Translate

pintovieiradesenho

pintovieiradesenho

segunda-feira, 29 de agosto de 2016


Este blog destina-se a divulgar 
as obras de artes plásticas 
que fui realizando desde 1965 
- mostradas em parte 
nas imagens das "páginas".  
Também noutras "páginas" 
se encontram textos diversos 
que entretanto fui produzindo.

Nesta página, "mensagens", aparecerão textos do momento, em secções próprias, imagens de obras recentes, notícias e, também, textos mais longos e curtos que tenham sido produzidos recentemente e que se justifique a sua divulgação no momento.

joaquimpintovieira1@hotmail.com

OS OUTROS BLOGS QUE EDITO SÃO 
http://drawingdesenhodibujo.blogspot.com
http://pintovieiraensinodesenho.blogspot.com
http://pintovieirapupila.blogspot.com
http://atalhadoagostinho.blogspot.com

BLOGS DE AMIGOS














Mensagens da quinzena


De 10 de SETEMBRO 
a 24 de SETEMBRO de 2018



Textos e obras disponíveis nesta página.
Nas outras páginas estão as imagens e textos aqui publicados e não publicados.




LISTA DE PUBLICAÇÕES RECENTES em AZUL



.  O OUTRO
 

 . ESQUÍROLAS DO DESENHO

. PINDUAS

. DESENHOS SEM PENSAR





.  O OUTRO

. DUAS FIGURAS TIPICAS falam sobre                
   a Exposição DESENHOS A5

.  AGUARELAS
 
 . NOVAS PINTURAS A ÓLEO

 .  PINDUAS/PINDOIS
    Pequenas pinturas em madeira

. DESENHOS NO iPad
  
. UMA IMAGEM E 
  QUASE MIL PALAVRAS 

. EXPOSIÇÃO FAUP . Projeto RISCOTUDO
  DESENHO setorna PINTURA 
  10 montagens de aguarelas e desenhos



 .............................................................................................................

O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio. O outros textos podem ser vistos na Página própria.




PINTORES DE TIGUA




















 

Júlio Toaquiza, 1945, pintor de bombos em pele de ovelha, dos planaltos andinos do Equador, é o protagonista principal da eclosão, numa aldeia da América do Sul, de uma “escola de pintura”. Olga Fisch, pintora e antropóloga húngara, nos finais dos anos 70, sugeriu a Toaquiza que fizesse as pinturas na pele mas presa a uma grade em madeira. Ele começou e não mais parou, como toda a sua família e demais famílias da aldeia de Tigua, a fazer pintura como arte. Olga com relações culturais e artísticas nas grandes cidades americanas transformou uma  atividade popular e restrita, numa zona remota, numa atividade económica decisiva para uma coletividade rural.  A pintura que mostro, e que comprei no Porto há 20 anos, é um bom exemplo. Tem  cerca de 20 centímetros  e poderão ter cerca um metro. A temática é sempre a paisagem local e as festas e celebrações religiosas e as atividade campestres. Começaram por ser pintadas a esmalte sintético e após os anos 90 passaram a ser em acrílico. Podem ser vistas no Youtube alguns exemplos. É sempre maravilhoso assistir a esta eclosão da imagem artística e a uma construção plástica tão verdadeira , espontânea  e não erudita. Através de superfícies planas bem limitadas e da criação de grupos rítmicos de figuras ou de outras formas se constrói a imagem. A cor é sempre pouco saturada, mas muito variada, com deslocamento para o mais claro e muitas vezes para gamas frias. Essas caraterísticas conferem uma leveza e graciosidade que verifico ser dominante nas pinturas que pude ver.






ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse  
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.

Muitas das anteriormente publicadas podem ser vistas na PÁGINA ESQUÍROLAS DO DESENHO, ou mais à frente.


Esquírola cento e oitenta e nove


Não seria compreensível que estes textos não abordassem a experiência dos Urbansketchers que há dias ocuparam, por centenas, as zonas centrais da Porto. Vieram alguns de longe e são fiéis adeptos de uma prática e experiência de desenho que poderá não ser artística. Pode ser, por ex., terapéutica.  Para mim, como para as dezenas de docentes de desenho da FAUP, desenhar a cidade e os seus equipamentos é um  programa de formação dentro do universo do desenho como representação. Representar a cidade como espaço e como caráter psicológico, topológico e simbólico, como pretexto para o exercício das técnicas e modalidades concetuais que o desenho comporta e permite. Ao contrário dos urbansketchers, em número elevado, os alunos não desenhavam por prazer, mas por obrigação.  E quase tudo o que desenhavam era imposto. Chama-se a isso uma Disciplina de Desenho. Há objetivos formativos, há tempos, há espaços didáticos, há avaliações e classificações. No processo dos urbansketchers não há nada disso. A  minha experiência de 30 anos a orientar a disciplina, e os alunos no concreto exercício dos desenhos, revela como são diferentes as imagens produzidas nos dois casos, em particular no que se considera serem as imagens da cidade. O que é a Praça da Ribeira, por ex.? Em várias anos desenharam a Praça cerca de 200 alunos por ano. As imagens muito condicionadas pelo docente apresentavam muito mais diversidade da sua conceção do que aquelas que podemos ver nos vários sites da Net sobre o evento, embora saibamos que aí não se vê tudo. Não me refiro aos aspetos plásticos do desenho, que são também muito diversos e diferenciados. Refiro-me ao que se acha que há para ver, o que está ali, e como está ali. A impressáo que me fica, pois eu já participei há anos numa iniciativa local da Gesto, e que já então se me revelou, é que há uma dominante do convencionalismo sobre a descoberta original da realidade. Ou a inexistência de um pathos, de uma empatia ou de uma poética do lugar. Mas também vontades do ver mais do que abandonos do ver. O ver o que nunca ninguém vê, mais do que ver outra vez o que todos vêm, embora muitos não sabem que o fazem e como fazem. Será que isso se ensina, se pode ensinar?




PINDUAS/PINDOIS   Pinturas em duas faces e dois tempos


Projeto de pintura em pequena dimensão, em objetos ou superfícies anexas ou contíguas. Como as superfícies ou planos da pintura e da imagem são normalmente opostas quando de vê uma delas não se vê a outra. As superfícies podem ser em número superior e dar origem a situações de desenvolvimento temático ou semântico mais complexo. A exploração da condicionante temporal da apreensão e observação das imagens é o vetor mais importante do projeto pois deve permitir criar inusitadas situações expressivas.

Os objetos são em madeira de diversas árvores e as superfícies são preparadas com colas, tecidos e papeis.  São pintadas em acrílico, esmalte sintético e óleo de água. Também se utilizam pigmentos diversos, purpurinas e folha de ouro.

As dimensões e formatos variam com o tipo de cortes nos troncos das árvores.
O clip presente nas imagens dá a sua dimensão.




 conjunto de 2 novas peças.





































DESENHOS SEM PENSAR
mostrados e apresentados sistemáticamente no blog drawingdibujodesenho.
Aqui alguns desenhos recentes entre os realizados diariamente.


 
06.09.18




















24.08.18



















09.18.18



















04.07.18




















17.06.18


































ESQUÍROLAS 
DO DESENHO

São pequenas partículas que saltam desse  
osso enorme e difuso que se pode chamar de, Desenho;
e daquilo que o envolve. Surgem do nada e a propósito de tudo.

Muitas das anteriormente publicadas podem ser vistas na PÁGINA ESQUÍROLAS DO DESENHO, ou mais à frente.


Esquírola cento e oitenta e oito


Todos sabemos como Duchamp, há cem anos, teve a ideia genial e cínica de considerar que aquilo que assim se nomeia, como tal, é arte. Cultor da filosofia abstrusa e exata contra a filosofia fácil e óbvia, como diria Hume, mas que muito devem uma à outra, ele abriu a caixa de pandora, donde se mistura, espalhado à nossa volta, tudo o que pode ser bom e mau. Ele amava o xadrez e detestava a pintura. Os pintores do seu tempo, em particular. Ele amava e cultivava o xadrez por ser difícil.  Ele odiava a pintura do seu tempo por ser fácil. E nós podemos pensar assim? Dar valor ao que é difícil e menosprezar o que é facil?  Não confundimos que difícil é o complicado e o fácil o simples. Mas é verdade que a pintura que por aí se vê desde os finais do séc. XIX é mais fácil do que difícil. Os corifeus do posmodernismo ou do neoliberalismo instalado, usam e abusam dessa filosofia metafísica que desdenha da vracionalização das impressões e perceções e aposta na razão do pensamento que a si se faz.  Aposta na facilidade que é um direito de todos serem livres, de fazerem tudo o que lhes dá na gana, porque só no seu intímo está a escala do valor e do dificil/fácil, menos jogar xadrês, como o mestre. Sendo que um jogo nunca é arte nem esta um jogo. E porque é que génios como Duchamp, e muitos outros génios, como muitos de nós, dão valor ao difícil? Porque dá gozo. Porque o difícil esconde. Porque o difícil promete e o caminho para a ele aceder tanto depende da filosofia fácil como da filosofia abstrusa. Depende tanto da racionalidade assente na perceção mais fina e forte como na imprecisa e delicada intuição. A ambas se chega não porque se queira, mas se calhar, porque elas se nos apresenta estando nós à sua espera, sem a esperar.  Quase tudo o resto são facilidades pueris que durarão o sopro leve da nova manhã.


Esquírola cento e oitenta e sete


Pergunto-me se os artistas que desenhavam e pintavam em Florença, no Séc. XV, tinham consciência de que estavam a realizar obras de muito valor ou se faziam só o que tinham a fazer sem essa consciência. Pergunto-me se hoje os artistas que povoam os CACs têm uma consciência semelhante de valor ou se fazem só o que têm que fazer sem essa consciência?   Em qualquer caso para eles é indiferente. O que conta é a vidinha, isto é, a minha. Valor chamo eu ao depósito na obra de qualificações, relações ou dependências singulares, inéditas e coerentes que depois de desaparecidos os que as fizeram e os seus amigos, passam a valer mais. Ser mais desejadas pelos outros como indispensáveis. A minha vidinha são os outros. Ter uma consciência mesmo relativa dessa condição nunca nos pode impedir ou impor a realização da obra. Mas há a cultura do local e tempo que sempre envolve a formação desse valor inconsciente e conscientemente. Este tempo, mais que o lugar, desilude-me há muito tempo. Há demasiado, para eu sentir que não estarei a viver uma experiência cultural semelhante aos Florentinos. É este um tempo de decadência em que não se vê futuro, não se compreende o presente, não se ama e se interessa pelo passado, e não se odeia, tolera-se, por ser um mal menor.  A ideologia neoliberal encontrou nas artes plásticas o campo e a matéria para se desenvolver com a maior facilidade. A única coisa que conta é o artista e a sua vidinha. Livre de tudo. Não sei quantos de nós o sentem como eu ou como outros. Mas haverá no ar da cidade, das instituições e das nossas vidas quotidianas, sinais que nos devem levar a acreditar. Acreditam?!




PINDUAS/PINDOIS   Pinturas em duas faces e dois tempos


Projeto de pintura em pequena dimensão, em objetos ou superfícies anexas ou contíguas. Como as superfícies ou planos da pintura e da imagem são normalmente opostas quando de vê uma delas não se vê a outra. As superfícies podem ser em número superior e dar origem a situações de desenvolvimento temático ou semântico mais complexo. A exploração da condicionante temporal da apreensão e observação das imagens é o vetor mais importante do projeto pois deve permitir criar inusitadas situações expressivas.

Os objetos são em madeira de diversas árvores e as superfícies são preparadas com colas, tecidos e papeis.  São pintadas em acrílico, esmalte sintético e óleo de água. Também se utilizam pigmentos diversos, purpurinas e folha de ouro.

As dimensões e formatos variam com o tipo de cortes nos troncos das árvores.
O clip presente nas imagens dá a sua dimensão.




 conjunto de 3 novas peças.


























































....................................................................................



















































.............................................................................................................



O OUTRO
  
Nesta série de pequenas crónicas pretendo verter o que me vai na mente sobre experiências com as obras de alguns contemporâneos, conterrâneos e outros. Serei breve mas intenso quanto possa. É só um pequeno contributo para evitar o silêncio. O outros textos podem ser vistos na Página própria.

  

KATE KOLWITZ




















KATHE KOLLWITZ, 1867-1945, Alemanha, foi uma extraordinária desenhadora  num dos períodos mais conturbados da vida política e artística da Europa. Nasce e forma-se com o advento do modernismo e morre com o fim da 2ª Guerra Mundial, dois factos marcantes da história humana. Além de desenhos em diversos suportes fez muita gravura em madeira, metal e litografia.  A sua obra por esse fato está muito disseminada pelo mundo. E em Portugal? A gravura em água forte e água tinta, é de 1910.  A morte, a mãe e a filha. No plano estético a obra de Kollwitz é muito influenciada pelo expressionismo alemão que começa, não só na pintura,  na Alemanha. Em termos plásticos é uma obra de mancha. A linha é quase inexistente ou então é suporte elementar. Goya adoraria. A mancha  a carvão ou crayon conté é muito rica de tonalidades e vai até a saturação do preto.  Nas gravuras diversas assim também se passa. A expressão é muito direta e espontânea, segura e subtil ao mesmo tempo. Antes dos anos 20 a sua obra é dominada em termos temáticos, simbólicos e sentimentais pela morte e também pelo sofrimento que ela experimenta na fome das classes trabalhadoras de Berlim, onde vivia. A morte do filho, da mãe, do pai. Também faz inúmeros auto-retratos o que confirma esse caráter muito psicológico emotivo afetivo e pessoal e intenso da sua poética. A sua poética é o seu ser e corpo.  A partir dos anos 20 a sua obra é muito marcado pela aproximação aos partidos de esquerda e mesmo á União Soviética. É perseguida pelos nazis mas não era judia. Sofreu, mas morreu em casa. Sempre foi para mim um caso à parte na arte destes últimos 150 anos. Livre dos destinos dos modernistas – do formalismo mas também do surrealismo – de quem a sua obra por vezes, o que é natural, revela influências formais que a tradição oitocentista académica não permitia é, acima de tudo um vigoroso e raro grito rouco pela vida diante da morte.



MANUEL DIAS




















“O Ardina” é uma estátua sobre a figura popular, do século passado, que vivia a vender jornais na via pública. No centro da cidade do Porto o Escultor Manuel Dias recriou essa figura com êxito. Com grande êxito! Manuel Dias, 1945- 2018, há dias falecido, foi meu colega na Soares dos Reis, desde os 13 anos e depois nas Belas-Artes, até 1966, ano em que emigrou para as Europas. Voltou após o 25 de Abril e não deixou obra relevante na escultura, que eu saiba, sendo cultor de uma linha experimental, da qual conheço poucas obras, associada aos materiais elementares e suas associações num contexto formalista ou abstrato. Esta obra é completamente estranha a esse percurso e nada há a apontar. Aqui o que nos traz é a força e a fraqueza da obra de arte pública que hoje é do maior encanto e prestígio para o jornalismo do sistema, e o vórtice noticioso e opinativo das redes sociais.  O “ardina” é uma obra naturalista do ano 2000. Isto não é mais estranho do que as obras concetuais que hoje se vêm por aí iguais a outras de 1960. Hoje o tempo e a história tem uma organização que é diferente. É uma representação escultórica com mimetismo gestual e de atitude, dessa figura marginal, esperta e de vidas várias, que a cidade pobre cria. E nós achamos encantadora. Os milhares de turistas que junto a ela se deixam fotografar não a vêm como obra de arte, mas como ícone ou cromo. Nunca foram a um museu nem irão, digo eu para me exprimir. A arte pública hoje é moda desde os grafites, as construções e desconstruções, quase sempre figuras da denotação. Tornam cada vez mais evidente como o lugar da arte é o Museu. Se queremos descobrir e aprofundar a nossa relação, vivência e experiência pessoal com a maior complexidade da mente, dos sentimentos e da delicadeza das emoções, só aí.





WYETH

















N.C. WYETH, 1882-1945, Andrew  WYETH, 1914-2009, Jamie  WYETH, 1946, três gerações de pintores da Pensilvânia e do Maine, Estados onde viveram. Andrew foi o mais apreciado e é dele a aguarela que se mostra, Spool bed, 55x75 cm, 1947. As suas obras apresentam alguns elementos comuns, além de um culto do realismo, muito presente na pintura americana desde sempre, até hoje.  Em N.C., um serviço ilustrativo dos mitos americanos e uma influência romântica, e em Jamie uma tentativa de se aproximar da realidade contemporânea sem uma poética evidente. É em Andrew que se atinge uma qualidade que é clareza, força expressiva, poética e temática. Eles foram acusados pela crítica Nova Yorquina, nos anos 60, de serem ilustradores e ignorarem o modernismo, em especial Picasso. Em 1947, como nos diz Claude Roy, Picasso considerava que o desenho era um processo iniciado na realidade na sua observação e concluído por uma purificação formal dos elementos plásticos que continham em si a essência do gesto artístico plástico. Em dois traços se atingia aquilo que nada podia atingir.  Andrew que é o pintor do séc. XX que dedica toda vida a pintar a solidão do ser individual e a solidão da paisagem e dos lugares em que vivia, não poderia perceber a que se referia Picasso e este deveria achar uma seca criativa esta aguarela. Esta aguarela é uma verdadeira afirmação modernista quanto ao tema. Lugares sem valor e esquecidos. Os elementos plásticos servem a representação da imagem recolhida do real e fazem-no numa delicada exploração de tonalidades expressivas que revelam a ideia de que a pintura é antes de mais uma superfície em que os tons e as cores se jogam entre si. Mas, essencialmente fazem-no ao serviço de uma intencionalidade que não está no quadro nem na pintura mas se serve dela para se nos revelar. Picasso terá compreendido isso? É aqui que continuará a encontrar-se a grande disputa ideológica num tempo em que se diz que a ideologia morreu.


COURBET



















Jean Gustave Courbet, 1819-1877, foi o leader do realismo em pintura, tal como se cultivou na literatura em França e um pouco por toda a Europa. O realismo era para Courbet, acima de tudo, pintar o que se via. Se visse um anjo pintava-o. Mas o realismo esteve sempre, como Courbet, ligado à revolução social. Courbet foi perseguido politicamente e morreu na Suiça.  Pintar o que se vê e o que se vive já o tinham feito os flamengos do séc. XVII, e os venezianos do séc. XVIII. O realismo é a linha de combate artístico contra o classissismo e a pintura histórica. O quadro “o encontro”, ou “ bom jour mr. Courbet”, 1854, foi apresentado no Salão de 1855 e causou grande alarido. Estamos atrás de Courbet e à sua frente ele tem Alfred Bruyas, colecionador de arte que o tinha convidado para o visitar em Montplier. O que é a realidade para Courbet? O espaço da cena é o campo e a paisagem é semelhante às paisagens convencionais da pintura em geral. Meio céu; meio terra. O senhor, o interlocutor, elegante, cordato é acompanhado por um ajudante submisso. Courbet é orgulhoso de si, modesto mas algo arrogante e tem um enorme bordão na mão e às costas o atelier. O cão olha para ele. Ao longe afasta-se a carruagem. Esta cena não a viu ele que dizia que se devia pintar o que se via.
Ele quer dar uns laivos da sociedade francesa a meio do séc. XIX. Porque escolheu um descampado atípico, porque não se encontraram na cidade, numa sala, num jardim? Courbet lança a sua sombra no chão mas os outros dois não, embora estejam quase totalmente expostos ao sol que no chão deixa a marca de uma árvore que não os cobre. Porque foi incongruente em termos realistas. Porque não pintou o que se veria. Ele não era um naturalista. Os temas e as figuras reais era suporte de um discurso ideológico, de uma intencionalidade de denúncia, provocação, que vão ser apanágio de algum  modernismo. A poética a expressão de sentimentos e de conceitos mais complexos ou profundos não eram o seu interesse. Hoje como é ser realista?




 HOLBEIN






















Hans Hobein o Jovem, 1497-1543, Augsburg, é hoje muito conhecido pelos desenhos de retratos de nobres britânicos do séc. XVI. Fez grande parte da sua obra e vida em Londres, onde morreu. Mas nessa altura a sua obra mais celebrada era a Dança da Morte. É uma edição de 41 desenhos sobre temas bíblicos que tratam da morte. A edição em Xilogravuras, realizadas por Hans Lutzelburger, tem as páginas com o aspeto da imagem presente. Um excerto biblico, a imagem e uma quadra motralista alusiva.  É uma sátira aos poderosos, aos novos, aos velhos, aos fortes e fracos. É uma provocação das mentes perante essa imperativa eventualidade muito mais presente nesse tempo que hoje. O medo da morte é uma condição da mente humana que não quer deixar uma vida que julga ter sido criada para seu belo prazer ou que sofrendo nela, como a enorme maioria, a receia, como lugar de castigo, punição e sempre incerto. Esso medo, ou tristeza, ou desilusão mantém -se intocável hoje mas poucos acreditam nos malefícios posteriores a essa morte, mas também na hipótese de venturas. As gravuras, não sabemos se os desenhos, têm 5x6 cm.  As situações céncias são muito diversas. Cenas no exterior com paisagem, como a presente, ou cenas interiores. Duas, três, raramente mais, figuras criam a cena. O desenho é linear, como convinha à técnica nascente de reprodução e edição, é muito detalhado para a dimensão, nas texturas e nos elementos iconográficos como a ampulheta – o tempo – sempre presente, como era culto do desenho renascentista e barroco. Nada vazio. A presença do esqueleto é a invariante em todas elas. Ele, a morte em corpo, vem buscar o humano em causa para o seu destino. Hoje não temos a morte presente, embora as notícias sobre diversas acontecimentos trágicos e doenças terríveis sejam duma fortíssima presença no nosso universo comunicacional. Mas ninguém acha que a morte o vem buscar. Não acharão?


BOSCH





















Jerónimo Bosch, 1450-1516, Holanda, é um dos mais singulares pintores da história da pintura universal. Dele, só se conhecem cerca de 20 pinturas e alguns desenhos. A imagem em cima é uma 25ª parte/porção do painel central do tríptico, com 190x170 cm, que se pode ver no Prado, o Jardim das Delicias. Segundo Gombrich, Bosch é o primeiro grande pintor que ainda dentro do universo imaginário medieval introduz as grandes noções da modernidade renascentista. Uma delas é que o tema embora tradicional – Biblia judaico-cristã –, toda a poética, e uma parte do espírito reside na conceção pessoal do autor. É obra de autor mais do que ilustração do tema. A sujeição ao princÍpio Horaciano de docere e delectare, intruír e distrair, é clara. Obra encomendada pelos senhores de Nassau-Breda de Bruxelas teria sido prenda de casamento. Podemos imaginar o fascínio e a atração que terá provocado em todos os membros da família. Uma atração semelhante à nossa TV! Ver esta obra exige muitas horas e muitas mais para rever cenas atraentes. Não há narrativa, ação, pois não há antes e depois. É a representação de um momento imaginário de uma realidade imaginária, mas com uma enorme carga simbólica e moral. A porção que mostramos, como quase todas as outras, é sobre o extraordinário. Tudo é invulgar, anómalo, estranho e incoerente. O tema geral do painel é a Humanidade antes do dilúvio. Um Paraíso. Como se pode ver nalguns dos humanos, a vida seria calma e tranquila mas um pouco aborrecida. Alguém sonharia mesmo num dilúvio. Mas aí se pode ver a relação amorosa de um branco e de uma preta, de como os pássaros eram tão grandes que poderiam comer os humanos, mas não o faziam.  É o domínio da fantasia que antes era só a fantasia religiosa canónica e passou a ser a fantasia de cada um. 





DYAS





















Dyas, ou Júlio Resende, 1917-2011, deixou-nos uma série de desenhos de humor ou “comics”.  Estão expostos no LUGAR DO DESENHO . Não é habitual os pintores terem na sua carteira obras deste âmbito que é cultivado por personalidadess artísticas com um perfil particular. Júlio Resende tem uma carreira de desenhador de humor ou anedotas que fez nos jornais da cidade do Porto nos anos 40 de reconhecido mérito. Eu, ainda jovem, aguardava, o calendário do Matulinho, no Primeiro de Janeiro.  Mas o que este outro me exige é que eu comprenda, perceba e integre essa particular atividade da mente, do espírito, que usando meios plásticos e meio ortográficos regista imagens de momentos do real ou ideias sobre o real mental ou o real objetual. Os meios gráficos são quase sempre muito elementares e esquematizantes. Anunciam só a forma, a figura ou o figurante. A escrita é curta, seca e não descritiva, mas insinuante, metafórica ou provocatória.  Enquanto que numa pintura os fatores estéticos e simbólicos exigem demorada apreciação para se revelarem em todas as suas possibilidades, nos desenhos cómicos o que há para ver e compreender é instantâneo, ou ele falha. A mente que trabalha este processo, que encontra a necessidade e o prazer em o concretizar, sempre foi para mim estranha ou enigmática, embora eu por vezes encontre no real esse ridículo, absurdo, jucoso, miserável, infeliz…, que são a base da comicidade que tanto apreciamos e necessitamos. Como em Resende se escondia, durante tantos períodos de trabalho empenhado numa estética e numa simbólica da pintura, esse bicho sempre sedento de gozar com o mal e o disparate alheio? E na exposição algumas vezes, além de sorrir, me ri. Ele escreveu um pequeno texto sobre esse outro menino em si, mas não me chegou…!










DESENHOS no iPad
Nova série de desenhos há tempos experimentada e em desenvolvimento pois dá algum gozo.
Tem um Tema. Um Medo


















....................................................................................












                   







..................................................... 























---------------------------------------------------------------------------------------









DUAS FIGURAS TÍPICAS falam sobre 

a Exposição DESENHOS A5

na Galeria EXTÉRIL. 

Porto.Março de 2018

19ª CONVERSA


1.1 –  Escaleno, fui há dias convidado para participar na exposição, Desenhos em A5, na Galeria Extéril, ali no Bonjardim, 1176, no Porto, a já célebre galeria que é muito maior do que a arrecadação-oficina em que se encontra instalada. É uma aparente contradição se só pensarmos que as coisas são só o que vemos e experimentamos e não aquilo que pensamos e sentimos. Como é do nosso gosto, convido-te a entrar neste jogo de reflexão e crítica que é o que nos mantém em pé. Somos, eu sei, dos que pensam que o mind/body problem, não o é, mas que a existência humana é um problema constante para a mente e para o corpo que a criou, ou é o reconhecimento de que essa existência é um mar de problemas que a consciência nos exige ponderação, escolha e participação. A obra do Zé Manel, ou Teixeira Barbosa, tem 20 anos, ou por aí, e quem quiser conhecê-la melhor e ao seu pensamento tático e estratégico, nesse mundo da Alternativa Artística, deve procurar a revista mola, organizada pela Vera Carmo e o João Ricardo Moreira, que inclui uma entrevista com o Zé Manel. A revista encontra-se nos locais alternativos.



2.1 – Já passei por lá porque soube através do site, mas não fui convidado, nem isso me perturba ou diminui. Estou contigo nesta desbunda sobre a existência mental, que como sabemos não é muito cultivada entre nós. A crítica e a reflexão são considerados desconfortáveis, chatos e pouco convenientes e mesmo prejudiciais para o comum dos artistas nascentes ou finantes. Oh Ruskin, como te ignoram e desprezam! Deixemo-nos de lérias. Equilátero, não conhecia a Galeria mas foi uma boa experiência. Tanto por tão pouco! A vida também é assim, se for vivida intensamente e com a máxima entrega e consciência (crítica). O Desenho também o é – tanto com tão pouco. Como já falamos noutras conversas é aquela atividade, ação ou pensamento, como um rio. Nas nascentes, lá no alto puro, como o rio vai fazendo o seu percurso com poucos meios e serpenteando, procurando os melhores terrenos, por vezes difíceis e com períodos de seca,  acaba por desaguar no estuário marítimo, para subir depois às nuvens, e de novo e voltar a correr. A Extéril pertence às suas margens. Serralves é o estuário, está longe desse vital e fascinante nascer e percorrer. O que para viver não nos serve de muito, mas é politicamente rentável. Nestes ancoradouros ou pesqueiros, são como os locais nos rios, onde se encosta ou se colhe na corrente sem fim, o peixe que nos calha.  Isto é aquela matéria ou problema central: a política cultural, que havemos um dia de pegar pelo rabo. Equilátero, avancemos então por esta pescaria, embora a nossa experiência nos diga que as águas andam turvas e o peixe fugidio. Será que isto é conversa de velhos?

1.2 – Já cerca de 200 artistas expuseram na Galeria e esta exposição resulta do convite a número idêntico. Não sei se seriam os artistas que aí expuseram, o que é irrelevante. Na exposição há cerca de 80 desenhos o que mesmo no formato exigido não preenche as vastas 3 paredes com 2 metros quadrados cada. Faltaram alguns dos convidados. Escaleno, gostei de ver tanta gente num espaço apertado da oficina, que estava cheia, dentro do qual estava  a galeria. Isto é uma formulação ilógica ou quântica. Isto é uma impossibilidade só aparente pois há sempre formas de se arranjarem as coisas. As pessoas estavam contentes por se verem e penso por pensarem que todos faziam desenhos – aqueles que fazem desenhos – a confraria. Mas terão visto os desenhos? Ou só viram o seu? Não era fácil. Decerto voltaram! Este projeto expositivo tem mais de perfomance cultural do que de serviço artístico. Quer dizer alargamos todos a nossa consciência do que é hoje desenhar pelo fato de termos confrontado obras diversas com origens em sensibilidades, conceitos e interesses diferentes? Quase se poderá dizer que em cada autor existe um universo artístico e que a nossa possibilidade de o partilhar é muito reduzida e exige para o ser mesmo, muita dedicação e atenção.

2.2 – Vi a exposição sozinho e pude ver com mais atenção cada obra. Não é fácil, mesmo para quem como eu viu tantas centenas de desenhos por dia, como docente. Vi alguns melhor, outros mal e outros mal vi. Porque aí na escola estamos a ver as imagens de um contexto preciso e idêntico, e nestes casos estamos a ver a total divergência e variância de todos os fatores do desenho. Por isso “ as coletivas" são mais feiras do que lugar … Hoje as artes plásticas são o motivo para uma “movida”; andar pelos locais com marca, ver; ser visto. Também se podem ver obras. Mas não é importante. Sempre achei que se entrar no MSR é para ver um quadro do Pousão durante 15 minutos e sair em seguida. Mas no fim são experiências e vida. Como é do nosso gosto e intenção refletir, interrogar e criticar, com que fazemos o existir, além do infinito gosto do fazer. Gostamos do que é, mais do que o vai ser. Estamos por isso longe da prática hoje comum de se escrever sobre desenho, pintura, imagem e arte, só para falar das coisas que andam nas modas da cabeça. Em vez de falar/escrever mesmo sobre as obras em si, sem rodeios. Por outro lado, como a crítica desapareceu escreve-se de forma laudatória, explicativa, didática, curatorial para proteger. Sabes que curador para o dicionário é aquele que cuida, administra orfãos e menores. Mas deixemos estas graças! Vamos por isso questionar a exposição, o desenho mais do que os desenhos em particular o que seria muito duro e muito provavelmente desigual. Quais são os problemas que encontramos no desenho ali e hoje? Que apostas se fazem em alastrar o campo expressivo, poético e simbólico do desenho?  Há amostras de projetos de campos expressivos e concetuais? Vemos enunciadas tendências ou vertentes que aprofundem os vales desconhecidos, profundos e misteriosos do desenho?  Equilátero, o desenho é misterioso ou é essa coisa que se está mesmo a ver o que é, e como é?  Vejo a rua, vejo a face, e pronto. O que sair é desenho ou um desenho. Vejo muito disso por aí, gente a desenhar na rua, como todos desenham, sem que surja o olhar novo e surpreendente. Há diferença entre desenho e um desenho ?


1.3 –Quantos artistas desenhadores voltaram lá para rever desenhos? Esta é sempre a maior manifestação, ou exercício, ou prática cultural no desenho, como o é na música que gostamos. Ouvimos o mesmo trecho muitas vezes até cansar. Lemos o poema várias vezes e decoramos Porque não é assim com o desenho?  Estou confuso Escaleno. Mas não estou só. Os líderes políticos, religiosos, inteletuais, artísticos e desportivos estão todos. Ficamos confusos quando trocamos o desejo em se ser com o se quer ser. A mente humana parece ser atraída por esse abismo para a frustração. A humildade que é o culto do nada ter, nada ser, nada querer, nada aspirar é o outro caminho. Como pode agir bem, mesmo a desenhar quem está confuso? Um desenho é um problema como o é qualquer momento da vida. Como o resolvem os animais? Escutam, olham e escolhem um caminho. Os nossos problemas são mais da mente do que do corpo. Devermos estar mais interessados em compreender  e esclarecer um problema do que em resolvê-lo. Depois de resolvido vai dar origem a outro. Então devemos viver os problemas como se fossem parte de nós que exigem ser vividos  e esclarecidos. Soa a metafísica e filosofia barata?!  Mas quando desenhamos, e fazê-lo é uma graça da mente, estamos a afastar-nos ou a aproximar-nos da humildade ou da vaidade ou orgulho. Pode isto ser orientado? Há algum método? Não sei. Duvido. Sei que está só em mim o poder de avançar ao lado dos outros.

2.3 –  Nas pedras da praia os mexilhões juntam-se uns aos outros para sobreviver. Ao lado, as lapas vivem isoladas. Nós, como vivemos soltos como os camarões, temos que estabelecer ligações. A cultura é a principal, por sermos humanos. A cultura não é saber quem foi Giotto. É ter dentro de si e viver com as imagens das pinturas de Giotto. É ter ido à exposição e ter dentro de si algumas das imagens que lá estavam. Também é fazer o que estamos a fazer agora, que é prolongar essa vivência. Somos solitários irremediavelmente mas não queremos ou podemos ser lapas. Há duzentos anos uma exposição deste tipo teria os desenhos enquadrados por poucos temas: retrato, figura nu, figuras da vida popular, paisagens pitorescas, vistas de cidades, naturezas mortas, e alguns desenhos do imaginário religioso e mitológico. Talvez algumas primeiras caricaturas. Nesta exposição que mostra uma ínfima parte da enorme variedade de tipologias de desenho, mesmo assim ficamos algo desorientados. Há duzentos anos também se acreditava no progresso em Arte e num Sentido. Desde a Idade Média, depois do escurecimento Helenístico, a partir do Renascimento que o retoma, vinha-se avançando. A filosofia alemã escolástica e depois o formalismo concetual francês fez-nos crer que o abstraccionismo era o culminar desse destino. Hoje sabemos que era tudo treta. Sabemos que a arte essa atracção do homem para encontrar o seu Sentido não tem sentido em sim mesma, como não o tem a vida. Mas o nosso maior desejo, Equilátero, como o partilhamos e vivemos, um problema  existe não para se encontrar solução, mas para se viver a sua complexidade, como fazia Shakespeare na sua dramaturgia. Aqui estão os males e as grandezas do homem e como as podemos viver. O que aconteceu foi que, após a Revolução Francesa e depois com a Descolonização e a Globalização, o mundo deixou de ser culturalmente centrado. Hoje todos em todos os locais se incorporam, partilham, fundem e afirmam diferenças duma forma não centrada mas aberta ou em rede, como agora se diz. Não fiquei atraído por nenhuma imagem. Não há nenhum “golo de pontapédebicicleta”, nem de “calcanhar”.  Muitas intenções, mas pouca afirmação disciplinar. Parece que as pessoas pensam não ser conveniente mostrar o que têm de melhor. Uma atitude defensiva em tempos sem esperança?




1.4 –  Da exposição retiro, sem novidade mas como confirmação ou reencontro, algumas noções ou aspetos que nos permitem autopsiar ou esquartejar o desenho, ato considerado por alguns destruidor da sua pureza e naturalidade. Escaleno, nós gostamos de mexer no que está dentro. Alguns encararam o desenho nessa folha A5 como um estudo; outros encararam como obra finita. Em todos eles há uma sentença. Nalguns casos é veemente, noutros é quase liminar e invisível. Uns acham que o campo de A5  é um suporte material anódino e indiferente. Outros acham que é um campo de ação que marca limites e tensões próprias e tempo próprio. Esta é a matéria da Composição que devia ser a matéria base do Desenho, como o é em todas as artes. O A é uma relação proporcional convencionada. O 5 é uma escala de representação (na abstração não existe) que faz com que a imagem de uma face esteja em metade e que uma abelha possa estar 15 vezes maior. Esses limites não são perda de liberdade expressiva, são condição de qualidade, do valor e caráter da ação expressiva, plástica, poética e simbólica. Posso apontar algumas linhas detetáveis nessa autópsia. As linhas da representação do visível, da figuração pop, da introspecção, da abstração, da caricatura, do ideografismo, da concetualização, da experimentação formal, do prazer no gesto gráfico, da ilustração, do conhecimento formal e funcional, da sugestão psicológica, do retrato, do esquematismo icónico e simbólico. Essas linhas saem dum núcelo que é a disciplina e, sendo no início independentes, algumas tendem a aproximar-se e a fundir-se. Por vezes cruzam-se ou juntam-se, em especial se passamos à pintura que é o desenho que quer sobreviver materialmente, outras fundem-se mas quase sempre são afirmação dominante. A mancha exterior neste ideograma é toda a obra do desenho, o centro o núcleo disciplinar e as linhas são as variáveis de ação.







2.4 – Equilátero sigo o teu caminho. Ao recordar, passados uns dias, quais são as  imagens que me surgem? Citarei algumas, mas o que me leva a  retê-las? Serão acima de tudo fatores psicológicos mais do que ideológicos. Poderiam ser esses os determinantes num tempo em que os valores estavam definidos eram regra e dever. O psicológico aqui vai dos universos secretos de cada um, às modas estéticas ou icónicas que são superficiais por serem circunstanciais e passageiras. Recordo uma caveira, uma paisagem plana, um tronco esfumado, uma figura de costas em escorço; na mão que segura um aparelho, uma equívoca imagem de escuros com aberturas; figuras em volta de um espaço triangular. Que perguntas podemos fazer quando vemos uma exposição de desenhos, ou só devemos escutá-los? Para que nos serve perguntar? Ver um desenho é-se  afetado pelo que está ao seu lado? Na exposição os desenhos estavam  expostos aleatoriamente e isso criou condições particulares ou especiais para a sua apreciação? As pessoas que viram a exposição na noite de estreia, quanto tempo dedicaram a ver cada desenho?  10’’? 80 desenhos dá 15 minutos dentro da caixa branca. Quem os explorou? As obras que fazemos acabam em nós quando as fazemos e depois passam a viver em nós como nas outras pessoas. Uma obra é acima de tudo o testemunho do autor. O outro inclui ou afasta-se desse testemunho. Também pode construir um testemunho que fica dentro de si. Se o outro me interessa pelo desenho que fez é porque me é diferente e próximo. Nunca indiferente. Podemos ver uma obra e usufruí-la sem que lhe coloquemos parte de nós? E ela só existe se nós existirmos?

1.5 – O Desenho tem a possibilidade – além de ser o único meio de tornar visível as imagens da mente, que são as únicas –  de alargar a consciência do real. O cinema desde que surgiu, e em especial nesta era digital, quer nos fazer crer que criar a grande ilusão é coisa boa. Mas no desenho não se trata de ilusão. Trata-se de realidade. E não fabricada por enormes e poderosíssimas máquinas e homens. A imagem que o desenho nos dá, em especial na representação, pois na abstração é sensorialidade, é uma porção da infinita variedade de sentidos, sensações, emoções, fantasias, que a mente humana é capaz de tratar com base na memória pessoal e na memória da espécie. Fico sempre surpreendido, que até já não me surpreende, o que as pessoas vêm nas imagens de diferente daquilo que vejo. Dos desenhos que vi, que referiste concretamente não vou deixar uma reflexão. Há alguns que ainda retenho, de que me recordo. Outros nem me lembro. Mas aqueles que eu gostaria de ficar com eles para mim não me surgem com evidencia ou desejo claro. Mas esta é a pedra de toque da cultura do desenho. Passar os níveis inconscientes e assumir a consciência, o mais plena possível, do Gosto. As culturas artísticas sempre viveram encerradas em si. Hoje temos acesso a imagens de desenho com origem em todas as partes do mundo, numa dimensão e quantidade que nunca poderemos ver ou experimentar. O realismo no desenho, isto é, a representação do real – aquilo que me é estranho e vejo (uma foto é igual a um objeto) – é baseado em duas disposições. Aqueles que desenham o que vêm em concreto em tempo, lugar e luz, e aqueles que desenham os mesmos motivos baseados exclusivamente no reportório formal e nas memórias de circunstâncias de tempo, lugar e luz . Estas disposições parecem ser inatas e inconciliáveis embora me atraia traí-las na minha ação artística. Mas não partilho a ideia de que é o observador que faz a obra. A obra é um testemunho único, irrepetível, singular. O próprio mesmo não a pode repetir. Aos outros cabe interpretar.

2.5 – Pode ou deve haver crítica na arte e no desenho, e são de natureza diferentes? Quais são os âmbitos em que pode ser feita a crítica? A crítica deve permitir ser-se melhor e, acima de tudo, ser autocrítica? Ou melhor pode a autocrítica tornar a crítica menos ou mais pertinente? A mente ou o processo mental da existência que faz o pensamento (consciência) assenta em aspetos que devem ser percebidos pois se não forem não existimos de fato. Sofrimento, dor, amor prazer, ódio, deleite, sentimento, ilusão. Mas o nosso apego à memória e tradição das nossas mentes impede que tenhamos uma consciência limpa desses aspetos. E isso é muito difícil mas é de admitir que seja verdade. Será o desenho um dos meios mais poderosos ou eficazes de nos aproximar da possibilidade de termos essa perceção ou compreensão do que é a nossa realidade mental ou de como a nossa mente experiência a realidade de forma muito intensa e rica? Fazer desenhos e vê-los com outros é viver afinidades. A afinidade é a partilha mais contentadora. Ser em vez de querer vir a ser. Saber escutar e sentir o “nosso fundo”. Escutar ou ver sem que se pense o que se está a ver. Estas são ações básicas da criatividade. E o desenho é o meio inato de o fazer desde o Homem Neandertal. O cinismo duchampiano, que é um egoísmo inteletualizado, que desconhece o amor, leva-nos a crer que podemos viver pensando no pensamento e nas suas formulações acessórias ou arbitrárias. A arte é, uma finalidade sem fim, e por isso tudo pode ser realizado por, e para si. Este é o quadro em que se desenha hoje, em que cada um desenha e se desenha a si, mais que ao mundo, mais ou menos feliz ou infeliz. Mas o desenho é uma disciplina antes de ser arte. Lá fora, fora de si, o amor pode esperar. Será assim Equilátero?

JoaquimPintoVieira.Abril.2018



















----------------------------------------------------------------------








AGUARELAS 
A partir dos DESENHOS SEM PENSAR



acompanhamento


























esperado esperando
























inexplicado aceitável































. AGUARELAS AO BAIXO

Reposição e revelação de imagens da série
Cenas em frente ao mar 































NOVAS PINTURAS A ÓLEO

óleo sobre tela 140x110 cm













óleo sobre madeira . 60x40cm



---------------------------------------------------------------------------------------






 . PINTURAS no iPAD






















































PINTURAS NO iPad
- imagens a Sul 2015





























. NOVAS PINTURAS NO iPad








 











..........................................................
...............................................
............................





Sem comentários:

Enviar um comentário