatura, no teatro, cinema e as artes plásticas logo se verifica grandes diferenças. Por motivos que se prendem à natureza do consumo das obras  surgem na nossa mente  os termos como mediocridade, tolerância, desprezo, vulgaridade, cabotinice , compadrio, estultícia, vacuidade,… Não vai ninguém a um concerto, mesmo não pagando, para sentir isto. Sai no minuto seguinte. As artes plásticas sempre tiveram uma relação diferenciada com o público efetivo e o público ilusório ou marginal. Os artistas ganham o que um sistema complexo e secreto decide pagar-lhes. Nas outras artes, apesar das diferenciações da profissionalização, o público efetivo, que tem que ser sempre vasto, é o que conta. Por isso continuaremos a ter que suportar este estado de coisas no mundo das artes plásticas em que a entropia avança e domina.



DESENHOS SEM PENSAR
mostrados e apresentados sistemáticamente no blog drawingdibujodesenho.
Aqui alguns desenhos recentes entre os realizados diariamente


02.09.16






















AGUARELAS 

A PARTIR DOS
 DESENHOS SEM PENSAR

 
encontro inadiável
























HISTÓRIA PESSOAL DA IMAGEM


Como são as coisas
Parei o carro na fila do semáforo e voltei a fotografar através da janela do meu carro, pela milionésima vez, a cena à minha esquerda dentro de outro carro. Um homem ou uma mulher, muitas vezes sem acompanhante, que me olham surpresos, muitas vezes não olham e outras sorriem. As imagens embora seja tematicamente idênticas apresentam contextos poéticos muito diferentes, determinados pela face da pessoa e, acima e tudo, pela iluminação existente. Estas são algumas das inúmeras imagens que a minha mente reconhece e que eu fotografo sem qualquer intenção. Volto a ver as fotografias mais tarde no Photoshop para fazer escolhas. Escolho, desse milhar, 15. Essas imagens passam a estar relacionadas comigo com o certo comprometimento, uma certa empatia, uma certa curiosidade, uma certa sedução, ou um certo critério. Qualquer coisa nelas as separou das outras. Poderei ficar por aqui ou iniciar um processo de criação de outra imagem com uma materialidade particular e objetual ou recriar um novo contexto imagético imaterial para as 15 imagens escolhidas. Este é o quadro em que a imagem se apresenta e se oferece para mim. E o que é isso de imagem?  Para A. Damásio, um neurologista, é o resultado da associação de padrões e  mapas, realidades que formam o software do cérebro e que resultam da informação sensorial de todos os sentidos que ele recolhe do exterior de si. Não há cérebro, nem ser, sem o exterior de si. O cérebro ao construir a mente necessita de estar sempre a representar o mundo exterior a ele. Para historiadores, como Hans Belting, a imagem é a presença duma ausência. Para mim a imagem é a resposta à necessidade da mente em representar a sua relação com o outro. Daqui decorrem vários aspetos que procurarei explicitar.

Cheguei aos setenta anos e posso recordar com outra amplidão a minha relação com a IMAGEM. É uma realidade difícil de definir e mesmo de apreender. Tem uma dimensão imaterial ou virtual e uma dimensão material. Picture e image designam na língua inglesa duas realidades distintas da representação gráfica e da perceção visual, embora por vezes de forma equivoca. Picture é uma configuração material, um desenho, uma foto, etc. que tem um corpo material plano. Image é uma perceção, é aquilo que reconhecemos como uma nuvem ou como mar, por ex. mas que não sabemos bem o que é. Também designa as fotografias em geral. Do mesmo objeto ou porção da realidade retiramos inúmeras imagens. É, assim, uma imagem que só existe na nossa mente, ou que é imaterial. De fato os dois casos percetivos realmente só existem na nossa mente, pois outros dispositivos ótico-mentais verão outro tipo de imagens. Tudo isso “sabemos bem”. Mas nem sempre soubemos. A consciência da presença desses referentes, dessas alusões, dessas porções destacadas do real na vida dos homens é um fenómeno muito recente mesmo nos meios mais eruditos. A reprodução e divulgação de qualquer imagem registada em qualquer tipo de suporte implicava custos quase sempre muito elevados. Aquelas imagens que tinham uma existência única, como as pinturas ou desenhos eram muito mais difíceis de aceder.
Esta história pessoal da imagem trata das imagens que me chegaram. Não trata das imagens que em mim se originaram nesta mesma vida. Essa é outra história que é mais difícil contar. Ao escrever estas recordações e constatações foi surgindo a organização do texto e mesmo o seu âmbito. Não me desagrada a forma a que chegou. Ajudou-me a tornar conscientes algumas coisas que eu julgava que sabia e que compreendia, mas que só sentia ou ignorava. Antevejo que muitas outras me estão a ser vedadas conhecer. Mas vamos andando.
Decidi como ilustração ou motivação para a leitura do texto e também como peça de esclarecimento descritivo e concetual mostrar algumas imagens dos vários momentos. Os conjuntos de recolhas que fiz, um pouco ao modo da mnemosyne, de Aby Warburg, em 1924, mas com uma intenção metodológica distinta, ficam ao dispor.

A descoberta das imagens artísticas e não artísticas. Aquelas que valia a pena serem consideradas.
Quando tinha 5 anos, ainda não lia mas já via, com frequência diária, o jornal O Primeiro de Janeiro, uma coletânea de números de Ilustração Portuguesa, fotografias da família que meu pai fazia e colocava num álbum que eu folheava repetidamente até o ter desfigurado. Via também as revistas Cruzeiro e Manchete que chegavam dos familiares do Brasil. Via, enfim, a revista Panorama que era uma edição do Estado para a cultura e o turismo, de uma qualidade invulgar. O meu pai tinha a coleção, A Arte em Portugal, editada por Marques de Abreu, com fotografias suas, nuns excelentes pequenos volumes de A5, que eu via com muita frequência. Tudo isto a p/b. Via também livros religiosos com imagens não fotográficas mas coloridas. Estes eram os meus “campos de imagens”. Com certeza tiveram alguma preponderância na minha mente plástica e icónica.















A descoberta dos desenhos do meu pai
Como o meu pai tinha uma oficina de móveis em casa, e também os desenhava, contatei com essas imagens desde muito novo. Via, além disso, os livros e catálogos que ele consultava. Fiz a partir de certa idade réplicas desses desenhos. Nesta época o início dos anos 50 os meios de divulgação material de imagens eram muito reduzidos e o aparecimento da TV não veio introduzir uma realidade diferente. Era uma coisa estranha e quase igual ao teatro. A palavra imagem não se usava e os desenhos, pinturas e ilustrações eram o que contava. As imagens dos jornais eram comunicação noticiosa escrita. As imagens artísticas, aquelas que valia a pena ser consideradas não se viam com muita facilidade, embora houvesse no Porto uma tradição desde o final o séc. XIX de edição de fotografias, mas de âmbito muito restrito. Através da revista Panorama comecei a ver obras de desenho e pintura e outras imagens. E recordo que, até pela natureza das reproduções, sentia que havia outra qualidade além da comunicação figurativa.
















A descoberta das imagens da história da arte
 Já na Escola Soares dos Reis o contato com as imagens se alargou e comecei a ver que os desenhos e pinturas dos outros meninos eram muito diferentes dos meus. NA ESBAP, com 17 anos essa consciência agudizou-se. Quer dizer, não só eram diferentes como remetiam para referências históricas e concetuais muito diferentes também. O acesso a essas referências era muito reduzido ou limitado em número, género e qualidade. Reproduções a cores de pinturas eram muito raras. No L’Art et l’Homme só algumas raras páginas as tinham e as monografias da SKIRA tinha algumas excelentes mas de pequenas dimensões. Então na minha mente o que era a pintura baseava-se muito mais no que se conseguia ver no Salão Silva Porto, Galeria Leitura , Ateneu  e Museu Soares dos Reis. As pinturas e desenhos que fazia constantemente não eram imagens. Eram obras. Imagens, não sabia que existiam.

A descoberta pessoal da fotografia
A imagem fotográfica, e a suas variantes filme e vídeo, é sempre o resultado artificioso duma transferência de informação luminosa de um contexto para outro. Esse contexto é imperativo. O nível dessa informação é muito variado e é aceite desde que esteja presente a figura ou o ícone. O dispositivo que transfere é neutro. Como sabemos com o desenho ou a pintura não há transferência. Há criação de imagem. O dispositivo criativo é único e insubstituível. Embora o meu pai tivesse máquina fotográfica, foi muito tardia a descoberta da fotografia. A fotografia, e a imagem fotográfica estavam arredadas da formação artística das Belas Artes. Só os arquitetos lhe davam atenção e com eles a descobri. Passeia a usar a Kodak, de fole, do meu pai para fazer ensaios de fotografia – imagens minhas. Como estava envolvido artisticamente pela abstração, quase minimalista, usei a máquina fotográfica para ver no real analogias. A vida e a natureza pouco me diziam. Em 1968 comprei a primeira Minolta-reflex e fiz fotografia a p/b e diapositivos até 1989. Depois fiz só fotografias com negativo a cor. Nos anos noventa abandonei o P/B e só fiz fotografia com filmes negativos a cor. Durante todo esse período terei feito 25.000 imagens. A partir de 2001 comecei a fazer fotografia digital, quase diariamente, com handycam e máquinas de bolso. Já fiz mais de 50.000. Estes números e valores relativos, e pouco elevados, face a outros casos, podem ajudar a compreender certos fenómenos. Eles envolvem-nos em dimensões, exigências e consequências imprevisíveis ou incompreensíveis.  Uma delas é a sua improvável ou impossível utilização pessoal. Este é um dos aspetos do universo da imagem num tempo em que ela se impôs ao nosso inconsciente e à nossa consciência.

A descoberta da imagem fotográfica. Os magazines modernos antes e depois de 1945.
Com o recrutamento militar obrigatório e depois com o serviço militar de dois anos em Angola passei a fazer fotografia, deixei de desenhar e pintar. Em Luanda como tinha acesso circunstancial à revista Stern passei a prestar uma especial atenção às imagens aí mostradas. Embora já conhecesse a Life e a Paris-Match, onde procurávamos reproduções de obras de arte em artigos ou secções próprias, com uma qualidade superior e em grandes dimensões, só em 1973 comecei a ter consciência da imagem como realidade autónoma. Dediquei uma parte da minha vida a partir de 1976 a estudar a fotografia em Portugal pois verifiquei que não se sabia nem havia nada publicado no Séc. XX. Esse interesse surgiu pela orientação criativa, centrada na imagem, que a minha atividade com artista plástico tinha seguido.  Isso levou-me a estudar a fotografia internacional e através dos livros clássicos e das revistas, como Camera, Creative Camera, Picture Magazine e outras. A recolha de magazines da vida social e cultural também mereceu atenção. Foi um período até meados dos anos 80 de grande expansão editorial.
















A criação de um arquivo pessoal  – 1973
Para que serve um arquivo de imagens, de fotos? Eu iniciei um há 40 anos porque necessitava de imagens, para os trabalhos artísticos e também por curiosidade e prazer na descoberta desses mundos gráficos e plásticos da edição impressa. Era frequente necessitar de imagens específicas, como por ex., de uma cavalo branco, e assim poderia responder a essa necessidade. Cedo descobri como era difícil responder. O que é uma imagem de um cavalo branco? De frente, de lado, de cima, de baixo, deitado, a andar, ao sol, à noite? E por aí fora. Só uma dessas será a satisfatória para um projeto imagem. Em todos os temas isso se passa. Se estivermos diante de um cavalo branco um número enorme de imagens se formam na nossa mente mas retemos muito poucas. Como se depreende deste raciocínio estamos perante o intratável. É assim como se pode considerar qualquer arquivo de imagem neste tempo. Intratável. Na NET qualquer solicitação em qualquer motor de busca fornece inúmeras imagens. Mas acontece que fico sempre insatisfeito perante uma requisição. Quererá dizer que a realidade é naturalmente infinita ou que as imagens que podemos ter dela também o são. Nunca haverá um arquivo satisfatório. Mas o que nos resta como vida é fazer escolhas, ter uma posição, aproveitar uma possibilidade entre muitíssimas. O nosso arquivo será sempre isso. A alternativa é não ter arquivo, não querer saber de nada. Recolher-se. Todos temos um arquivo mental de imagens que nos suporta, orienta e dá sentido mais do que as ideias, julgo eu. Ele está sempre disponível quando pensamos num nome e quando sonhamos sem nomear nada. Mas há nomes que fazem surgir imagens. Nomes de pintores, fotógrafos, os realizadores de cinema, arquitetos, etc.. Há outros que nem sempre como os poetas, os romancistas. Há outros que nunca ou raramente, os filósofos, os músicos, os cientistas.  Os nomes de sentimentos raramente o fazem ou de forma imprecisa. Os substantivos dão logo origem a imagens. Quererá esta diversa relação entre palavra e imagem significar coisas interessantes? Não é matéria deste texto.
Em 1973 iniciei uma recolha sistemática de fotografias reproduzidas nas revistas ou magazines internacionais mais importantes. Recolhi até há 15 anos cerca de 250.000 imagens que tenho arquivadas e agrupadas em 50 temas. Ao recolhê-las vi-as todas e voltei a ver muitas delas em circunstâncias diversas e ainda agora as volto a ver. Quando procuro um tipo de imagem qualquer acabo por encontrar e ver imagens muito diferentes que me criam ligações inesperadas. Há um número grande de imagens que recordo frequentemente, ou que me ocorrem em diversas circunstâncias. São de tipo, tema, formato, cor, etc. muito diversos. Porque é que há certo tipo de imagens que me ocorrem ou se mantêm mais presentes do que outras? Que importância têm nessa escolha inconsciente os fatores estético, sentimental, temático, social, erótico, religioso? Que papel têm na minha vida estas imagens que fazem parte integrante de mim como todas as imagens que retenho dos meus familiares vivos e mortos, amigos e conhecidos e dos locais onde vivi? Que papel tem na minha vida cognitiva, emocional, judicativa, artística? O meu mundo é também o meu arquivo. 
A fotografia veio criar uma situação cognitiva, vivencial, sentimental, instrumental, nova. Essa existência tem sido tratada desde os anos 60 com muita atenção por diversos autores. A consideração da fotografia como imagem é mais recente. Nunca o homem experimentou algo semelhante. O Homem desde há 180 anos vive ou pode viver com a presença efetiva de uma imaginação que transcende a sua condição social, cultural, física, económica, etc. Dantes era impedido e, mais do que isso, não era expectável. Como seria a pintura no Egito Antigo se existisse a fotografia?

















Quando iniciei o arquivo ele preenchia uma necessidade e um serviço que nada mais poderia satisfazer. Julguei até ao fim do século passado que ele era algo que se poderia continuar e que era raro. Agora já não contribuo para o seu crescimento, pois só a Stern e a Time não desapareceram. A função dos magazines está preenchida em parte pelas diversas plataformas da NET. No entanto acho o arquivo raro. Ambos estão muito longe de se aproximarem minimamente da infinita variedade de imagens que é a realidade que nos circunda. Por outro lado tenho a certeza que procurar e encontrar uma imagem no meu arquivo de folhas de papel, agrupadas por temas gerais e associadas ao acaso com outras imagens e num contexto plástico e estético particular, é muito rico. Um arquivo fotográfico seja constituído por qualquer tipo de imagens é sempre um insignificante conjunto de imagens face ao que o real nos proporciona constantemente. Mas da mesma forma que o tempo é finito, um minuto é metade de dois, também a possibilidade que tenho de aceder ao real e às suas imagens é limitadíssimo. No entanto uma simples imagem numa folha de papel de uma mulher que chora que eu possa rever as vezes e no tempo que quiser é uma possibilidade única e rica. E a vida é só feita de possibilidades que se aproveitam ou se perdem permanentemente.
As imagens fotográficas, em particular as que apresentam realidades culturais, isto é, não naturais, estão marcadas por um tempo. Como se podem ver passados cem anos? Hoje vemos as fotografias de 1920 e estranhamos as roupas, os costumes, os objetos, etc. Uma fotografia do mar é igual, ressalvada a nitidez (hoje diz-se resolução).  Como serão vistas, as fotografias que fazemos hoje, daqui por cem anos. As imagens que elas transportam são possuidoras de valores e de sentimentos que podem adquirir novos sentidos. Apesar de estranha, uma imagem de um casal beijando-se nos anos 20, rara imagem, tem o mesmo poder de expressão poética, sentimental e estética que até não terá uma imagem tirada hoje. No entanto, uma imagem de um casal nu beijando-se hoje, se vista daqui por cem anos que tipo de estranheza pode produzir? No meu arquivo já experimento essas realidades expressivas e comunicativas. As imagens de casais aos beijos são diferentes para além dos elementos culturais, através da pose, da posição do fotógrafo e da valorização de aspetos da composição da imagem- fator estético e da resolução. Tenho imagens antes da 2ª Guerra, da POST  e da VU, da vida quotidiana e eu sei e sinto que aquela gente é outra que não é a mesma de hoje. As alterações técnicas na fotografia vão fazer isso? Ou a única coisa que vai diferenciar são os fatores morais, psicológicos, ideológicos que informarão o fotógrafo e o observador daqui a cem anos? Os fatores estéticos são irrelevantes, pois só a luz conta e é constante. Heinrich Wolfflin o que teria a dizer sobre isto?
Os novos sistemas robotizados que apoiam o movimento autónomo de veículos usam câmaras de vídeo que registam tudo o que os envolve. Decidem depois em face da informação disponível e das necessidades de ação o que lhes interessa. Com a nossa mente como dispositivo computacional passa-se, julgo eu, o mesmo. Podemos experimentar, se nos tornarmos conscientes disso, como se passam as coisas à nossa volta em qualquer momento desde que estejamos acordados. A quantidade de informação recolhida é enorme e se a nossa mente tiver um programa mais complexo podemos ver mais coisas do que aquelas que julgávamos estar a ver.
Um arquivo de fotos como o que tenho é duma ínfima dimensão face ao real. Mas não é insignificante. Essas fotos são o resultado de muitas escolhas feitas por diversas pessoas em diferentes níveis e contextos e que permitiram que eu as possua. O fator decisivo foi que elas tinham um significado mais do que serem informação. O sistema robótico está interessado na informação e na comunicação – ser objetivo. O sistema humano está interessado em ser expressivo – ser subjetivo. Quando vemos o que está a nossa volta podemos também decidir, raramente o fazemos, sobre o que nos deve interessar pelo seu significado. Nessa altura devemos guardar o que vemos.

A descoberta da história, do conhecimento e da crítica da imagem.
Foi com Gombrich que a imagem começou a ter, para mim, um sentido diferente. Umberto Eco, no Trattato di semiotica generale , ajudou-me nesse sentido, como me ajudou nos artigos que publicou na Communications. Como já referi tinha feito nos anos 70 e 80 estudos sobre a fotografia em Portugal e por causa disso tive que aprofundar conhecimentos sobre a fotografia como meio de comunicação e expressão. E.H.Gombrich foi o grande estudioso e agrupador de diversas noções adotadas por diversos artistas e teóricos, e mal entendidas, acerca da perceção das imagens artísticas, as pictures. A sua investigação da imagem é só feita sobre obras de arte e nunca sobre fotografias, embora as use para explicitar conceitos. Como ele dizia a perceção que lhe interessava não era a da realidade mas a das pictures que representavam a realidade. Elas são um dos maiores patrimónios culturais do homem. A sua obra capital é Art and Illusion, onde, além de outras noções, introduziu a noção de ecologia das imagens que é uma forma de reconhecer que as imagens surgem e podem manter-se com êxito em nichos sociológicos e comunicativos próprios e não noutros. Acho que a sua investigação não tem tido seguidores à altura. Penso como autor de pictures que a sua complexidade na dimensão estética, que foi o campo de Gombrich, não é maior do que a dimensão temática, sentimental e simbólica que ele tratou vagamente. E isso é um enorme campo de investigação. Com Warburg, Gombrich, Panofsky, Wind, Belting e outros com orientação diferente, chegamos ao significado na imagem/obra procurando compreender como ele é incorporado sugerido, ou despoletado nela através das convenções, da tradição, do costume, da moral e da mitologia. Ou então admitimos que a imagem antes de ser obra tem uma potência que além de formal/estética é também simbólica, religiosa, sentimental. Por isso a obra de arte não tem que ser ilustração de um tema, de uma conceção ou imagem convencional, mas é ela, toda a coisa em si mesma, no seu aparecimento. Traz aquilo que se vai revelar como tema e significado, exemplar e típico. Isto é, a imagem espontaneamente é que cria significado e sentidos que a nossa consciência não conhecia e o nosso intelecto não tinha elaborado nem tinha experimentado mas que é levado a reconhecer e a afirmar. A obra não ilustra o significado, que a iconologia pode estabelecer, mas traz um significado que a iconologia tem que ser capaz de interpretar na relação dessa imagem com outras já existentes. 

















Convirá dizer que a palavra e o conceito imagem são muito recentes no domínio da arte e da comunicação. Como assinala David Freeberg, nos textos de história de arte, só a partir de 1980 deixou de se referir a obra como arte, e passou a ser referida como imagem. Os textos da mais diversa índole da teoria e história da arte tratam de realidade que designam como pinturas, desenhos, esculturas, como obras. Desde Alberti  e Vasari os textos sobre pintura e outras artes não usam o termo imagem. Como exemplos típicos, nos Diários, Delacroix, só usa o termo raramente como realidade mental e percetiva e Apollinaire nos Peintres cubists, também; Wolfflin nos Princípios fundamentais da História de Arte, também raramente a utiliza. Imagem é uma designação não utilizada a não ser como substantivo próprio, imagem da Virgem Maria, ou como realidade presente na mente, com origem no sonho ou na memória. Os trabalhos de Aby Warburg são de fato insólitos, invulgares e não poderiam ser muito considerados na época. A forma como lhe pegaram Panofsky, Gombrich, Wind, Baxandal e outros, seus continuadores, foi inovadora, iniciadora e categórica embora pouco desenvolvida. Edgar Wind, em especial, que foi um dos seus discípulos mais diletos e conhecedor da sua metodologia. Ele nos explica o método de utilizar as imagens de categorias diferentes para estudo de um movimento ou conjunto localizado de obras; a diferenciação proposta e utilizada entre iconografia e iconologia; o estudo das componentes gráficas e formais da imagem e o estudo dos significados decorrentes das figuras que compõe a imagem e das suas relações com a cultura. Esta estratégica na consideração e compreensão da obra de arte e das imagens em geral oponha-se à ideologia de Heinrich Wolfflin que, desde meados do séc. XIX, começou a dominar a história de arte e as teorias de arte que suportaram o modernismo na sua expressão mais formalista. Hoje assistimos a tentativas numa orientação completamente diferente em pegar no assunto ou matéria. Após a segunda guerra a semiótica descobriu a imagem e as teses de Humberto Eco, como já referi, foram para mim capitais e esclarecedoras. Para um empirista basta. A imagem, mesmo para Warburg, era um ícone mais do que essa realidade imaterial, virtual e também material que nos envolve por todo o lado. A imagem que hoje nos envolve não é um ícone. É uma reprodução infinita das infinitas possibilidades que as formas sujeitas aos efeitos da luz nos oferecem a qualquer hora do dia. A imagem tem neste caso uma noção mais vasta do que ser visual, pode ser auditiva, tátil, odorífera e saporífera. Mas hoje sabemos que a imagem é acima de tudo aquilo que está na mente de cada um e aí agregada a todas as informações dos sentidos, das emoções e sentimentos. O Mundo não é imagem, nem as imagens materiais que vemos na TV, no smartphone, na revista ou no museu, são iguais às imagens que temos na mente. A Gioconda que é um ícone, isto é, uma pintura que se encontra num museu e da qual se vêm imagens por todo o lado, tem um significado particular para uma criança e 10 anos e para cada um de nós nas mais variadas fases da sua vida. Pode ser desprezada e pode ser idolatrada. O que se idolatra é a imagem que na nossa mente constrói num quadro cognitivo, sentimental e simbólico.
A imagem como realidade material passou por estados muito diversos e sempre progressivos tecnicamente e em termos de intensidade ou grau mimético. Começou por ser original único até ao renascimento. Com Gutenberg e a impressão surgiu a gravura em metal e em madeira. No séc. XIX a fotografia vem revolucionar a própria noção de grau ou intensidade mimética. Nos finais do séc. XX, com as novas tecnologias de cor na fotografia e holografia e com a digitalização da imagem entramos num grau mais apurado de mimetização. Nestes últimos 150 anos alterou-se mais a natureza da imagem do que em toda a história humana. O que podemos esperar disto? Para já grande alegria e muita produção e depois muita desordem e novas ilusões interpretativas, comunicativas e expressivas.
Porque tanto se fala hoje de imagem e se tenta estudá-la? Esperamos aprender a utilizá-la, a vê-la e a compreendê-la melhor? Percecionamos a imagem móvel que apanhamos nos videoclips e nos filmes, ou numa sucessão de imagens fixas que todo o tipo de milhares de sites temáticos oferecem sempre em renovação ou atualização. A extraordinária experiência diária e permanente que usufruímos e partilhamos nas redes sociais, alargará a capacidade de armazenamento de dados e situações imagéticas, nunca antes experimentadas pelo ser humano e que o inconsciente irá disponibilizar segundo exigências e conveniências da saúde mental. Julgo eu.
As imagens artísticas, por serem únicas e materiais – objetos, têm uma capacidade de retenção mental que poderá ser diferente e de efeitos também característicos. Ver uma tela de Matisse ou de Vermeer ao perto, não é o mesmo que ver uma reprodução fotográfica mesmo na nossa mão, como qualquer outro objeto. Por outro lado  as pinturas ou gravuras com forte poder ou critério semântico e simbólico são sempre mais requerentes ao observador. O observador comum da TV, da Net procura simplesmente “o boneco”, a coisa, o cromo que são vulgarizações. A sua apreensão é instantânea e não tem efeito recoletor ou integrador-
O mito da caverna de Platão procura evidenciar que a ideia é mais importante que a imagem. Não se poderia esperar outra coisa pois a imagem é falsa para Platão. Podemos dizer que há boas e más ideias. E imagens também as há boas e más? Há imagens boas e imagens más. Mas serão os mesmos parâmetros, os mesmos vetores, os mesmos valores? O que veicula as ideias é a palavra e o que veicula a imagem é ela mesma. Não há discurso numa imagem mas pode fazer-se um discurso com imagens. O efeito que uma imagem ou um conjunto de imagens pode ter na aceitação e na compreensão da vida ou de um ato vital pode ser mais decisivo do que uma ideia ou vários conceitos? Há uma diferença substancial entre as imagens gráfica manuais, as fotográficas e as digitais sintéticas. Esta diferença é imediatamente reconhecida como fator de identificação de documento ou prova real. É uma coisa que existiu. Ou que nunca existiu. Mesmo nas imagens fotográficas abstratas isso se passa. Nas imagens digitais de síntese que se colocam na zona de fronteira entre estas duas realidades vamos ter de ver o que se vai passar. Mas esta diferenciação é como um indução imediata e inconsciente de contexto semiótico e também semântico embora mais equivoco.

A descoberta da imagem digital - o iPad
Sempre desenhei e pintei. Esses milhares de imagens concretas que passaram a ser imagens que retenho com vivacidades diferentes, que não têm a ver com a altura em que foram feitas mas, talvez, mais a ver com o que sou. São uma das partes mais importantes do meu arquivo mental. São imagens saídas de mim por recomposição original das imagens do que me envolve. Elas não são coincidentes com a imagem das obras em si mesmas. Essas imagens só os que as fazem as podem ter com essa qualidade particular.
Com o iPad iniciei o novo tipo de imagens feitas a partir de mim. Com esse aparelho simpático, dócil e acessível, podemos, melhor do que com outros, desenhar e pintar com a eletricidade, com os eletrões, usando os dedos da mão, não o teclado. Fazer imagens num suporte digital mas que tem o caráter duma imagem analógica e manual, não tecnológica ou não alienada das capacidades e limites da mão e do corpo. Isto é verdadeiramente novo. Tem poucos anos. Mas veio para ficar. Já o utilizo há dois anos para fazer o que faço com a caneta, com o pincel e as aguarelas e os óleos e acrílicos. As imagens não são da mesma natureza. Mas a minha relação com elas depois de feitas e no ato de as fazer é semelhante ou é diferente? Sinto que estou a fazer imagens e não objetos. Por isso não desisto nem resisto a fazer também as aguarelas. Mas no iPad é tudo mais rápido, mais fácil, com mais possibilidades operativas e transformadoras da imagem e do seu processo de aparecimento mas mais volátil, ou não presente ou “ausente”. A transferência de imagens do iPad para outros suportes ou o inverso é muito fácil e direto. Eu provoco efeitos na imagem que estou a desenvolver mas não sei bem se isso é real, se é um corpo, pois muitas vezes por mudança de escala não posso ver toda a imagem ao mesmo tempo nessa escala e com o grau de informação que tem. È mais virtual do que real. Quando são impressas as imagens as coisas mudam mas não muda essa condição do que é feito em luz, como num ecrã.

A descoberta das imagens na NET
Nesse infinito mar de imagens que hoje está à nossa disposição, que alguns entendem como apocalítico, e que uma civilização mercantilista, liberal e capitalista, coerentemente cultiva, tolera e usufrui, para além dos estados e das pátrias, haverá as nossas imagens pois só assim seremos. Há alguns anos o acesso vasto a imagens era fornecido pelos canais codificados e livres de TV. Hoje a NET oferece mais e no futuro estarão fundidos os meios e canais de acesso. A NET é agora o meu super-arquivo de imagens. São vários, aliás. JL Borges, contou-nos a história do rei que mandou fazer um mapa com o tamanho exato do terreno do seu reino. Constou-me que um jovem arquimilionário chinês encarregou uma equipa de engenheiros informáticos de criarem um navegador informático que vai permitir recolher e mostrar todas as imagens do que em todos os locais da China, dos vales, aos montes, das ruas a cada casa, se passa em cada segundo, de cada minuto, de cada dia. Nada lhes escapará e a nós também. Aqui vão algumas imagens que fiz de locais muito precisos e muito distantes a partir da gravação vídeo de imagens do percurso feito por alguém, e por fotografias que cada um faz em qualquer lugar. Espero poder vir a fazê-lo dentro de algum tempo de trilhos da floresta ou no deserto em dias diferentes do ano e em condições atmosféricas muito diversas. Oh, que mais poderemos desejar!!



















O que estará à nossa frente, ali adiante…imagens e pitures
A diferenciação entre image e picture, na língua inglesa, como já vimos, corresponde a uma realidade variada que para mim sempre foi muito evidente. Mas nunca soube que termos ou nomes utilizar em português. Eu sei e sinto que uma pintura que representa uma banana é algo diferente de uma fotografia de uma banana, é diferente da imagem de uma banana que vejo no filme publicitário da TV e é diferente da imagem da banana que vejo no mercado e das imagens da banana quando a descasco. A diferença mais evidente é entre pintura que representa a banana e todas as outras realidades. Não é só concetual é empírica. Isto é, não posso de fato dizer que a pintura de uma banana é uma imagem, mesmo que ela seja muito mimética da banana real. Eu não vivo a mesma realidade quando estou junto da banana e não espero que essa imagem me diga o mesmo que dirá uma fotografia de uma banana mesmo que seja mimeticamente muito evidente ou intensa. De fato na minha mente nunca ocupará o mesmo papel na vida mental uma imagem de uma pintura de uma banana. Todas as outras se poderão confundir. No fim todas a experiências não são mais do que imagens para a nossa mente.

Para que servirá conhecer melhor as imagens? A iconologia surge para estudar e daí fazer-nos compreender as imagens nesta fé ocidental do conhecimento. Mas a experiência profunda e criteriosa de imagens é provavelmente o que nos restará no futuro. As imagens são sempre uma realidade mental que resulta de um processamento de informação feito pelo cérebro a partir de dados genéticos e de dados do meio envolvente. Nesse meio envolvente há objetos, seres e fenómenos luminosos, físicos e químicos particulares, de apreensão visual muito complexa ou diferida, por ex., as nuvens ou água. A imagem é para mim, como já referi, uma realidade exclusivamente mental. As imagens como realidade exteriores a mim são pitures e fotos. Considero que os objetos com um só plano que contém informação icónica que não resulta da apropriação direta do real são pitures. A sua elaboração pode ser tecnicamente complexa ou simples mas é sempre singular e irrepetível.  As fotos são superfícies com informação icónica e atributos cromáticos e tonais que não possuem materialidade, se existe é elementar, e é produzida eletricamente ou quimicamente. São repetíveis sem fim. Esta divisão, como todas as divisões e definições, podem ou devem tornar a compreensão das coisas mais clara ou permitir o nosso acesso a mais complexidade. São por isso instrumentais, não classificam. As pitures, pela sua natureza operativa, garantem a circunstância expressiva que é conferida por uma autoria pessoal e intransmissível doutra maneira. Num universo indiferenciado e impessoal esse nicho produtivo deverá ganhar cada vez mais valor. Mas não se trata só da dimensão estética. Como hoje já acontece em várias zonas como a BD, o grafitismo, a estampagem pública e os cartoons a importância das dimensões comunicativas, simbólicas, politicas ou religiosas vão ter maior preponderância que o modernismo formalista e auto expressivo quis impor ao universo artístico. O estudo e a crítica dessas dimensões produtivas e da sua socialização devem ser os meios que permitirão um novo paradigma da historiografia iconológica e iconográfica que supere o paradigma neoclássico e moderno.

As fotos e as pitures diferem se consideradas em termos de simplicidade e complexidade. As fotos, como as imagens mentais, ou dos sonhos, são complexas, pois os elementos que as constituem, independentemente da quantidade não estão estruturadas como código aberto. São como a realidade que nunca sabemos mesmo o que é. Fazemos em cada momento uma leitura e o que a realidade nos dá para ser apreendido é muito equivoco e mesmo indecifrável. As pitures, isto é, as imagens elaboradas pelo homem podem ser complexas e simples. Um desenho de Steinberg ou uma pintura de Magrite ou um desenho de Escher ou uma serigrafia de Wharol são aprendidos num instante e a nossa memória visual nos apresenta sem dúvidas. Elas são, acima de tudo, comunicação concetual e algum gosto estético e têm um código fechado. As meninas de Velasquez, As batalhas de de Delacroix, ou uma pintura de Neo Rausch, ou mesmo de Rothko, dificilmente se fixam com precisão na nossa mente, retemos uma sensação, um sentimento, um gosto estético mas a expressão, a fruição e a compreensão exigem uma presença ou uma observação repetida. A comunicação é muito débil e nem sempre conseguimos saber bem do que tratam.





















 Ninguém sabe quais são as imagens que se formam na mente dos outros quando vemos em conjunto a mesma cena. Mas sabemos que aquilo que a mente retém perante uma tão grande quantidade de informação e estímulos é muito diversa. Comprova-o que nas várias fases do nosso crescimento, amadurecimento e envelhecimento vemos coisas que nunca tínhamos visto, embora estivessem sempre presentes. Vemos só o que nos diz respeito direto. As mulheres só vêm grávidas quando estão grávidas. Quem ensina a desenhar do natural também sabe como é muito diferente o que cada um é capaz de ver do mundo que o rodeia. A complexidade do mundo para se transformar numa imagem com sentido e utilidade para o sujeito depende menos da sua vontade do que das suas competências percetivas, concetuais, culturais e operativas. Nós vemos o que “conhecemos”, em sentido geral. O resto é ignorado. Por isso a cultura artística seja de que arte for é das atividades mais construtoras da personalidade ao fazer da vida uma experiência intensa e extrema.

Os nossos antepassados, os familiares desaparecidos são imagens, além de outras informações retidas na memória. Toda a nossa via passada é imagem. A nossa mente, acima de tudo, a parte inconsciente, é um super-arquivo de imagens. Ele está sempre a receber novas configurações que se articulam com as existentes, sejam reais ou virtuais. Não creio que na mente exista qualquer, ordem, estrutura, padrão que leve a que certas imagens se associem a outras preferencialmente. Creio que nos servimos delas porque nos são as mais necessárias á vida – porque é a necessidade o regulador mais eficaz –tal como as que nos surgem nos sonhos cumprindo também essa função com mistério, muitas vezes, outras com evidentes funções compensatórias, reguladoras, ajustadoras próprias da homeostase.


O significado duma imagem continuará a ser, como sempre foi, o fator de vida e de futuro. O que é o significado neste contexto? É a qualificação por socialização de uma imagem. No âmbito pessoal é a qualificação pela valorização dos aspetos que dão um sentido à existência que não se esgota em nós próprios. Inclui o amor, a misericórdia, a solidariedade, a fraternidade, a partilha, a comunhão, o sacrifício, a dedicação, além de outros valores sentimentais. O significado é aquilo que os outros põe no que fazemos. As fotos ou pitures que ficarão, as melhores, serão sempre aquelas que possuem valores e significados que valerá a pena proteger, cultivar, retomar. 
Enfim, com o avanço da robótica e da miniaturização já é possível, e cada vez será mais fácil, fazer imagens dentro do meu próprio corpo e fora dele, em condições inadmissíveis hoje. O voyeurismo que sempre nos atraiu vai perder interesse pois podemos fazer selfies de todos os atos íntimos onanistas ou partilhados. A realidade virtual, isto é, um mundo exclusivamente mental num universo imagético não existente, mas com o poder de fazer crer à mente que existe, e que afetará o corpo é, além da já antiga holografia, um aspeto do universo da imagem que desafia ainda mais a nossa consciência do que ela é. Já não é futuro um robot fazer fotos, nem pitures. Mas as fotos e as pitures feitas pelos humanos serão sempre outra coisa. O mundo ou a realidade nunca foi o que pensamos que devia ser. É caótico, conflitual, desordenado, incerto, inseguro e indeterminável. É por isso que a Arte em geral é importante, pois sendo inútil não pode aspirar a corrigi-lo mas a compreendê-lo e a desfrutá-lo. Alguns acham que a Arte é uma experiência sublime, que nos eleva espiritualmente. Eu fico satisfeito se poder ajudar-nos a viver este quadro que é enfim o que somos como seres e como é a vida. E que é muitas vezes difícil e sombrio. As imagens ao contrário das ideias que nos querem dominar, só nos querem iluminar. Assim saber conhecer, escolher e cultivar as imagens que são boas para nós é o nosso dever e necessidade. Encontrar o significado que elas podem veicular é uma necessidade e uma exigência que requer sabedoria, mais do que conhecimentos. Ele é um complexo com raiz no inconsciente profundo e na mente consciente e inconsciente de cada um. Se o soubermos fazer poderemos estar mais próximos de ter prazer, segurança, certeza, tranquilidade, sentimentos, entre muitos outros, que nos são vitais.

O método científico, a descoberta da eletricidade, a descoberta da fotografia e a descoberta da informática, surgidas na cultura moderna ocidental, criaram a maior transformação na história da vida humana, hoje partilhada por todos os povos. Nunca qualquer ideologia, ou religião, ou doutrina política fez qualquer coisa parecida. Ninguém sabe quais vão ser as consequências disso, como sempre acontece com as ações do homem e da natureza, de que o homem é parte totalmente integral. Surgem hipóteses de coisas medonhas e conhecemos já coisas maravilhosas. A imagem está no centro desta história e desta realidade. A socialização sempre foi feita pelas elites áulicas e religiosas que determinavam o que valia e tinha valor para sobreviver, ser cultivado e adorado. Andamos todos por aí a tentar encontrar um sucedâneo ou uma alternativa à desordem que uma estratégia anarquista pretende hegemonizar em grupúsculos no mundo do artístico desde o dadaísmo. Continuam, como sempre acontece nas mudanças, a haver ilhas de resistência com o paradigma tradicional, conservador, humanista, orgânico, empirista, como cada um quiser. Mas quem se atreve a dizer como vai ser com a curva de Gauss do conhecimento em aceleração vertical tão acentuada?! Neste universo em crise económica, não só nos países desenvolvidos, não se vislumbra como a produção de bens, os seus custos, o seu consumo e a distribuição da riqueza produzida se podem articular eficazmente. A imagem como bem transacionável enfrenta as mesmas incertezas ou possibilidades, mas como bem cultural é um “bem duradouro”.
Nós procuramos permanentemente, em tudo; procuramos o prazer para viver; procuramos o conhecimento para nos guiarmos; procuramos a originalidade para nos diferenciarmos; procuramos a autenticidade para estarmos perto da verdade. Há imagens que servem melhor que outras estas necessidades.
Não tenho uma visão do mundo e da vida que se possa dizer antrópica e que considere que há uma consciência profunda que nos rege e que tem o homem como modelo – embora alguns digam que Deus criou o homem à sua imagem – nem tenho uma visão do mundo e da vida que considere o acaso como o construtor de possibilidades. Mas parece haver algo que induz a que certas possibilidades não estatísticas tenham êxito e reforcem a marcha da vida. Não sou capaz de ter qualquer visão e não me sinto infeliz. Estou maravilhado com a incompreensão e com a possibilidade de a estar a viver e a sentir com a consciência curiosa, empenhada, tranquila e desinteressada.
JoaquimPintoVieira090716
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Por um incidente desapareceram muitas rubricas e imagens aqui mostradas.
Brevemente voltaremos a incluí-las.
Assim é a vida do blogger!!