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ESQUÍROLAS DO DESENHO





ESQUÍROLAS DO DESENHO
Início em Dezembro de 2011.
Eram publicadas semanalmente e a partir de JANEIRO de 2013 passaram a ser publicadas quinzenalmente.

Encontra-se aqui uma seleção de textos

esquírola um


Cada vez que ouço um apaniguado das práticas artísticas contemporâneas consideradas, à falta de melhor, pós-modernistas, fico com a sensação que a história do desenho é uma miragem, pois a imagem que dela nos fornecem é vaga, imprecisa, pueril e parece flutuar sobre a realidade. Podem declarar que, por ex., graças às ditas práticas inclusivas da expansão do campo artístico, o desenho pode afirmar-se, também, como uma disciplina artística por direito próprio. Podem achar mesmo que agora e pela primeira vez, os artistas podem optar pelo desenho como seu principal e primeiro médium, confiantes de que o seu trabalho não sofrerá por esse estatuto. Quanto à disciplinaridade que para eles é um mal em si mesma, podem dizer, por ex., que os artistas já não se regem por regras e convenções ditadas pela tradição, desarticulada ao longo de um século de modernismo. As regras e convenções são para eles a disciplinaridade pois não fazem a menor ideia do que possam ser as matérias do desenho apesar de serem o que verdadeiramente o constituem e sustentam. Sabemos que o que querem é ser efémeros. Adorar a história é uma necessidade dos inseguros?


esquírola dois



Quero fazer uma “declaração de interesses”. Toda esta minha conversa é feita porque eu quero que os meus desenhos sobrevivam. As minhas teorias pouco me importam! Podem mesmo não ser verdadeiras. Mas os desenhos são! Os segundos modernistas, ditos pós, conceberam a tese de que o desenho como simples acto gráfico está esgotado e é obsoleto. Como são ainda modernistas, não poderiam dizer outra coisa. Os modernistas encerraram o desenho na flatland, em que tudo está ali preso ao plano e esqueceram que o desenho é, acima de tudo, representação, porque só nela pode estar presente a complexidade. Os segundos modernistas foram pela senda da desagregação ou subversão disciplinar onde tudo pode ser tudo, ser o outro, passar pelo outro, deixar de saber o que é. Já conhecemos esse expediente quando a dificuldade em desenhar, e verdadeiramente inovar, é maior que o desejo. Mas por aí se confundem práticas artísticas inovadoras e genuínas que respondem a uma expansão tecnológica e sociocultural que configura o nosso mundo. Porque não tentam os seus cultores conhecer bem os matérias que movimentam? O conhecimento mata a arte ou incomoda? Porque insistem em dizer o que é o desenho os que dele nada percebem?


esquírola três


O que nos pode dar o desenho que mais nada nos pode dar? Ao desenho sempre se pediu para nos mostrar imagens do mundo real que nós não somos capazes de ver, embora saibamos que existem, e também para nos mostrar imagens que julgamos do mundo mental e que sem ele, desenho, nem saberíamos que existiriam. Eu disse, julgamos do mundo mental, porque as outras também são. Isto é, não há imagens fora do mundo mental de cada um de nós, embora haja mundo para além da nossa mente. Mas essas imagens que julgamos que são verdadeiras imagens do mundo real ou mental são as imagens que a nossa cultura das imagens nos conforma a ver. Não poderia ser de outra forma pois é para isso que nos cultivamos. O que nos pode dar o desenho que mais nada nos pode dar? A possibilidade de sermos agentes activos e originais na criação desses padrões da cultura das imagens. E ele pode fazê-lo num âmbito que mais nenhuma disciplina artística o pode fazer. Que nenhuma teoria filosófica pode abordar. O que tentamos com as teorias sobre as imagens dos desenhos é fugir desse universo mental. Mas o desenho é a única maneira de podermos ver o que na mente nós julgámos que são imagens. Se o desenho morresse onde iríamos encontrar a verdadeira imagem de nós mesmos?


esquírola quatro



A criatividade, palavra mágica do nosso tempo é o contrário de ritualidade, palavra mágica de outros tempos. Serão mesmo antinómicas. Como criatividade é uma palavra e uma condição para se ser do nosso tempo deve-nos fazer pensar se o desenho é um exercício, uma acção susceptível de permitir o exercício da criatividade. Quase tudo nos leva a crer através do discurso actual, mediático, vanguardista e do siteproject, que essa eventualidade é remota, a não ser que o desenho se torne outra coisa. As pessoas que procuram cursos de desenho procurarão uma ritualidade pagã. Acreditam que um exercício pelo simples facto de se concretizar define aí o seu fim. O desenho é uma vivência produtiva associada a um desempenho gráfico que se quer representação. É assim que, eu pelo menos, vejo enquadradas as expectativas das pessoas das mais diversas proveniências que procuram esse fazer. Mas será que iremos assistir, como género humano, à comprovada exaustão das possibilidades criativas de certas disciplinas como a poesia, a música e o desenho? E então não nos restará mais nada senão o acto ritualizado?


esquírola cinco


Olhei para a minha mão que acabava de desenhar e agradeci-lhe. Que poderia eu ser sem ela? Já muitos escreveram sobre a nossa condição ergonómica que a existência ou aperfeiçoamento da mão dos animais veio caracterizar de forma tão específica. Também muitos escreveram sobre como a nossa mente deve à mão. Como ela é capaz de dizer como são as coisas, melhor do que a vista e, como um scannner malandro, sabe retirar tanto ou mais prazer quando acaricia outro corpo, mais do que fornece. Então eu sei que só desenho porque quem faz os desenhos é a minha mão porque ela estabeleceu um trato conivente com o cérebro que diz que quanto mais desenhas mais te direi o quê e como o deves desenhar. Quererá isto dizer que o desenho será mais um acto que a si se conforma e enriquece ao fazer e menos o efeito de uma disposição conceptual criada reflexivamente na mente? A imagem produzida pode ser a criadora do conceito e não este ser a razão da sua existência?




esquírola treze

Quando desenhamos uma paisagem experimentamos, mais do que a resolução constante de fenómenos plásticos e gráficos, como em todos os desenhos, a vivência de fenómenos imagéticos e sentimentais que só o desenho pode permitir. A minha experiência recente ao desenhar, de memória, paisagens particulares do vale do Douro, leva-me a escrever sobre o que consigo refletir sobre essa experiência de desenho. O que se passa quando desenhamos uma paisagem ou outro tema e que nos leva a “viver”, pelo desenho, experiências inéditas? Quando desenhamos uma paisagem como fizeram no seu âmbito Ma Yuan, Shen Hsuan, Brueghel, Rembrandt, Lorrain, defrontamos ou experimentamos, por exemplo, a escala. Como sabemos é a relação entre o objecto e a sua representação. Essa transferência de informação icónica e figural transporta toda a memória que está, de diversas formas, associada na nossa mente. Mas que significa isso quando sobre um folha A4 elaboramos um desenho da imagem de um vale com a profundidade de uma dezena de quilómetros. Numa fotografia a máquina retém e disponibiliza pela capacidade do sistema óptico e pela resolução digital padrões tonais equilibrados e coerentes, face aos estímulos. Mas a máquina ignora tudo o que a óptica faz e esta tudo o que o programa informático ordena. No desenho tudo se faz pela mente/mão do desenhador. Há que hierarquizar e decidir como o longínquo se assemelha ou se distancia do próximo. Como se articulam as diferenças, entre as coisas que eu sei e as coisas que eu ignoro o que são. Como se traduzem ou eu as interpreto em termos gráficos. Como elas vão criar a paisagem do desenho. Falei da escala, mas muito mais há a falar.


esquírola catorze


Quando dizemos que os artistas quando desenham não conhecem o que fazem, queremos dizer que não são conscientes, mas não são inconscientes. E isto acontece mais do que se julga! Como podemos constatar por aí quando mostram o que fazem e falam do que fizeram. Há uma concepção muito propagada que, como dizia Camus, da personagem de um seu conto, Jonas, o pintor de muito êxito, “que pouco ou mal compreendia o que pintavam os seus contemporâneos e se via constrangido na sua simplicidade de artista”. E o artista plástico, deve conhecer muito bem o que fazem os outros e o que faz quando desenha? Eu não duvido! Deve ser mesmo quem mais sabe e conhece. É frequente saber fazer mas também conhecer mal esse saber. Há mesmo quem pense que quem conhece o que faz nunca o poderá saber. Ele ignora ou não cultiva as categorias conceptuais, formais, operativas e técnicas que constroem a obra. E porque julgará que pode ser diferente de muitos dos nossos músicos que conhecem muito bem o que contribui decisivamente para construção das suas obras, e dos outros, como sempre que falam e criam nos demonstram com tanta clareza? O artista plástico julga que pode ser diferente baseado na convicção e na convenção que o escrutínio social do desenho e da pintura é muito diferente do da música. Quase não existe. Pode-se ser medíocre e mau toda a vida sem nunca se tornar disso consciente, até porque “não se sente constrangido na sua simplicidade de artista”.



esquírola quinze


Há dias vi na RTP2 um episódio duma série sobre os pintores pré rafaelitas - A Irmandade. Era comum para os artistas, para o público e para os críticos, entre eles Ruskin, que a matéria em apreciação na pintura era ela mesma, como forma material, mas mais ainda, tudo aquilo que ela representava e como era representado. Isso passa-se sempre com a poesia, o romance, o cinema a foto, e a ópera. E sempre se passou com as artes plásticas em todos os tempos. Mas não se passa com a arquitectura, a música, a dança. Também não se passa com a pintura ou o desenho abstractos. São artes atemáticas, como designava José Guilherme Merquior. Onde quero chegar? Eu estou interessado que os meus desenhos e as minhas pinturas, que faço há alguns anos, sejam apreciadas pela forma material mas também por outras funções que compõe a imagem que se construiu e, ainda, forma pelos modos em que a minha mente actua – pelo significado. Eu não fiz o desenho para que se visse que eu tinha feito um desenho, mas para que os outros acedessem a uma imagem, a conteúdos e significados que eu considerava terem sido a razão porque o fiz. Os de nós que fazem banda desenhada compreendem isto bem, porque o fazem sempre. Então o desenho, como arte ou o desenho puro, porque é que o não faz? Eu sei que isto soa estranho a muitos pois é voz corrente que se desenha e pinta para deleite estético. Mas será que a função ou a dimensão estética é a única em que a criatividade se pode manifestar ao fazer uma obra de arte? Não se pode ser criativo na disposição como enquadramos ou representamos as formas de ver e sentir o erotismo ou o afecto, por ex.? A actividade artística que cumpre a função estética por inerência, vive de normas e vive da superação mais ou menos radical dessas normas. Mas não será de reconhecer, e actuar em conformidade, que as diferenças de encarar a natureza, a vida ou o âmbito expressivo são razão de ser da obra de arte e não se cumprem na função estética?



esquírola dezasseis


Porque é que sabemos tão pouco do que é verdadeiramente o desenho, como acto gráfico indispensável à abstracção e em especial à representação, existindo ele há dezenas de milhares de anos? Ora aqui está a pergunta que alguns consideram retórica. Isto é, pode ser feita mesmo que não diga respeito a nada. Haverá mais a saber do desenho como representação do que como abstracção? E porquê? A noção, a natureza de tema em desenho é diferente, por ex., de tema em literatura ou na dança ou música? E os conceitos com que o podemos tratar são os mesmos da música, da poesia, da dança? As matérias que estão presentes quando se desenha no quadro da abstracção são muito mais reduzidas do que aquelas que surgem no quadro da representação. Há algumas que são muito importantes como já me referi na esquírola treze. Agora vou considerar outro aspecto. O Tema. Na abstracção o título que na representação se refere normalmente ao tema, tendeu nos autores clássicos a desaparecer e a ser substituído por um número, pois não havia tema. Tal como a música, como dizia José G. Merquior, a arquitectura é uma arte atemática, como já referi na esquirola catorze. O que quero dizer com tema? Refiro-me ao âmbito físico, espacial, vital, psicológico, temporal, simbólico, metafísico duma acção ou dum objecto ou figura, isto é do real, da vida. Por exemplo: os temas, natureza morta, horrores da guerra, ou faces de raparigas. Todos os temas se dividem em subtemas, como se poderá compreender. A literatura e a pintura realista são temáticas, pois tratam da representação, que é retomar, interpretar, o existente. O que transporta o tema ou para que serve no processo artístico?  O Tema é um enquadramento da realidade que só utilizamos na arte e na comunicação. É o assunto ou a matéria. É o portador dos conteúdos mais complexos e variados. Quando começo um desenho o que o determina em grande medida senão a escolha do Tema? Talvez o conceito? Voltaremos a ele.


esquírola dezassete

 Quando dizemos, o Projecto de Desenho e o Desenho de Projecto – não confundir com desenho do Projecto – o que queremos dizer? É muito interessante, e dá-nos que pensar, verificar como avançou o conhecimento do desenho, se expandiram as suas formulações, as suas práticas e a sua conceptualização. Há 40 anos nada disto se dizia ou se podia dizer. Não valia a pena? Não se tinha consciência disso? Alguns ainda acharão como todas estas palavras são ridículas ou inúteis. Mas hoje muitos as dizem. As designações referidas correspondem a realidades e exigências operativas, são factos, ou são só palavras? Se eu fizer um desenho cumprindo uma série de ações gráficas que estão, por ex., escritas e definidas com o máximo pormenor por outro autor, eu devo chamar ao produto que realizo uma obra minha? Ou é só dele do que projetou o desenho? Estaremos assim no Projecto de Desenho (Sol LeWitt). Também será um projeto de desenho a utilização de um desenho para a realização de uma obra que se concretiza na reprodução tecnológica da imagem desse desenho. Mas se eu utilizo o desenho como componente, por ex., numa obra multimédia eu estarei a fazer Desenho de Projecto (Dean Hughes). Porque ele é parte de uma obra, é um dos elementos da montagem da obra. O cinema de animação poderá ser incluído nesta designação. No Projecto de Desenho este é imperativo. No Desenho de Projecto pode ser residual. Muitas obras realizadas nos últimos 50 anos, com mais ou menos perfil vanguardista, inscrevem-se nestas duas categorias ou géneros. Valerá a pena tê-los presentes e às metodologias que lhes são inerentes para quem ensina ou produz?





esquirola vinte e sete


 Voltemos ao Desenho de Projeto. Como já referi, na esquírola 17, no Desenho de Projeto a presença do desenho pode ser mínima, ou será secundária. Quer dizer, eu como artista utilizo o desenho, como outras atividades ou disciplinas para concretizar uma ideia corporizar um projeto. Como estas reflexões breves tratam de desenho ou pintura eu só me encarrego desses âmbitos nesta zona artística. Quer dizer, não falo da fenomenologia do Projeto. Então o que me ocorre dizer sobre o desenho nesta modalidade? A intencionalidade do desenhar não se esgota no corpo e alma da imagem gráfica. Os atributos técnicos ou expressivos do desenho são subsidiários e utilizam tendencialmente os campos que privilegiam a comunicação do contexto ou das valências ou vetores conceptuais do projeto. Sistemas de representação, sinalética, esquemas, claro – escuro e escalas são, por ex., essenciais. Quer dizer, adquirem relevância os campos ou as matérias que dependem menos dos fatores expressivos e intrinsecamente poéticos do acto gráfico. Mas não deixam de ter importância no processo projetual, na sua conformação ou consolidação poética. A composição, a proporção, a luz, a coerência gráfica, a originalidade ou identidade expressiva podem não se revelar como o fazem no desenho como fim em si mesmo. O que se procura é que o desenho, mais como representação do que como abstração cumpra funções comunicacionais. Mas será isto verdade, de facto, ou é uma construção teórica avulsa?  






esquírola quarenta


O Conteúdo é “ aquilo que a obra deixa transparecer sem mostrar”. Assim o definiu, Charles Sanders Peirce (1839–1914), que foi o fundador do pragmaticismo americano, teorizador profundo, lúcido, visionário sobre a lógica, a linguagem, a comunicação e a teoria geral dos signos ou sinais que deram origem à semiótica, ou semiologia. Esse vocábulo, muitas vezes utilizado por todos nós com extremo à vontade, para ser simpático, deveria merecer-nos mais atenção. Ou melhor, deveria merecer-nos mais atenção aquilo a que ele quer referir-se. Nos anos 50 e 60 a grande batalha conceptual na intelectualidade portuguesa, que já vinha do séc. XIX, lá fora, decorria entre os que se recusavam a relacionar o que consideravam ser a “forma”, com o que outros consideravam ser o “conteúdo”, chamado neste caso também “substância”. Nunca me entusiasmei muito por esse debate, por intuição, e por ser um pintor abstrato. Hoje com o que sei, que é uma situação diferente, mas do mesmo tipo da dos intelectuais da altura, não quero discutir nada. Mas quero compreender como posso, se posso, ao realizar uma obra influenciar isso que os outros vão recolher e que será isso a que se chama conteúdo. Haverá uma relação direta entre o que chamamos também poética e esse complexo fruitivo que é tanto do domínio do autor como do fruidor? O conteúdo começa a ficar marcado pelo tema que escolho, pelos conceitos que utilizo, pelos sentimentos que cultivo, por certos truques que a técnica confere? Ou vou ser apanhado por outras realidades processuais que desconheço?  



esquírola  quarenta e um

Aprendi na História que o culto dos mortos é, de facto, a ideia que inicia a cultura humana – e não há outra cultura! Quer dizer, como todos bem sabemos, ao cultivar a memória dos que morreram, os nossos não muito longínquos antepassados estavam a (re)tê-los presentes. Os dinossauros não tinham o culto dos mortos o que nos deixou sem compreender muito da sua vida. A cultura artística trata, de facto, disso. Nós sabemos que o esquecimento é a morte efetiva. Sabemos assim, também, que quando esquecemos ou se perde uma obra artística, de qualquer natureza ou condição, se perde definitivamente algo – mesmo que pensemos que deveria desaparecer. A natureza e a vida são feitas, com naturalidade, dessas perdas. As partículas atómicas aparecem e desaparecem, sempre em movimento incessante e infinito. Quantos seres e montanhas, que são as coisas da natureza, já desapareceram para sempre, irremediavelmente – palavra desconhecida para a natureza. Mas se voltarmos ao desenho, quais são as obras com 1000, 100 ou 10 anos que não morreram irremediavelmente para nós – e, senão morreram irremediavelmente, será que o pouco que vivem, integradas nesse movimento cósmico irresistível, como o que vivemos com elas, tem alguma importância? Terá mesmo toda a importância, já que é o “nosso culto dos mortos”? Mas como as cultivamos? Como as integramos no nosso quotidiano, na nossa vida, como o fazem as pessoas que ainda hoje vão semanalmente ao cemitério? Acreditamos nelas como parte vital do nosso poder ser?



esquírola quarenta e dois

Um meu conhecido, de seu nome Escaleno, defende que a vida do desenho é uma luta de “vida ou de morte”.  Ele pensa que a existência de tendências não só no desenho, mas nas crenças, e nos desportos configura ainda ancestrais, demiurgicas necessidades de sobrevivência, ancoradas na convicção de que quem não vence perde; dos fracos não reza a história, dos vencidos a memória não existe. Que mesmo a “salvação eterna”, a “imortalidade” só é possível depois do sacrifício dos impuros ou dos desajustados. Assim aqueles que se apresentam aos outros esperam, que sejam considerados vencedores e que, como as outras artes, desde a da guerra ou a de luta, a honra, a nobreza, a expressão do supremo carácter. Ele considera mesmo que, no intimo, o desprezo com que os artistas comumente dedicam às obras daqueles que lhes estão mais distantes conceptualmente, mas mesmo àqueles que lhes estão próximos, esconderá uma complexo desarranjo psicótico. Também, segundo ele, assim se explica a famigerada expressão “artistas incontornáveis”, coisa nunca vista e hoje necessária para alguns. Os artistas precisam de se resguardar, de reforçar o seu ego, como forma de afirmação mas esta não ganharia nada, julgo eu, em ser construída sobre o desaparecimento dos outros. São sempre os outros que fazem o que nos é vital. Não ignoro porém, que não há “amor”.  No fundo não se reconhece à atividade artística, segundo ele, a vontade do conhecimento e da prática espiritualmente elevada, mas o desejo também ganhar, de influenciar, de comandar e de dominar. Aquela convicção preocupa a elevação do homem como condição espiritual da espécie ou do espírito, segundo alguns. A Esta preocupa a espécie de elevação que me coloca mais alto, e mais estrela, entre todos os homens.


esquírola quarenta e três

 Marcel Proust, em A la recherche du temp perdu – Albertine Disparu, diz-nos: “Quando não ia vaguear sozinho em Veneza, ou Combray,”  um dos hábitos, da personagem que nos diz serem dele anuncia o papel do vaguear.  Muitos consideram menor um papel ou um desempenho menor. Numa sociedade marcada pela ética do trabalho, o que não é o caso da nossa, seria considerado um programa negativo. Mas o que  faria ele quando não vagueava sozinho? O que deixa de fazer aquele que vai vaguear sozinho? Variadas coisas. Mas serão elas melhores do que o produto saído do vaguear sozinho? Vaguear será andar por aí sem objetivo, sem preconceito, em programa, sem intenção.  Tudo aquilo indispensável a qualquer projeto. Então, como defendo que no desenho pouco há de projeto, poderemos admitir que vaguear é uma das condições, um dos requisitos para ver, para observar, para potenciar o aparecimento de imagens latentes na mente e prontas para o serviço gráfico. E sozinho? Só sozinho se pode vaguear. É quase pleonástico. Porque a erupção de imagens na mente exige o silêncio e a pureza percetiva que qualquer companhia só pode destruir. E não sabemos bem como é mesmo 
assim? 



esquírola quarenta e quatro



A Ópera de Monteverdi, A Coroação de Popeia, é para mim uma das mais fascinantes. E não só para mim, mas para os entendidos, quer no plano musical, quer no plano do libreto, matérias em que não sou especialista mas, como sobre saúde e arte todos temos direito a falar, não me coíbo de o fazer. Interessa-me a noção de compreensibilidade da obra, de mistério, do nunca revelável; a necessidade da obra fazer ficar na nossa mente algo sem resposta, perturbador, em especial no plano das ideias, dos conceitos, dos valores. No plano da estética, das sensações, as coisas são mais simples; ou ficam ou não entram. Qual é a questão? O tema trata dos amores de Nero com uma cortesã, Popeia, com quem casará. Para isso deporta a mulher, manda Séneca suicidar-se e no fim coroa a cortesã, sua nova mulher, imperatriz de Roma. Isto não é aconselhável! È assim que no plano ético e moral esta história do despotismo maligno se pode encarar. Tudo em nome do amor. Mas o que levou Monteverdi a fazer daí uma obra de arte que teve sempre muito êxito? E o que foi o público encontrar numa obra de arte construída na base de tanta sordidez? Há dias, para meu espanto, vi uma versão de um encenador francês do nosso tempo que não suportou tal quadro e terminou a ópera explicando ao público como devia ser interpretado tudo o que de mal tinham presenciado – mas não sei se observado. Como sempre, voltemos ao desenho. O tema é um dos maiores suportes, ou bases, ou motores da criação imagética e formal. E um tema “feio” pode ser um meio eficaz de participarmos quer no plano dos sentimentos, quer no plano da estética, naquilo que a vida não nos deixa sublimar mas para que a arte pode servir. Estranhos os caminhos da expressão artística!







esquirola cinquenta e três


Independência e dependência são dois conceitos estruturantes da  forma de nos assumirmos e de nos relacionarmos com os outros ou com o meio. Quando um deles é muito hegemónico, como a dependência, nas sociedades primitivas, o outro quase nem tem sentido ou é residual. Fica para desempenhos que só interessam ao próprio. Não dependemos dos outros para adotar uma ou outra forma de nos lavarmos, por ex.  Mas o que será importante é fazermos uma aproximação ao que estes conceitos encerram ou disponibilizam à nossa consciência. O modernismo, na exploração incauta da senda do movimento romântico, assentou a sua ética numa hiperbolização da liberdade do individuo capaz de, só por si, sem história, passado e pertença fazer a obra. A  força dessa obra estaria no inevitável reconhecimento do seu interesse pela sociedade. E por quê? Porque a força demiúrgica ocupa o artista e o que ele faz é bom porque feito em inteira liberdade. Cem anos passados custa muito a admitirmos na bondade deste princípio ético e moral. Muitas das obras realizadas já ultrapassaram o período em que a sua falta de importância residia na “cegueira do público” e, muitas feitas hoje, têm pouco interesse, sendo mais devedoras do academismo modernista do que da liberdade vanguardista, embora pretensamente feitas em total liberdade. Mas “serão nossas”, no sentido que constroem o nosso ser de grupo e sociedade com perspetiva de devir?  Começará a alargar-se o espaço para que o conceito de dependência seja compreendido naquilo que, interessando à nossa individualidade, faz dela uma parcela duma obra humanizada, porque eticamente comprometida e solidária?


esquírola cinquenta e quatro

Se atentarmos naquilo que foi a realidade produtiva, socializada, comunicativa e expressiva do desenho podemos facilmente concluir alguns contextos típicos. O da Quantidade, por ex.. Há 500 anos na cultura europeia a quantidade de desenhos realizados por dia, por todos aqueles que os faziam em cada uma das grandes cidades seria, admitamos igual a 10. Conhecemos bem o quadro de limitações de toda a ordem. Há 300 anos o quadro tinha mudado e havia em muitas cidades muitas pessoas que faziam desenhos com certa frequência o que nos pode levar a fasquia para os 100 desenhos dia. Gosto muitos dos números! Há 100 anos desenhar era uma prática muito difundida e apoiada em diversos dispositivos e instrumentos de fácil acesso. E podemos estimar já em milhares por dia. Já viram, hoje não há números que cheguem para o referir. Mas teimamos em querer conhecer o mais possível de desenhos e a sentir que gostaríamos de ver os melhores, como há 500 anos seria natural e possível; disse, e bem, natural. Eu sei que esta conversa esquirolada parece tonta mas deixa-me que pensar... Ou será porque não tenho mais nada que pensar que penso nisto. Isto significará que tenderemos a ser menos iguais aos homens de 500? Que a nossa socialização é muito diferente e que defrontamos todos, sem o dizer, uma angústia do, assim ter que ser? Ou está nas nossas mãos construir dessa Quantidade uma Qualidade?

esquírola cinquenta e cinco


Como falamos dos desenhos? O recente trabalho que um grupo de nós, ligados ao A&VD, realizou sobre os nomes do desenho aproximou-nos desse espaço da realidade da vida do desenho que se corporiza no discurso sobre ele. Já disse numa esquírola que falar do desenho me ajuda a desenhar. Mas o que eu quero agora tratar é da necessidade ou da incomodidade, que as pessoas que estão ligadas ao desenho, como docentes, como artistas, teóricos ou observadores, sentem com o discurso sobre o Desenho. Se têm necessidade, isso tem estado muito reprimido. Se tem incomodidade, isso tem-se manifestado. Muitos poucos falam e pouco. Como poderemos ter incomodidade em falar daquilo a que estamos ligados, fazemos, ensinamos ou gostamos de ver? Quantas vezes os docentes das disciplinas de desenho falam entre si do encanto dos desenhos feitos pelos seus alunos. Quantas vezes depois de ver-mos uma exposição de um colega falamos entre nós sobre o que nos encanta nos desenhos? Porque não gostamos de estar ligados, de fazer, de ensinar, de ver ou de amar. Haverá outra hipótese? Só me restará a hipótese de estarmos a defrontar um estado de auto repressão, de auto punição por evitarmos falar daquilo que mais gostamos, pois eu já anulei a hipótese de não gostarmos. E pode esse fenómeno psicológico, mais ou menos coletivo ou mais ou menos profundo, dominar quase todos nós? Será que podermos ser todos mais felizes se falarmos mais, mesmo muito, dos desenhos? O que fazem aqueles que gostam muito de futebol. Não falam de outra coisa! Será que o Desenho é mais imposição do que uma necessidade?



esquírola cinquenta e seis

efémera pequeno inseto alado vive só num dia, em que tem que se reproduzir. As larvas vivem dois anos, e até mais tempo, e numa certa altura, num certo dia, tornam-se adultas para morrer. Sempre o homem produziu bens artísticos efémeros, nas festas e nas celebrações epocais. Aqueles que hoje em dia, e são muitos e jovens, que se dedicam à atividade artística e ao desenho como arte efémera, estarão perto do destino e da condição do frágil e delicado inseto, ou poderão estar longe. Ou é uma exigência natural isomórfica, aplicada à cultura humana, que prescreve o dado de que não temos espaço para o que  julgamos  querer ou dever produzir e que se devem criar só coisas que viverão o seu dia biocultural? Mas se isso é muito natural, já que surge das necessidades dos seres que compõe a natureza, não é “humano”, que é apesar de tudo um mundo tão natural como o dos insetos. Eu julgo que ser humano é utilizar o tempo, o seu tempo próprio para dar um sentido particular à diferença. Para os crentes ou não crentes não deixa de existir a conexão histórica que não vive de efemeridades. Vir de antes, agora, depois.  E não preciso no meu tempo de efémera condição de acreditar nesses três tempos. Não será a condição do efémero – este questionamento já é afirmação para alguns – aquela que se justificará a si mesma numa sociedade pós industrial, de tecnologias imateriais, de produtos auto transformáveis, de vidas que encontram, no ser elas mesmas e só, a força da defesa do património coletivo como o sabe ser a pequena efémera? 


esquírola cinquenta e sete

Desenhamos porque queremos ter uma visão do mundo. Os poetas escrevem poemas porque querem ter ou têm uma visão do mundo. O músico compõe e toca porque tem ou quer ter uma visão do mundo…O crente acredita num deus porque quer ter uma visão do mundo. O filósofo, eu agora, o que quero é ter uma visão do mundo. Mas estaremos a falar da mesma coisa? O desenhador que desenha três quadrados lineares sobrepostos, ou que regista numa folha uma intensa ou leve acumulação de traços com um lápis de grafite, ou aquele que desenha a árvore que repousa ou se agita à sua frente, ou aquele que sobre o papel, pelos seus gestos, vê surgir a imagem de uma mulher que agoniza, farão coisas semelhantes ou estão a ter visões do mundo que se assemelham ou podem ser designadas indiferentemente como tal? Podemos aceitar que sejam visões e que sejam do mundo? Visão, parece referir-se a uma imagem. Mas alguns pensarão que pode ser um conceito. Do mundo alguns pensarão que pode ser uma partícula mínima dele e outros que será sempre aquela que não está em nós. Porém essa visão do mundo será sempre a nossa projeção sobre o que fora de nós nos apela. Se alguns dizem que é a projeção  do que está dentro deles o que poderemos pensar? A visão do mundo parece conter a necessidade da Totalidade. Termos uma visão do mundo será vislumbrar a possibilidade de aceder a essa Totalidade?



esquírola cinquenta e nove

Costumamos falar das obras de arte como coisa estética e das coisas estéticas como obra de arte. O desenho, para muita gente, parece ser considerado como um exercício técnico, ou como um passe mágico. Ter conhecimentos de desenho sempre teve mais a ver com geometria do que com estética. Aprendia-se desenho que era utilizar códigos de representação. Ou será que a geometria é estética? Também sempre se diz que se se tem jeito para o desenho se é um artista. Neste caso referimo-nos a alguém que faz caricaturas ou retratos com certo à vontade.  E parece estar tudo bem. Mas será que o artístico só é o estético e que o estético é sempre artístico? Durante muitos anos na atividade artística ligado ao desenho, e às artes plásticas em geral, se foram fazendo imensos mas curtos discursos, sem consciência daquilo que a filosofia da arte designa do domínio do estético. Sempre se confundiu a função da coisa com o aspeto da coisa. Todas as coisas existiam para fazer um serviço ao grupo. A necessidade desse serviço muitas vezes confundiu, sem maldade, por exemplo, a religião com a estética, a política com a estética e, nós achamos quando passeamos nos corredores do Louvre envolvidos por muitas centenas de outros passeantes, que isso está bem. Mas nada haverá de mais estético do que o conjunto de poderes e efeitos que a natureza, essa coisa viva que cria o corpo humano, as opalas, o panda ou a araucária. Mas para mim não têm nada de artístico!


esquírola sessenta

Gosto de viver e passear no PortoGaia, porque não sinto a presença áulica. Sabem o que é. O rei, a corte… Não vejo, não sinto, nem penso nela. Ainda hoje que não há rei, há corte, mas que só retém os proventos, não o simbolismo.  Gosto de sentir aquilo que não deriva na sua existência de um homem supremo que tudo pensa, que tudo projeta.  Sentir um mundo e uma realidade física e icónica que se foi construindo sobre o real natural, feita de projetos individuais, pequenas lutas, de conquistas individuais, más, medíocres suficientes e boas.   Uma cidade que não tem um projeto único um desenho único, uma simbologia única mas que é a presença constante da diversidade e que, milagre, daí parece nascer a possibilidade de eu construir uma unidade.  E cada um de nós construir uma unidade. Noutras cidades não é assim. Está tudo posto e dado. Querem mostrar um projeto. Sabemos que estas coisas do que são, são feitas por nós, são vistas por nós. Há imenso arbítrio em tudo que eu vejo nesta cidade. E ele é a base do que mais me surpreende pois, as coisas surgem onde menos as esperamos. Essas coisas tiveram que conquistar esse ser-estar na luta entre “iguais” e não na imposição de cima. O que vemos é o que sobreviveu duma luta entre “iguais” institucionais ou sociais. Quando desenho, estas potências sensíveis, simbólicas, concetuais interiorizadas, estas predisposições ideológicas estão presentes no meu atuar?  Este tipo de  configuração da minha mente, que é a que me deixa ver aquilo que julgo que vejo na cidade, é a mesma que participa na construção do critério das imagens que desenho?

esquírola sessenta  e um


Celebramos o que merece ter o direito de voltar a estar presente. Chamamos celebrações a atos coletivos ou individuais que nos colocam perante a necessidade da representação de outro ato já passado. O que esperamos é que esse reencontro nos traga alguma da energia que nos recordamos ter encontrado nesse outro momento do passado. Não podemos celebrar o futuro.  E podemos o presente?  Será que individualmente podemos celebrar o dia  que passou e que foi para nós jubiloso?  Que requisitos terá uma celebração para se poder chamar assim.  Mas mais do que chamar, o que se passa numa celebração para ela não ser uma só recordação. Todos os dias podemos recordar o que noutros se passou. A recordações são imagens mentais e como tal “rápidas como a luz”. Será a celebração uma ação que pretende reter esse quadro móvel imaginário que a nossa mente é capaz de nos por à disposição? Desenhar pode ser uma ato celebrador? Desenhar cada dia celebrando a memória de outro dia passado? Celebrando o amor por uma pessoa, por um sítio, por uma ideia? Depois de uma celebração, isso é reconhecido em vários contextos, devemos sentir-nos mais fortes, mais completos e nas celebrações coletivas mais integrados no grupo sem que essa integração seja determinada pela racionalidade mas mais pela participação sentimental e simbólica. Desenhar pode deixar de ser um ato solitário?



esquírola sessenta e dois

O Desenho de uma face, sendo muito elementar, pode dar os elementos que qualquer um de nós ache satisfatórios e até fascinantes da expressão facial. No entanto está muito longe de dar tudo aquilo que é a realidade de uma face, que é incomensurável. Há o pressuposto que a fotografia nos dá isso tudo. Claro que é falso. Mas dá muito. Uma fotografia de uma sala muito escura em que se vislumbra a face de uma pessoa também nos dá tudo o que a máquina “consegue ver”, e isso é muito pouco embora seja quase tudo o que é aquele real. Isto é importante para abordar a questão do verismo ou do mimetismo em desenho e nas artes plásticas. As imagens foto ou desenhadas que possuem um nível muito alto de informação estão longe de ser aquelas que são para nós mais fascinantes. Nós não vemos “tudo” ao olhar para a face de uma pessoa. Vemos o que nos interessa naquele conjunto de formas, e da animação que elas fazem; uma expressão que nos é cativante pelas mais diversos motivos. Todos nós que desenhamos sabemos que um desenho esboçado contém virtudes expressivas que uma versão mais elaborada perdeu. A qualificação de um desenho ou duma fotografia nunca foi, nem nunca será, baseada no grau “mimético”, mas no grau “revelador”. Sabemos já que ver tudo o que a realidade é, é muito aborrecido. O “verismo” embora dê muito do modelo, dá demais e, ao fazê-lo, bloqueia a capacidade de construir mentalmente uma imagem sucedânea do modelo. Isto é, eu já sei o que é um cavalo. Tenho visto muitas fotos muito detalhadas do pescoço, da anca, etc., que não são, para mim, mais do que o cavalo real que nunca me apetece ver com muito detalhe. Interessam-me mais as imagens imprecisas de cavalos que me levam a imaginar as potências do real. Isto é o que me interessa do real, as imagens que dele construo o que parece também ser isso que buscamos no desenho e na pintura.

esquírola sessenta e três


Conhecem a praça da Batalha? Estão a ver o monumento que ocupa a placa central ao lado do “Batalha”? Sabem o que homenageia o monumento? D. Pedro V, o liberal que na luta contra o irmão D. Miguel depois da vitória do Mindelo, nos meados do séc. XIX, abriu a porta à República e ao Portugal moderno, jacobino, anarca, tolerante, socializante, solidário, etc. Sabem quem pagou o monumento , todo em mármore branco e bronzes? Foram os artistas do Porto, em 1862. Eu sei que não é fácil encontrar um político a quem possamos erigir uma estátua ou  monumento respetivo. Mas seria ainda mais difícil juntar um punhado de artistas que o pagassem. Em 1856, nascia Pousão e por essa data muitos outros artistas, não só “plásticos”. Estão a ver a cena? Era um Portugal do mais pobre que se possa imaginar. Camilo que nessa época “atirava a torto e a direito” sobre tudo o que mexia e tinha cara de gente humana, que ele muito amava, dá-nos bem o “ar do tempo”. Mas que dimensão sociocultural, que consciência cívica, urbana, estética, simbólica, nacional tinha aquela gente, bisavôs de alguns de nós? Não posso passar pela Batalha e impedir que me venham à mente, muitas imagens, ideias, e que uma funda tristeza me ataque quando penso como na cidade surgem, sabe-se lá com que maldade, tantos monumentos que nenhum artista estaria disposto a dar um cêntimo, exceto receber muitos por os ter feito.


esquírola sessenta e quatro

Volto ao assunto ou tópico sobre o que faz movimentar um desenho. Quero com isto dizer, o que faz com que o desenhar ganhe consistência – provoque interesse, excite, estimule intelectualmente e  emotivamente e nos deixe surpreendidos e fascinados.  Julgo que todos estarão prontos para responder. Eu só posso falar naqueles âmbitos que podem estar presentes quando começamos a desenhar. Muitas vezes não estão, ou estão alguns e outros não, e o grau de consciência que temos de cada um deles pode ser alto ou ser quase residual, ou ser mesmo inconsciente. Desenhar é eliminar. Desenhamos porque temos um TEMA, mas ter um Tema é eliminar muitos. Desenhamos porque temos um CONCEITO; mas ter um Conceito é eliminar muitos. Desenhamos porque temos um MÉTODO;  mas ter um método é não ter muitos outros. Desenhamos porque temos uma TÉCNICA; mas ter uma técnica é evitar muitas. Presumo, porque não o sei por experiência própria, que o domínio elevado destes âmbitos de ação deve dar bons resultados. Isto é, fazendo muito ao desenhar, consegue-se com pouco, depois de muito eliminado, ser perfeito. Mas só depois de ter esquecido tudo aquilo que tomamos consciência de ter eliminado.


esquírola sessenta e cinco


Poderíamos dizer que aquilo que mais diferencia um alemão de um português é, sempre foi, o gosto pela qualidade. Como poderíamos dizer muitas outras coisas. Mas se o dizemos e continuamos a pensar nisso pode ser que se transforme, ou não, num meio para nos compreendermos, mesmo que continuemos a não compreender os alemães, ou até que não seja verdade.  O gosto pela qualidade parece ser uma exigência estética se calhar mais do que ética. Ou então será que uma ética forte favorece uma estética qualificada? Chamo qualidade ao depuramento, à necessidade de progredir e fazer sempre mais e melhor, de se aperfeiçoar. Este termo é hoje mal visto e associado a produtividade e a concorrência  na indústria.  Parece-me, porém, ser uma necessidade interior, não uma exigência do mercado. Quer dizer, uma necessidade é um imperativo do  sujeito para si, algo sem o qual a vida não tem sentido. Fazer tudo o que se faz, sempre bem feito, sempre próximo do limite da sua competência sem que isso seja imposição, mas atração.  As artes alemãs e a sua indústria sempre foram uma expressão dessa necessidade e desse imperativo. Algumas artes e filosofias também o foram do inverso, pela anarquia e o niilismo. Não tratamos agora da sua origem. O que parece existir na nossa cultura em geral como de qualidade, parece ter sido sempre importado e fomentado por grupos ou por personalidades estrangeiros. Se olharmos para o nosso Desenho, sob este ponto de vista, como podemos avaliar o nível da qualidade que se manifesta, e porque será que ela não se manifesta? Mas no que me apetece pensar é se podemos mudar isso, se temos necessidade disso, se não queremos irreprimivelmente continuar a cultivar o “assim está bem”?!


esquírola sessenta e seis

Desenho e Abundância pode parecer uma associação sem sentido. Mas pode deter vários. Um deles é a possibilidade de acesso a fontes. Caminhamos para um mundo  “super informado”, quer dizer teremos acesso a “dados, imagens e conteúdos informatizados” numa dimensão incalculável e indominável. Por isso se diz que o problema vai ser o que escolher, menos do que encontrar, não só no desenho como em tudo. Habituamo-nos a considerar que o desenho tem como fonte, o real visível que podemos representar graficamente; o que nos vai na mente como imaginário, e aquilo que vemos nas imagens fotos. Até há 150 anos só existiam os dois primeiros, convém ter presente. Se o acesso ao primeiro é muito casuístico e circunstancial, o recurso ao segundo sendo ilimitado é muito condicionado; o recurso ao terceiro é o hoje o tal da Abundância. Tenho uma experiência de acesso à imagem foto como ”realidade”, desde os anos 70 do p. séc., em especial através de um arquivo que comecei a fazer nessa altura. Ainda hoje viajar nessas imagens, a que acedo por acaso ou por escolha, é uma experiência muito forte. Até aos anos 90 eu julgava que tinha em mãos uma coisa rara. E era, pois só tinha acesso a essas imagens nesse arquivo. Mas com o advento e a extensão incomensurável da NET aquele arquivo passou a ser quase nada. Surgiu a Abundância. Estou a achar a palavra fascinante. De tantas vezes a pronunciar começa a tornar-se como de costume, estranha. Mas será a Abundância em si mesma estranha?  Desenho muito de imaginação e tenho desenhado menos a partir de fotos já que desenhar do real me atrai menos. É preciso que o real seja mesmo forte. E a Abundância pode causar-nos o tédio e a desmotivação? Poderá causá-los mais do que a carência? Ou vamos ter que saber muito bem como se vive na Abundância?


esquírola sessenta e sete

A mente humana, não há outra, é a mais extraordinária realidade que podemos constatar, graças a ela mesma. Julgo, com o que posso, que ela é a máxima criação da vida e é por isso que não se pode separar do corpo. Alguns a considerarão uma criação do espírito. Não a evolução de um aparato biológico mas um acrescento que se tornou possível. O que a mente mais deseja é estar na fronteira. Coisa que para o corpo nem sempre é conveniente. Na fronteira ou nos limites do que ela sabe ou julga saber. É ela que está a fazer este texto sobre o qual o meu corpo se sente um pouco inseguro. A natureza dos limites e das fronteiras para o corpo são,  as de espaço plano e curvo, tridimensional e orientado e da força da luz. Para a mente o espaço é desorientado não há fora e dentro, longe e perto, plano e curvo e voga bem no escuro.  E que tem isto a ver com o Desenho? A atração irreprimível da mente por esses limites pode chegar mesmo à necessidade de criar, com a vida que ela é, algo que lhe seja superior! Não o fará com o desenho. E quem sabe?!  Há uma ideia comum, centrada no conceito de vanguarda, de que o limite é o que esta ali à frente. Hoje sabemos que não será bem assim no que respeita aos negócios da mente. É assim na ciência o que prova que a ciência não é a atividade mental mais interessante ou típica. É uma coisa muito pragmática para facilitar a física da vida.  A mente pode encontrar no desenho os seus limites no meio. No meio, quero dizer naquilo que já foi uma situação, há muito, ontem, agora. Pode a fronteira do desenho estar aqui bem perto ou encontrar-se numa situação muito distante de nós no tempo e no espaço. As doutrinas, que são a atividade mental mais pobre espiritualmente, encarregam-se normalmente de limitar os terrenos da mente. E isso é feito com uma subtil ação da própria mente no que ela tem de mais perverso.





esquírola sessenta e oito

A necessidade é um imperativo pessoal. Também se pode dizer, com menos clareza ou verdade,  que é um imperativo coletivo. Jung dizia que, a necessidade é o regulador mais eficaz pois estabelece limites à realidade o que é mais convincente do que a pregação doutrinária. Fazemos desenhos, poemas, canções, bonecos que são coisas que uma pessoa só pode fazer e que são para ela uma necessidade antes de ser um serviço ou um negócio. E este reduto é o mais nobre, o mais genuíno da condição humana. Não são feitos pela necessidade do coletivo mas o coletivo em muitos casos acaba por incluí-lo nas suas necessidades. A peregrinação artística modernista e pós romântica está repleta desses casos. É a sua maior virtude como conceção ideológica sobre a condição do individuo. Desenhamos genuinamente e autenticamente quando fazemos algo que não nos pedem mas “sabemos” que precisam. Não tem qualquer importância quando surgirá nos outros a necessidade. Mas sabemos que o Temos de fazer. Porque só esse ato, essa ação cumpre a necessidade nossa, por mais modesta que seja, e sem ela não há futuros. Não surgem ideias e obras genuínas por decisão coletiva. O coletivo não é um corpo, uma consciência, mas é o inconsciente. O que não é necessário ao coletivo num certo momento tem sempre a maior probabilidade de se vir a tornar importante no futuro. Aqueles que realizam esse destino, esse desígnio da condição da cultura humana não fazem mais que se cumprirem.




esquírola oitenta e três



É indispensável desenhar com emoção. As mais das vezes isso não se passa porque nem tudo pode ser feito como emoção. E que significa isso?  A emoção é uma função mental que tem por objetivo fazer-nos aderir ao real, ao que nos cerca. Também é falso que a emoção e a razão estejam afastadas ou separadas. Todo o momento, todo o ato, todo o encontro com um ser ou uma obra é uma singularidade. E a experiência como singularidade é um nascimento, se for emocionalmente vivida. Mas nós sabemos que esse brilho não é vulgar ou comum. É um grito intenso por mais baixinho que seja. Então o desenho ou começa por uma comoção perante um tema, um ser, um objeto, uma ideia ou, se não, esperemos que termine assim; em estado emocional. Desenhar é um ato tão simples que por isso encerra muita complexidade. Mas ela se desfaz perante a emoção que a expetativa do desenhar nos abre. Quando começamos a desenhar, ou o fazemos pela primeira vez, como com tudo, a emoção está adormecida ou aniquilada, impedida.  Ela sabe quando pode despertar e tomar conta de nós – do nosso corpo e da nossa mente. Por isso ela será bem vinda e não nos deixará sós e perdidos. Mas não chega esperar, é preciso fazer algo por nós e pelo desenho cultivando a sua execução e a sua compreensão. Fazer e compreender.



esquírola oitenta e quatro


 A minúcia é uma preocupação, uma insatisfação, perante o real não perante os conceitos ou as poéticas. É-se minucioso porque se tem insegurança perante o significado das coisas mal definidas ou sobre o valor que elas podem ter ou não ter. A minúcia é considerada também uma bagatela, coisa miúda, insignificância.  Minucioso é um desenho sem fim, que nunca pode acabar, pois só se pode ser verdadeiramente minucioso quando se representa tudo o que está na realidade ou, numa abstração, tudo o que a matéria for capaz de oferecer, como por ex., nos cristais. Espera-se uma imagem 1/1 ou melhor 2/1;  a representação maior do que a realidade. A minúcia tem também a ver com a aproximação ao objeto e com a escala. Talvez seja mesmo a escala o que mais marca a razão de ser da minúcia. Mesmo numa joia decorativa-abstrata o gozo está em nos aproximarmos e vermos que há coisas a ver que não se vêm afastados. Os miniaturistas do retrato jogavam nesse zona em que a relação do observador com o objeto é tão próxima que parece ser mais intima ou secreta. Também quando observamos um cristal à lupa sentimo-nos deslocados do real em que estamos sem a lupa. Também joga numa limitação que surge da necessidade inversa de representar o que é maior em mais pequeno para que possamos ver em mais pequeno  o que sabemos ser maior. A minúcia acaba quando a relação entre grandezas não é mais aceitável, desadequada ou absurda. Isto é, a pintura minuciosa de uma camélia, em tamanho natural, só está concluída quando tudo o que for possível representar tecnicamente, tudo o que pode ser visto a uma certa distância convencionada. Vista a dez centímetros não é a mesma realidade da que vista a cem centímetros. Esta discurso colocado perante da fotografia não tem sentido. E terá muito pouco a ver com a arte do desenho.

Maio de 2014




esquírola oitenta e cinco

 Circula por aí um papel que apoia uma iniciativa que reclama que o Estado adquira um conjunto de oitenta pinturas de Miró que, sabe-se lá porquê, estavam no espólio do falido BPN. Ilustres figuras da esquerda intelectual e artística defendem que o Estado deve manter, por aproximadamente 35 milhões, essas obras na sua posse, cumprindo assim uma notável ação de prestígio cultural. Mas que gente é esta, que joga no acaso perverso a vida da cultura artística nacional? Deveria antes exigir que o Estado, não assumindo a posse das obras de um pintor espanhol, não mais glorioso que centenas doutros por esse mundo pós-moderno, usasse como exemplo o dinheiro para adquirir obras de artistas nacionais. Mais, que dois milhões – já viram o que são dois milhões! – fossem aplicados em dezenas de bolsas para que jovens doutorados estudassem e fomentassem o gosto de um público esclarecido e culto pelas artes portuguesas. Já viram o que fariam dez milhões aplicados nos museus nacionais adquirindo património junto dos artistas nacionais? E ainda sobra dinheiro! Mas a questão grave é verificar que o governo não tem, nem os  inteletuais e artistas, uma visão política cultural para a nação e nem sabem assim com critério que papel exercer perante as circunstâncias  que a vida nos oferece.


esquírola oitenta e seis

Desenhar do real ou desenhar da imaginação são duas tradicionais maneiras ou processos de produzir imagens gráficas. E surgem como escolhas, mais ou menos psicológicas ou carateriais, dos autores. Não são programas mas autoexigências. Associamos a essas tendências muitas vezes valor. Quero dizer, para alguns de nós tem mais valor uma maneira ou tendência do que outra. “Como Oscar Wilde, Edward Burne-Jones acreditava que o ponto da arte era a artificialidade. O seu trabalho é a antítese do Realismo e o Impressionismo aborrecia-o por só estar interessado no fato visual. ”Realismo? Transcrição direta da natureza? Que tem isto a ver com arte?”, perguntava.“ Pintura, pensava ele, estava melhor na prisão do que sempre ao ar livre. A crescente abstração do seu trabalho desagradava a Ruskin, seu mentor, para quem o esteticismo era amoral. Mas isso não afetou a sua convicção da moralidade perfeita na verdade do realismo.” Assim, Robert Hugues, nos coloca no centro do debate estético do fim do séc. XIX, em Londres. Mas terá alguma coisa a ver com as nossas consciências artísticas, ou sobre o que seja essa variável estética incluída na extrema variedade de atos artísticos a que assistimos hoje?

Junho de 2014


esquírola oitenta e sete


No Séc. XVI  íamos todos para Roma, no Séc. XIX para Paris, no Séc. XX para Londres e NY e no Séc. XXI? A cultura artística parece que sempre se radicou em modelos centralizados. Mas pode não ser sempre assim. As culturas artísticas medievais europeias, japonesas, incas, etc., viveram e desenvolveram-se em círculos restritos e atingiram uma qualidade criadora excecional. Outras não. Mas o mundo moderno que começou com o Renascimento criou a globalização em que estamos hoje integral e planetariamente imersos. Nunca tal tinha acontecido. Os teóricos da Economia preveem a queda ou a redução da importância da Europa e até dos EUA no futuro não muito longínquo. Com isso desaparecerá a hegemonia da Europa e dos EUA no panorama da cultura artística do mundo. Foi o que aconteceu a Roma e Paris. Mas a questão que se tem por nova é a da centralidade descentralizada. Com que modelos centralizadores vamos guiar-nos. Vamos estudar pintura ou BD para Beijing, ou S.Paulo, ou Calcutá, ou Singapura? Ou vamos dentro da globalização desenvolver culturas artísticas autónomas em cada lugar que tenham forças para isso? E essas forças que têm que ser fortes não precisam de “coisas fortes” para surgirem. Surgem com as forças de energias “frágeis e leves”. Cada vez mais me surpreende como numa cidade como o Porto, semelhante a centenas de cidades no mundo tem surgido uma cultura do desenho que pode vir a dar frutos extraordinários. Porquê, porque para quê já o sabemos? Este interesse pelo desenho tem produzido estudos reflexões, análises mas tem produzido obras de desenho? Tem produzido conjunto de obras-autores que terão algo a ver em comum? Estará a nascer algo mesmo que ainda mal se veja a barriga?




esquírola noventa e um

Súbitamente, num ato de pura apreensão intelectual, teve consciência do poema que ia escrever sobre este jardim. Não dos seus acidentes – disposições métricas, palavras e frases –, mas da sua forma essencial e do espírito que o animaria. A forma e o espírito de um longo poema lírico cheio de pensamentos, de uma meditação poética intensificada ao ponto do choro e do canto, sustentada na sua intensidade por uma espécie de milagre persistente. (…) Huxley.  É assim que se elaboram na nossa mente também os desenhos. Mas o peso e a carga ou a dimensão que essas duas variantes têm nesse elaborar é que vai ser determinante no valor e na qualidade da obra. Vasari falava na invenção e no desenho como bases essências para a pintura, a escultura, a arquitetura. Julgo que era disto também que falava. Anda isto um pouco esquecido?


esquírola noventa e três


O Museu de Serralves faz 25 anos. É uma das raras instituições que alterou profundamente a relação da cidade com as artes plásticas. Mas não é uma instituição da cidade. É internacional. Alterou profundamente a nossa cultura artística? Se não erro, teve 4 orientações e podemos reconhecer que aquela que deixou uma marca mais forte e rica de memórias foi a de Todoli. O Museu de Serralves não é a “minha praia”, e por isso esta esquirola pode ser afetada por essa falta de interesse. São 25 anos dos 35 que leva a política da industria da cultura por esse mundo industrializado e intensamente urbanizado. Hoje há centenas de CAM’s por aí mais ou menos em rede de interesses. Parece ser evidente a osmose desse advento com o advento dos centros comerciais. Dantes ir ao Louvre ou à Tate era um ato criterioso e o exercício de um culto, de uma cultura, que só aí se podia realizar. Hoje vai-se ao MS como se vai ao Arrábida. Passeia-se e passa-se o tempo até ao almoço ou jantar. Não chove, não faz frio, nem calor e pode não se pagar nada. Mas facilmente se comprova que os visitantes não vêm nada, não param sequer! Não é momento para esquirolar a orientação artística dos comissários, que é sempre sectária e habilmente induzida, como se exige nestes tempos pós-modernos. Com tanto para mostrar do tanto que se faz por esse mundo fora, e por este país, em cada ano, não é tarefa fácil decidir o que mostrar. Devemos ter mais compreensão do que reprovação sobre as orientações dominantes. A vida continua e ela nos dirá o que vem a seguir para comemorar daqui por 25 anos. Destes 25 anos o que foi que nos ficou de experiência cultural relevante, memorável  e revisitável das artes plásticas hoje?


esquírola noventa e quatro

O que faz o vigor da vida de uma obra é a “força” no autor. A essa força chamamos, espírito, poética, identidade, carácter.  Só por ela a obra vale a pena. Se não a tem é depreciável. Não é a configuração estética que a define mas pode transportá-la. Podemos dizer que um autor expressionista tem um caráter semelhante a um autor realista. Ou que um autor abstrato terá o mesma força poética de uma autor simbolista. Mas em qualquer caso, que são em si mesmos problemáticos, o que provoca a adesão do público, das pessoas é essa identificação com o corpo poético, com esse espírito. Essa realidade que nos leva a adorar uma obra não é nada que se possa manobrar com uns truques de retórica ou habilidades de estilo. Essa condição essencial é mesmo independente daquilo que designamos como qualidade. Mas essa energia que podemos detetar imediatamente perante a obra, por menor e simples que seja, é uma graça! Falo dessa singularidade que o espírito, esse superlativo indício do infinito nesta terra, por vezes acha que deve aproveitar para se manifestar. E pobres de nós se não o sentimos!
Outubro de 2014

esquírola noventa e cinco

O desenho mais do que uma arte é uma forma de ser. A pintura é uma atividade, sua sucedânea, que aspira a ser profissão. Sempre foi muito diversa em todos os sentidos. Já foi previsto o seu fim e nunca houve tanta gente a pintar como hoje.  A pintura é um objeto, ao contrário da fotografia, que também gostaria de o ser. Mas a questão a que tem de responder quem quer fazer da pintura, uma atividade profissional de sucesso – ter público que com constância e permanência compra pintura – é que tipo de objeto deve ser hoje uma pintura. Sabemos que a pintura na sua história foi um objeto muito diverso. Também podemos verificar facilmente na NET como convivem hoje todos os objetos que noutros tempos eram particulares. Mas a carreira é a questão, mais do que a condição artística, num tempo em que o artista pode ser gestor da carreira. E deverá ser a questão prioritária para quem quer pintar profissionalmente? E como ter uma visão estratégica sobre esta questão?

esquírola noventa e seis

O grande poeta Alexandre O’Neill, já falecido, empurrado pelas doutrinas anarco-surrealistas dizia: “ A arte é desregra permanente. Uma fórmula na mão só nos garante  que seremos capazes de nos repetir.(…) Uma fórmula não abre caminhos; fecha caminhos.” Esta afirmação poderia ser dita; o desenho é… ou a poesia é, ou o romance é; ou a arquitetura é…. Sabemos que estas frases são panfletos morais, mais do que realidades ou necessidades operativas. A repetição para quem desenha, ou a dependência a fórmulas para quem escreve um romance, levará mais tarde ou mais cedo ao enquistamento e à morte da obra.  Mas também é verificável que todas as grandes obras se afirmam pela repetição ou exploração criativa de modelos, paradigmas, conceitos mas, de fato, menos de fórmulas. Se Giotto ou Van Gogh não o tivessem feito, nem sequer os conheceríamos.

esquírola noventa e sete

Por vezes ocorre-me a evidência de que inovação, invenção, a renovação, … não são propriedades ou condições essenciais do processo artístico. Parecem ser o atributo final da ciência e da tecnologia, em especial. A modernidade e mais tarde o modernismo e certa psicologia fizeram crer que isto também eram atributos das artes. O homem como centro de tudo e livre de tudo pode tudo transformar e pode tudo mudar e a tudo aspirar. Hoje sabemos que isso como fim já cansa e produz obras entediantes. Claro que se pensarmos que o homem que sempre fez poesia, que neste caso diz respeito a essas composições linguísticas verbais ou escritas, deve e quer continuar a fazê-la nos próximos dez mil anos, não pode estar dominado pela ideia de inovar, inventar, como um fim em si…Se acreditarmos que esses dez mil anos e muitos mais, serão ainda ocupados pela vida física e espiritual do homem parece evidente que o afã criativo não pode ser dominado por essa aspiração de sempre inovar. A própria noção de criar pode não estar associada ao conceito de inventar. Então qual será o afã que nos vai fazer mover e nos vai satisfazer?

17 de Novembro



esquírola cento e quatro
O cinema já não me leva há muito tempo. O cinema é uma arte fascinante mas domina-nos. Quer dizer, a nossa autonomia percetiva, recetiva, contemplativa está profundamente afetada. O cinema é feito para “nos levar”. Todo ele. Mas um desenho, uma pintura ou escultura não nos podem condicionar nem no tempo, nem no contexto, nem no enredo.  Tudo isso é uma construção nossa. Não se trata do conceito de “obra aberta”. A pintura e um desenho sempre foram e serão abertos. Está sempre presente uma polissemia não narrativa mas o que interessa aqui é que os vemos onde queremos ou podemos, o tempo e vezes que queremos sem grandes limitações em geral.  Um filme é sempre um argumento. Depois pode ter uma estética. Uma pintura é uma imagem e depois pode ter uma estética. Mas um filme é sempre uma existência reiterada reafirmada, seja documental ou ficcionada. Mesmo nos filmes digitais isso tem que estar presente senão não se cumpre a função. Seguimos um filme porque isso nos satisfaz a necessidade espreitar o outro. Na pintura isso não é esperado; então só podemos encontrar outras coisas; estamos livres de o fazer.


esquírola cento e oito
Há dias estive no Museu do Côa a ver as gravuras pré-históricas. Sempre achei que a história de arte pré-histórica está mal contada. As gravuras que podemos ver hoje terão sido feitas por volta de 40.000 – 30.000 AC. Mas o que é isso para a nossa medida de tempo das práticas culturais? Então, aí por volta do ano de 35.785 AC, um grupo de pessoas estacionou no vale do Côa, junto à foz. Terão estado estacionados, como os seus ancestrais, em muitos outros lugares por essa zona do território. Alguns deles cumprindo uma prática habitual, gravavam nas paredes rochosas de xisto figuras de animais diversos que viam no seu habitat. Parece que em diversos dias e em anos próximos dessa data, no mesmo local terão gravado, sobre as existentes, novas figuras. Mas se se mantiveram no local ou produziam muito pouco, o que é impossível para tanta mestria que exige uma prática constante, ou foram destruídas obras em grande número ou estão escondidas outros locais que não encontramos ainda. Mas o que fizeram os seus descendentes nos 365 dias do ano 35.705 AC. E em 35.230, 34.930, 34.786, por ex.? Estamos a referir um período de 1000 anos. Na nossa prática cultural dos últimos 1000 anos, na Península Ibérica, com uma permanência diária produtiva variável, e com uma apreciável conservação de espólios temos uma variabilidade e uma presença enormes. Como podemos compreender o decorrer nesse tempo de milhares de anos duma prática cultural artística e simbólica? Como preenchiam os “artistas” o seu tempo quotidiano? Daqui por 30.000 anos (não se riam!) como serão entendidos os vestígios das nossas coisas sobre esta noção de produtividade e tempo cultural?

esquírola cento e nove

Sofrimento, sacrifício, esforço, abnegação, constância são atributos ou condições para que em muitas atividades humanas se possa aceder à excelência, à suprema qualidade. Essas exigências são menos da sociedade do que o homem isolado. A busca de uma satisfação superior, da superação do que está dado, do exercício sempre mais exigente sobre o conhecido ou sobre o desconhecido é uma vontade tipicamente humana e que não busca o bem estar material ou o êxito como fim em si. É uma exigência interior que a mente realiza mais no plano da irracionalidade do que na razão calculista ou judiciosa. Nas artes plásticas vivendo sob o paradigma modernista e pré-modernista, nenhuma destas noções tem sentido. É evidente que essas funções ou condições psicossomáticas foram substituídas por prazer, devaneio, inconstância, revolta, lassidão, facilidade, pouco esforço. São muito raros os autores que não vivem neste quadro biogen-ético, que parece ser dominante. Eles saberão o que querem evitar e o que procuram e isso foi sempre para o trabalho do espírito a única coisa que conta, pois o caminho estás nas possibilidades infinitas. Mas será que a sociedade, neste caso, tem mais força que a força que o homem isolado tem para impor o sentido à existência humana? 

esquírola cento e dez
Ninguém leva a sério a avaliação do ensino superior artístico. Mas todos dizem que ele está mal. Não sei se alguém acha que alguma vez esteve bem.  E se valerá a pena estar melhor. O que ganhamos com isso? A autoavaliação será o único caminho para as coisas irem de outro modo. A prestação e a avaliação de um jogador de futebol, de uma equipa, de um cantor e de um escritor são feitas com evidência de fatos, transparência dos dados, escrutínio público direto. Já há algum tempo, por ter tido lamentáveis experiências de avaliação externa de várias faculdades artísticas se tornou para mim evidente a inutilidade do sistema. Para mim será suficiente, embora possa ser necessário mais alguma coisa, que as instituições tenham na NET um site da vida profissional e artística dos docentes. Aí, em página individual, cada docente coloca periodicamente os trabalhos que realiza, os prémios que obtém, as criticas a que foi sujeito, os trabalhos teóricos que informam e preparam as aulas. Todo esse material deve ser de acesso público e universal. Quem tem um blog sabe o que isso é. O exercício da docência no ensino superior não é um direito é um privilégio reservado aos melhores. A incompetência sempre teve neste país o seu paraíso. Compete-nos tirar-lho e dá-lo à competência. Esse processo permitirá que os alunos conheçam os seus mestres com transparência e responsabilidade, que os colegas conheçam o que cada um faz e o público o que se faz na instituição da sua cidade. Em qualquer altura se podem pedir pareceres a especialistas sobre a obra dos docentes segundo parâmetros que a escola ache corretos e importantes. O que se faz agora é inútil.


esquírola cento e onze
Há artistas que creem que a sua obra deixará de ficar em pó se fizerem por isso, por ex. casas-museus. Não sei o que pode ser feito contra a vitória do pó mas sei que a obra que perdura é aquela que faz falta em primeiro lugar aos artistas da mesma arte. Impedem que se perca no pó pois, sem ela, eles também avançam para o pó. Se olharmos para o culto entre os nossos artistas das obras dos seus antepassados ficamos quase esclarecidos. O pó está a aumentar. Mas porque é isto assim? Ver com regularidade o que os outros artistas fazem é um bom começo para o evitar. Se nas escolas se estudassem os diversos autores, não só os consagrados, mas acima de tudo o sentido das obras, para além dos autores e delas mesmas, também seria um bom caminho. As obras só nos podem interessar se tratarem coisas que nos interessam e não podem ser encontradas noutro lugar. É comum ver investigadores – figura hoje comum neste mundo do conhecimento e divulgação da arte – não revelar com ineditismo, singularidade, imprevisibilidade e originalidade esses conteúdos das obras. Preferem escrever sobre os autores consagrados dizendo o que está consagrado em vez de procurarem consagrar as ideias que autores não consagrados também vão destilando. Este é, porém, o terreno que lhes dá êxito rápido garantido e aos editores. Quer dizer, os que investigam não cultivam obras e valores artísticos mas sim os meios para serem conhecidos, viver a ilusão de fugir ao pó, tratando das figuras dos produtos consagrados. E o pó continua a aumentar.



esquírola cento e doze

 Esta cidade através de alguns artistas ilustres cultivou uma conceção modernista radical, na arquitetura, pintura e escultura que se apoia na conceção de que o que “interessa” se encontra nas formas mais simples geométricas ou orgânicas ­­– internacionalmente conhecida por minimalismo – e que a sua função ou efeito nos é capaz de encher, de dar sentido total à visão artística da vida. Penso que muitas obras realizadas são de primeira classe e aprecio-as. Claro que não me enchem. A mim sempre me interessou a arte que se interessa pela vida. Fica em mim, sem ser satisfeito, esse enorme universo vivencial que precisa de ser interpretado pela arte, a que chamamos necessidade de representação dos sentimentos, dos mitos existenciais, da dramaturgia e tragédia, dos valores, das obsessões e dos devaneios psicológicos e que só obras mais complexas me podem dar. A minha passagem nesta vida, por acaso e privilégio, face a milhões de outras, exige que eu a aproveite por exigência, não só dessa função que me permite dizê-lo – a consciência – como de outra que admito a existência e que me impõe ser o melhor de mim. Uma obra de arte é o resultado, para mim, de uma luta, de conflitos e êxitos entre desejos, esperanças, anseios, medos, inquirições, devaneios, sonhos e fantasias. Há a simplicidade que nos isola, o que para alguns é tranquilizante. 
Esquirola cento e treze
O que vou dizer é de todos sabido mas, como acontece com quase todo o sabido, quando falamos nele é que passa a existir. Chamo vida orgânica ao contexto que resulta da relação dos seres com o meio. Ela não é influenciada conscientemente por fatores estranhos, a não ser o de um deles; o homem que interfere fortemente e no seu próprio interesse. A vida cultural é só influenciada por fatores externos aos seres que produzem os bens culturais. Podemos admitir que haverá uma parcela diminuta que contraria esta afirmação. Os meios de comunicação social geral ou especializada sabem isso mas só pensam nisso em termos pessoais. Isto é, de sobrevivência do próprio meio ou dos interesses dos seus próximos. Não há qualquer visão desinteressada, pura, superior, elitista, independente e ao serviço da cultura como afirmação da existência humana, que se faz com a gestão do património. A política cultural do Estado é afetada por essa dinâmica que tem no conceito de Estado a razão de ser. É um conceito recente pouco claro e transparente ou vital. Pode servir bem os burocratas e familiares. Por outro lado há redutos, mais ou menos pequenos, que tentam sobreviver. Mas os dados estão lançados. A força da produção de bens é cada vez maior e o escrutínio sobre o valor da cultura dos valores está cada vez mais entregue a essa força burocratizada, segregacionista, restritiva, ignorante, encobridora e destruidora de valor. Nunca este fenómeno atingiu as dimensões que hoje podemos observar, mesmo com o espaço de liberdade da Internet, que é uma possibilidade e não uma escolha. E poderia ser de outra maneira? E já foi de outra maneira?

esquírola cento e catorze


Há afirmações aparentemente bondosas, nestes tempos em que tudo se pode dizer, embora sem grande efeito, que por o serem não deixam de me perturbar. “A fotografia tem a sua origem visual na pintura e na escultura e na história de arte”. Disse Rosa Olivares, curadora de relevo da fotografia em Espanha. Que se pretende com este postulado?  Conferir à fotografia um estatuto artístico com prestígio que as outras artes poderiam possuir?  Esclarecer ou iluminar as nossas consciências sobre as características dos modos operativos dessas artes e da sua ligação umbilical entre si? Ajudar-nos na missão fruitiva artística, poética e conceptual?  Só vejo nevoeiro mental. A fotografia ou “desenho da luz”, como se dizia no Séc. XIX, tem a sua origem numa pulsão para registar o real. A pintura não. Desde os gregos à camara lúcida. A origem visual do desenho está nos seus códigos, como dizia Gombrich –  não há “olho inocente”. Vemos o real como o desenhamos. A fotografia veio mostrar que o real era muito diferente. E quem fotografa e desenha, como eu, sabe como a origem visual do critério e dos seus fatores para decidir como produzir a imagem é muito diferente e exige competências inatas muito diversas nas duas disciplinas. Se assim não fosse os bons fotógrafos teriam sido bons pintores. E uma imagem de qualquer coisa ou ser, ou de conjuntos dessas realidades, é uma artificio que exige o domínio de particularidades disciplinares que só uma grande integridade e competência do sujeito pode qualificar.
esquírola cento e quinze

Fui formado em duas escolas que ignoravam a teoria da arte. Não quer dizer que a não tivessem como suporte da ação dos seus docentes, muitos deles artistas. Não tinham nem queria ter consciência dela. Hoje com as artes na universidade, e bem, pululam teorias. Mas para que serve a teoria aos artistas? E para que serve aos públicos consumidores ou observadores ativos ou passivos? Nas ciências naturais e nas ciências sociais quem não sabe as teorias não se safa. Mas é assim nas artes? É melhor artista ou tem mais sucesso aquele que domina melhor as diversas teorias? A teoria deveria servir para informar ou suportar a doutrina que constrói o artista. Diz ela sempre o que é bom e o que é mau. Depois há uma teoria sobre a profissão ou como fazer a vida disso. Há também uma teoria da história ou do património e das matérias que o constituem e são a base da renovação e criação. Há também uma teoria técnica e depois há uma teoria metodológica que por vezes se confunde com a doutrina  mas que podem ser separadas pois todos sabemos que podemos ter os mesmos objetivos e usar caminhos diferentes ou o contrário. Não custa crer a partir da visão empírica que temos da vida artística, das obras e dos depoimentos dos artistas mais consagrados que é melhor artista, ou tem mais sucesso, aquele que domina melhor as diversas teorias? Então para quê tanto estudo? A extensa e intensa mediocridade das artes plásticas neste tempo terá a ver com a inutilidade da teoria ou da sua ausência na consciência e ato. L.B.Alberti foi útil?
10 de AGOSTO DE 2015

esquírola cento e dezasseis

Surgem por todo o lado centros de arte contemporânea. Quem os sustenta não são fortunas tradicionais, mas ganhas nestes anos. Os donos dos centros dizem que querem assim partilhar com vastos públicos os espólios que compraram, e ainda compram, esperando dar sentido a algo que dizem, íntimo. Através deles vivem os novos curadores, os novos agentes, os novos artistas. Eles circulam entre esses centros. É fácil ver tudo isso, hoje na hora, na NET. As obras, apesar das naturais particularidades, devem possuir capital de espetáculo, de atração pública, de impacto surpresa e de vibração cromática e sonora. A música pop rock também exige esses atributos. Tal como nas estrelas pop-rock os artistas do circo circulam pelos vários palcos segundo uma agenda de vantagens e conveniências do sistema, não do conhecimento e valor da arte. As coisas são mesmo assim. Com setenta anos agora – aí pelos 35 conclui que a minha relação com a experiência artística deveria ser feita duma forma não espetacular e mais pessoal – vejo este fenómeno como sempre o vi, mas com mais enfado ou tédio. No Século XVII, na Europa artistas de renome faziam as grandes obras públicas nos palácios e nas igrejas para gáudio dos povos e auto estima dos poderosos. Outros de igual renome faziam obras para pessoas concretas – clientes. Hoje encontramos nessas, em particular, esse conjunto de possibilidades de experiência artística mais elevada, extraordinária, suprema surgindo diferida mas sempre nova e talvez mais rica. Mas não deve nada ao processo do espetáculo. Este fenómeno pode ser interpretado de várias maneiras. A atividade artística está centrada no gosto e nas convenções do público ou está centrada no gosto e nos anseios poéticos do autor. Ela é sempre solitária e intrusiva do outro; faz-se no clima favorável ou desfavorável; aspira sempre a superar sabendo que será superada. Fazemos arte porque acreditamos que nos atendem. Atender é prestar atenção. Aquilo que merece ser atendido pode ser muito diverso e mais ou menos complexo ou ligeiro, superficial ou profundo, grave ou alegre. A arte espetáculo sabe o que interessa aos seus atendedores. Podemos ter dúvidas de que o paradigma, a metafísica que sustenta o capitalismo repentista e selvagem deste tempo  é o mesmo que sustenta a obra dos artistas e os programas dos curadores?


esquírola cento e dezassete


Já os tinha visto. Mas há dias senti que devia dizer o que pensava e sentia a partir deles. Falo dos desenhos gravados em azulejos que o Siza e o Souto Moura colocaram nas paredes da estação de S. Bento do Metro do Porto. Ao contrário da cultura de arte urbana de Lisboa que inundou as estações de Metro – mesmo que de tão virtuoso e bem intencionado modelo de enquadramento artístico resultem receitas vultuosas para os artistas e um mundo confuso de decorações, comunicações e sentenças artísticas – aqui na cidade nada disso se passa. Aos entre os mais distintos arquitetos pós-modernos fica-lhes bem pensar que obra em cima da sua só a dos próprios, pois essa obra é uma sentença. Aos artistas cumpre criarem, eles, os seus suportes. Mas as imagens de desenho que decidiram passar à condição de obra pública, diferente da sua obra de arquitetura, merecem esse direito, cumprem bem essa vontade, ou satisfazem e elevam, pelo nosso olhar, a nossa mente? A dois passos na Estação do comboio, há mais de cem anos, um dos maiores arquitetos da cidade e um pintor de nomeada viram as coisas de forma diferente e que hoje nos deixa encantados – porque não esse termo? Por isso eu acho que não. São desenhos primitivos, elementares, sofríveis, que nenhum artista estaria disposto a ver passado ao “eterno” azulejo.  No outro caso são eruditos, complexos e muito bons que públicos muito diversos e cosmopolitas tornam eternos. Mas o que leva tão excelsos arquitetos a ceder, nestes casos, ao tão elevado critério ético e artístico que têm no exercício e afirmação da sua arte? Poderemos algum dia compreender? E para que serviria compreender?




esquírola cento e vinte e   quatro

O que sou? Li há dias um espanhol a dizer que só tinha sido espanhol em toda a vida menos de cinco minutos. Será que um irlandês dirá isto? Eu também sempre me senti português em pequena parte.  Na grande parte sou europeu e noutra menor americano e depois um pouco chinês. Quer dizer o que me sustenta e dá sentido à existência – enquanto vivo – vem de locais e contextos a que acedo por meios indiretos, mas que têm uma forte atuação sobre a minha mente. Sobre o meu corpo tem atuação esta porção da cidade em que habito e um território envolvente. Também tem ação as pessoas que aí habitam e com quem contato mais diretamente. Mas há uns autores que só vivendo aqui poderia ter experimentado e incorporado. Camilo, Pousão, Régio, Angelo, por exemplo. Mas quem vive em Berlim,Tallin, Bogotá, Glasgow, desconhecerá para sempre. Não sabem o que perdem! O que faço segue em princípio o mesmo caminho, o mesmo enquadramento. Quando deixar de existir serei recordado pelos que viveram na minha rua enquanto viver quem se lembre. Mas isso não é importante. O que importa é o que constitui para cada um aquilo que constrói a sua existência e que alguns acreditam que é ditado pelos gestores de consciência nacionais que sonham ser universais. Que mito!
Dezembro de 2015



esquírola cento e vinte e cinco

Por acaso, nos passeios sobre as imagens de pinturas, no Google, em pouco mais de dois dias deparei-me com as imagens das pinturas de Ad Reinhardt e de Werner Tubke. Como se pode pensar sou muito acasional. Mas é assim que funciona o acaso e o evento mais ou menos produtivo das boas possibilidades. A pintura é uma prática tão afastada, a todos os níveis, em dois homens contemporâneos no século XX, que podemos pensar como a cultura artística e neste caso das artes plásticas é um fenómeno tão abrangente e contraditório. Se num caso valorizamos aquilo que se considera ser a novidade quase absoluta e radical que se apresenta como algo finito e do outro a prática mais convencional ou tradicional e assente em muito do que existiu, que se apresenta como algo assim em constante devir. As noções de que a mente sobrevive trabalhando sobre si mesma ou sobre os materiais que assim elabora e de que está aberta ao mundo, à história, à vida é um critério de valorização das obras em termos sociológicos ou é só um critério de caráter pessoal?

Janeiro de 2016



esquírola cento e vinte e seis



A grande nuvem modernista, ora luminosa, ora escura que cobriu a cultura artística das sociedades ditas ocidentais, e não só, está quase a dissipar-se ou a ser uma entre muitas outras. A experiência humana requer âmbitos diversos desde sempre. O âmbito simbólico, erótico, sentimental, místico, estético, lúdico fazem parte dessa atividade que chamamos artística. A grande diferença dos nossos tempos para esses tempos anteriores ao advento do modernismo é que a experiência em geral e artística em particular passou a ser muito mediada. O erotismo, por ex., pode ser uma experiência só feita pela imagem vídeo, de formas inimagináveis para todos nós e mesmo para aqueles que fazem o ato e que ao fazê-lo não vêm nada do que vemos. Mas o mesmo se verifica em todos os domínios, ou tipos de experiências. A experiência estética hoje é feita sem ser mediada duma forma avassaladora, nos espaços comerciais de produtos de moda e tecnologia. De forma mediada os infinitos vídeos e fotos disponibilizadas pelos média invadem-nos de forma avassaladora. Tanta fartura trás pobreza. A atividade artística pode sempre incorporar todos os âmbitos atrás referidos mas acima de tudo ela está ao serviço da experiência única e singular de cada um. Não há destino coletivo.



esquírola cento e vinte e sete



Não posso deixar de dar a conhecer um breve e ligeiro pensamento sobre a Europa. É um tema demais presente para todos nós. É uma hipótese de futuro e é mesmo presente.  Este tema é tradicional no pensamento de muitos dos que habitam e habitaram nesse espaço geográfico, desde Roma. Mas não parece ter saída franca. Hoje uma certa inteligência e corrente de pensamento acha que a Europa falha em diversas áreas, e não tem líderes. As instituições europeias não são fortes. Por isso julgo que não pode haver grandes lideres. Os que dizem que já os houve foram-no,  antes e mais, das suas pátrias ou nações. Mas a Europa existe ou alguma vez existiu como realidade política, como realidade institucional social e política? Nos últimos 200 anos para não recuar muito, a Europa foi o espaço geográfico e social em que ocorreram as maiores guerras e mais terríveis atos de destruição entre os seus povos. Curiosamente esses povos preocuparam-se em proteger os bens artísticos e culturais dos outros. Noutras partes da Terra há outros casos também desgraçados, embora sem esse culto dos bens culturais. Mas na América do Norte – Canadá e USA – sempre se viveu em paz e com bom governo democrático e com progresso constante e fortes instituições e líderes consagrados, há mais de 200 anos. O que nos pode levar a pensar que nesta zona do planeta, mesmo que nos últimos 70 anos as guerras tenham sido poucas, a situação se possa alterar para uma organização política e soberana muito diferente da existente, democrática e com boa governança? Os povos são realidades em que a consciência não é dominante na formação do existir e duma certa forma de homeostase grupal ou social. Impera a inconsciência. Só a guerra ou a violência agregam? Há sempre espaço para o impossível.



esquírola cento e vinte e oito



Já abordei o assunto, mas para quem foi professor ele vem sempre ao de cima. Podemos pensar no aperfeiçoamento em desenho, desejá-lo e justificá-lo? Quando ensinava esperava que o resultado dos atos dos alunos fossem sempre melhores. Mas vendo as obras que se fazem por aí não podemos crer que a busca do melhor, e menos da perfeição, seja um objetivo e muito menos um desejo e ainda menos uma vantagem. Faz-se o que dá. Devo confessar que naquilo que faço tenho dificuldade em saber onde começa e se justifica essa intenção de ser melhor. Não vale a pena ser melhor para a sociedade das artes neste mundo moderno e pós moderno. Sabemos disso há muito, fomos assim ensinados. No plano ético a procura da inteireza, da verdade, da harmonia do ser, parecem ter a ver com isso. Mas eu refiro-me à constituição e à configuração ou valor da própria obra-objeto. Sabemos que a melhoria é em todas as áreas verificada quantitativamente. Mesmo no futebol contam-se os bom passes, as assistências e os golos por jogo.  Há em qualquer desenho aspetos que podem ser tratados quantitativamente mas a verdadeira qualificação da obra vem pelo domínio de variantes cuja determinação e caraterização são subjetivas. Mas poderemos avançar por aí? ou não vale a pena. O que nos diz o meio em que atuamos é que não vale a pena. Não serve a ninguém nem a nada. Mas tudo muda!



esquírola cento e trinta e dois
Os tempos são de grande inquietação e incerteza. Isto é, tudo parece incerto mas há vontade de agir. Um jovem artista, pintor, espanhol dizia há dias que a arte era emoção e ilusão. Uma jovem espanhola curadora, ligada ao design de moda dizia, também nessa conversa, que a moda é estética mas não é arte. Pareceu-me a primeira afirmação limitada e incorreta e a segunda vasta e correta. Parece que o mundo da arte que a  NET nos propicia se está a revelar insatisfatório para muitos, pois é nivelador ou indiferenciador. Como podem os “interessados” encontrar sentido? ou, dito de outro modo, o valor, que é sempre o sentido. Podemos alinhar uma série de substantivos que serão os atributos dessa atividade e necessidade a que chamamos arte. Revelação, expressão, deleite, representação, abstração, apresentação, conceção, introspeção...  A emoção e a ilusão não podem ser substâncias essenciais da arte porque o são de atividades que não tem nada, ou têm pouco, a ver com arte. Estão presentes em muitas outras atividades humanas. Os atributos essenciais da ação artística têm que ser aqueles que acima de tudo se realizam aí como em sítio mais nenhum, como é próprio das propriedades de um ser ou função.  A confusão que vai na NET tem raízes profundas entranhadas  nesta ideologia pós-moderna, que nos tem envolvido e vamos cultivando como erva daninha.


esquírola cento e trinta e três

A extroversão e a introversão são as duas variantes ou tipos básicos dos perfis temperamentais, como nos são apresentados pelas psicologias. Em termos pessoais sustentam e marcam a vida de cada um de nós com as diversas variantes ou possibilidades infinitas. Mas elas parecem caraterizar comportamentos dos grupos sociais e mesmo de culturas. Eu gosto de admitir que essa caraterização também pode ser associada ao gosto e à conceção geral do sentido da existência. O tipo extrovertido dá valor à existência do objeto e o introvertido dá valor ao que se passa na mente do sujeito. Os extrovertidos dão valor às grandes obras públicas, aos arranha-céus, as grandes pinturas, as grandes montanhas, aos grandes eventos e aos grandes homens – aqueles que julgam que podem dominar a vida de milhões de outros. Os introvertidos tendem a ver a grandeza em coisas pequenas, numa flor, numa pintura de 40x30 cm, num livro de 100 páginas, num recanto da natureza, nas obras e descobertas pequenas que se tornam grandes e aí encontram toda a grandeza do infinito. Tendem a estabelecer com a realidade uma ligação da enorme grandeza cósmica que os habita sem que a realidade exterior tenha que deixar de ser normal. Assim continuaremos a fazer a vida.


esquírola cento e trinta e quatro
A imagem continua a ser aquela configuração pela qual reconhecemos que uma sensação é algo que se pode associar. Se eu “vejo” na mente, imagino, um cão de pelo laranja, este fato é tão real como outro qualquer para a minha mente e quadro de sensações. É igual à imagem de cão fox-terrier que vi na rua na manhã de ontem. Também algumas imagens que vi desenhadas por Rugendas, no Brasil, aí por 1850, como resultado do seu contato com a vida dos índios, estão presentes na minha mente e não deixam de se relacionar ou associar com imagens de pinturas que tenho feito ultimamente. Então começa em mimesmo um “trabalho mental” que ignoro o processo e sua intenção e para o qual nunca saberei se estou preparado para aproveitar ou usufruir. Quer dizer, não sou dos que acredito que a iconologia, que é a ligação da imagem com a palavra, possa ter algo a dizer sobre a imagem usando qualquer palavra para esclarecer ou para a revelar ou associar. Tudo se faz de imagem a imagem. Sabe quem o faz.

esquírola cento e trinta e cinco

Vivemos já há décadas num universo artístico super-expandido.  E tende a expandir-se. As forças que o dominam são de diversa ordem. Mas não são forças essenciais como aquelas que mantêm o universo cósmico. São forças circunstanciais. O Universo artístico material antes do Séc. XX incluía a arquitetura, a escultura, a pintura e diversas artes decorativas que iam desde a cerâmica às joias. A artesania era a dimensão ou condição a superar. Atingir a condição de “arte”, desde a Grécia antiga, implicava além de exigências operativas, concetuais e técnicas, condições de reconhecimento social. Hoje como a função artística se democratizou e assumiu preponderância e prestigio social a condição material da arte deixou de ser relevante e a sua condição concetual passou a sê-la deixando a artesania bem longe. Ser artista é quem quer. É uma aspiração espiritual natural associada à desvalorização do corpo como fonte de conhecimento, de saber e de exigência funcional, por um lado e, por outro, à vulgarização ou abastardamento da qualidade inteletual. A experiência artística é uma experiência estética (sensorial) que hoje se encontra em inúmeros locais da cidade e que os meios de comunicação social e o modernismo nos fazem crer que é a essência da arte; uns por leviandade  outros por doutrina. Mas é sempre foi mais do que isso. Uma experiência sentimental e, mais ainda, simbólica, que só se encontra em obras com essa articulação dominante. É também uma experiência concetual que só se pode experimentar em locais específicos e que tende a alterar as ideias sobre as matérias das obras. O mito da “arte urbana” é como o mito dos “módulos” ou “arte social”, com o desaparecimento da peça única, dos anos 60. No tempo de Leonardo se dizia que a pintura era uma coisa mental. Estas experiências ou âmbitos estavam todos integrados ou incorporados. Hoje, na pós-modernidade,  estão separados e assim continuarão enquanto  quisermos.




esquírola cento e trinta e seis

Não sabemos muito bem o que é o tempo. Mas há conceções diversas e algumas arreigadas. Eu tenho, do tempo, a noção de que é uma quantidade de possibilidades concretizadas que sendo diacrónicas podem também ser sincrónicas. O que mais me fascina é admitir como seria a História da cultura humana se em vez de ter 10.000 anos tivesse 100.000. Isto é, multiplicar por 10, dentro do mesmo padrão temporal de evolução ou do mesmo paradigma que parece ser aceite, até agora, nas referências culturais. Teríamos que conhecer muitos mais filósofos, historiadores, escritores, poetas, cientistas, heróis, dramaturgos, artistas, pintores, arquitetos. Teríamos que considerar mais estilos, escolas, tendências, ideologias, doutrinas, credos religiosos, etc….Claro que teria de ser feita uma seleção pois estaria a falar de uma realidade que se teria evoluído num padrão temporal semelhante ao nosso. Mas o nosso já não é o de há mil anos. Hoje no mesmo tempo, ou num tempo mais curto, ocorrem muito mais coisas. Mas não será tudo uma ilusão que a civilização racionalista, científica e tecnológica que a Modernidade Europeia está a impôr a todo o mundo? O tempo está acelerado, para um fim, como se costuma dizer da arte, da história, de deus, de… .Para os eruditos e homens cultos das civilizações ainda existentes, da India, por ex., esta noção de fim julgo que não tem qualquer sentido. Que a cultura suméria tenha ocorrido hà 7.000 anos, acho pouco tempo, pouco distante, pouco espaço entre culturas. Estaremos dentro de alguns anos a considerar muito mais referências dessas possibilidades existenciais. Ou então será que estamos, como espécie,  anunciado pela civilização tecnológica antrópica, o nosso fim?


esquírola cento e trinta e sete

Na atividade artística não interessa  muito aquilo que gostamos. O mais importante, ou decisivo, é saber o que faz com que os outros gostem das obras. Também podemos considerar que há duas ideias substancialmente diferentes sobre a forma como o artista exprime ou se expressa. A ideia de que é um intérprete, muito comum no teatro, o que vemos é o que a personagem é, não o que é o artista. O artista só o é porque domina as técnicas dessa transferência. O artista não sofre com o sofrimento do tema nem se alegra com a alegria que transmite. Esta ideia sempre informou a prática artística em todas as artes. Foi a partir dos românticos e de Rosseau que se começou a cultivar a ideia que o artista se exprimia a si mesmo, que a obra se mostrava sofrimento ou alegria mostrava esses sentimentos sentidos pelo próprio artista. Gombrich dizia que no séc. XVIII houve uma alteração. Antes pensava-se que a arte devia ser nobre e a partir daí passou a pensar-se que a arte devia ser sincera.  Sabemos que é essa a ideia que campeia na modernidade desde o expressionismo e na pós-modernidade, em muitas áreas artísticas desde a performance, (o artista não é ator) até à instalação, pintura, foto, etc. A obra é autobiográfica. Os artistas sabem muito pouco sobre as técnicas da própria disciplina nem se interessam por isso lhes ser inútil. Cada um faz o que quer e o espectador é levado pela sensibilidade que tem sobre o que é expresso, tal como o que sente sobre qualquer cena real do quotidiano. Dantes dizia-se que isso não era arte. Arte era transformação, interpretação, recriação, sublimação.



esquírola cento e trinta e oito

 Gombrich dizia que a coisa mais importante que não podemos saber é porque é que uma obra de arte é boa ou má. Eu acho que a coisa é importante, e por isso só a podemos saber. Dizer que não podemos estar de acordo sobre se certa pintura é boa ou má é uma falácia, que as culturas relativistas cultivam, pois se a palavra existe ela corresponde a uma função ou ato. Se eu digo que o mal não existe isso provoca a passividade e a desmotivação; se digo que existe isso provoca atividade e preocupação. Dizer que Dali é melhor ou pior que Miguel Ângelo é uma pura estultícia que não serve, nem ilumina ninguém, nem à obra deles Considerar que certo artista é o melhor de uma certa época é outra falácia, pois só podemos comparar o comparável. Qualquer obra só ganha força e qualidades se é construída com a exclusão, a negação, o repúdio de valores e aspetos diversos. Outras obras vão ganhar força e qualidade construindo-se com esses valores recusados. E por aí adiante… Considerando os aspetos estéticos, simbólicos, sentimentais, temáticos podemos para cada um deles elencar vetores. Num certo contexto criativo podemos reconhecer que alguns são mais eficazes, criteriosos, inovadores e consistentes, condição básica para qualquer juízo. Esse é um esforço de racionalização que uma sensibilidade e um intelecto qualificados farão sem grandes técnicas ou fórmulas judicativas. A valorização relativa em contexto desses aspetos é o ato essencial da cultura.  A cultura e a cultura artística é pura subjetividade. Assumir que certas obras são melhores que outras sem que isso seja um ditame mas seja uma relação entre cultores é exercício de subjetividade. A quem interessa que não se possa dizer o que é uma pintura má e uma pintura boa? Este é o ponto.



esquírola cento e quarenta e quatro



Nunca será demais aumentar a nossa consciência do que é ver. As fotos e os desenhos e pinturas são as realidades que comportam mais matéria a descobrir. O cinema diz o que devemos ver e num tempo limite embora se possa por vezes voltar a ver. O teatro e a vida ocorrem dentro de uma temporalidade rígida. Os objetos podem ser vistos muitas vezes o tempo desejado mas são multidimensionais. No cérebro a leitura de um texto e a observação de uma imagem são tratadas, em primeira mão, em hemisférios diferentes. Mas eu admito que a mente utiliza os dados da mesma maneira ou com o mesmo fim e processo. Isto é, utiliza e reconhece os conteúdos que são os mesmos nas imagens e nos textos. Um texto pode ser lido lentamente e relido, em seguida, várias vezes. Uma imagem pode ser vista rapidamente e várias vezes seguidas. Mas a leitura de um texto é feita sequencialmente e em certa ordem. Uma imagem não tem ordem para ser vista. E não pode ser vista durante muito tempo. Calculo que a maioria das pessoas só observa uma imagem, em média, 5 segundos. Estar um minuto pode ser difícil e cinco minutos é impossível para a maioria das pessoas, eu incluído. Mas podemos voltar a ver essa imagem instantes ou momentos depois e nessa altura vemos coisas que não tínhamos visto. Digo ver à descoberta de sentidos. À Consciência dos conteúdos.



esquírola cento e quarenta e cinco

Fui a Serralves ver o Joan Miró. A exposição das suas obras ocuparam a Casa, mas não todas as dependências. Ficou cortada a relação do interior com o exterior. Miró encerrado. Para a exposição permanente das suas obras nas salas da Casa vão empacotar a casa? Vou deixar, para sempre, de poder ver as diversas salas, janelas, varandas da Casa de Serralves? Não mais poderemos ver a beleza da entrada da luz nas salas de Serralves? É culturalmente saudável destruir ou anexar parcialmente uma obra com outra de natureza semelhante ou diversa? A Casa de Serralves pode deixar de ser uma casa para ser um suporte de pinturas, desenhos, tapeçarias e objetos avulsos? A permanência de uma obra que não tem qualquer relação de origem e contexto cultural num local deve impor-se? Vale 36 milhões de euros (que jeito fariam a milhares de artistas vivos em tempos de crise) a ocupação da ilustre Casa de Serralves por qualquer conjunto de obras de arte? Pode ser considerado provincianismo a sujeição a algumas obras, mesmo de um ilustre artista? E a corte lisboeta não encontrará lá umas salas num dos palácios, conventos ou quarteis disponíveis para dignamente mostrar esse legado herdado de desmandos financeiros?



esquírola cento e quarenta e seis





Henrique Pousão e Amadeu de Sousa Cardoso estão juntos, por uns meses, no Museu Soares dos Reis. É como se uma conjunção rara de planetas se verificasse no céu dos grandes astros da nossa cultura artística. Saímos duma sala onde estamos com Amadeu e poucos passos depois estamos na sala com toda obra de Pousão. Poucos anos de idade os separam e poucos anos de vida também. Um viveu 25 e outro 31. São vidas e obras muito diferentes. Mas é uma experiência única e rara aquela que podemos ter aí. Pousão envolvido ainda por uma formação naturalista, decanta muito realismo e algumas proto preocupações modernistas que andavam no ar. Encontramos no astro Amadeu a grande onda do tsunami modernista. O pintor, mais que isso, o artista, livre da realidade, e da natureza, da história, de mestres, de morais, de cartilhas, de gosto e sentimentos, leva tudo à sua frente . A pintura é aquilo que se passa numa tela em que se organizam as linhas, as formas, as manchas e as cores. Encontramos o astro Pousão e sentimos que um mar da tranquilidade nos oferece. Encontramos a história da pintura, os sentimentos, a estética da representação e a estética anunciando a abstração ou o valor dos elementos plásticos sem a representação. Encontramos a complexidade da imagem do real e as surpreendentes complexidades que a imagem da pintura usa para nos representar no real. Eu nunca tinha sentido, visto e compreendido tanto em tão pouco espaço e tempo.



Esquírola cento e quarenta e sete

Percorrer as frentes de rio e de mar no Porto é uma vivência do mais puro romantismo. Isto é matéria de desenho! Há cidades em que percorremos as frentes de rio mas nunca, em seguida, uma frente de mar que nos dá a plenitude do infinito poente. Há cidades em que o que sentimos é a expressão e a comunicação do poder áulico e religioso, que pretendem dizer-nos como deve ter sentido a nossa vida. Nesta cidade de burgueses, desde a Idade Média, e talvez de mercadores, desde os fenícios, as obras e a natureza se agregaram num respeito de dimensões que sempre tiveram a medida e a escala do humano. Sempre evitaram a ideia de império, glória, domínio mas, pelo contrário, de gratidão pela existência, em si, como seres entre os outros. É romântica a ideia e o desejo de ocupar não só os locais luminosos mas os sítios sombrios e em todos eles encontrar o espírito do lugar em vez do espírito do poder. Um rio caudaloso e corpóreo, entre margens mais próximas que afastadas, é atravessado por pontes que se vêm no céu. No vale de Quebrantões, onde reside uma pequena capela românica, no meio da floresta, e nos cimos das escarpas construíram-se não palácios mas conventos e mansões onde o grandioso está ausente. As ruas entre-muros, nas duas margens, escondem e reservam romances e desejos que motivam a nossa imaginação. Até à meia-rotunda na Foz, onde se enquadra o rio, que entra no mar sereno ou violento ajudado por essa intrusão poderosa e serena de projeto humano de dominar a violência, mas com beleza, poderemos ser o que somos. Ou ainda da outra margem, no cabedelo, encontrar o imenso areal em tão pouco espaço e sentir o isolamento perante o espeço. E se paramos na praia, numa enseada feita de granito do jurássico, onde o mar encontra a areia a respirar, estamos, de novo, junto ao simples. Mas podemos hoje chegar ao porto de mar que o porto de rio teve que ceder e, de novo, num espaço todo plano, encontrar acima de tudo, a escala do humano mesmo nas ondas surfáveis.


esquírola cento e quarenta e nove

Há três palavras que devem ser estranhas ao desenho e a quem o faz. Tolerância, Agradecimento e Honra. Todas elas querem agarrar a liberdade individual. Por aí, querem os outros fazer depender de si o valor que esteja em nós ou o sentido da nossa ação e do nosso destino. Tolerância quer dizer que o que os outros fazem, não sendo como nós achamos que deveria ser feito, não deve ser impedido. Não os apreciamos mas desprezamos ou ignoramos. Agradecimento é um sentimento que se tem quando se fica a dever algo a outrem. Ser agradecido é uma exigência sentida por quem ajuda o outro. Ao ajudar ele está a criar um débito nos outros embora diga, por nada! Se agradeço reconheço que fiz uma ação com interesse próprio. Se aceito que me agradeçam é porque fiz algo que não devia ter feito pois era interesseiro. A honra, valor da nobreza, é a consideração de que a ação que realizei me confere um estatuto que poucos podem ter. Sentir-me honrado por alguém me apreciar, ou aos meus desenhos, seria aceitar esse estatuto. Permitir que outros se sintam honrados com uma apreciação minha é achar que tenho um poder ou estatuto que ele não tem. Se pensar na vida de Cristo, o que para um ateu é natural e cultural, julgo que ele, como nos dizem os apóstolos, não se permitiu o uso destas palavras e conceitos nem na sua relação com os outros, nem com Deus, seu pai. Se Cristo tivesse desenhado os seus desenhos viriam marcados por esta ética ou atos morais.


esquírola cento e cinquenta

A política cultural é uma coisa real e concreta, existe e não é ficção ou ilusão. A política é sempre uma ciência e uma arte de decidir, num certo momento, e em certas circunstâncias. Não há norma ou princípio geral. Mas há ideologia. Tem que haver algo que partindo do passado, se viva e dê sentido ao futuro que se virá a servir desses resultados como passado. É uma coisa real e concreta decidir para que e quem governa, onde gastar 50.000 Euros, num certo momento. É político gastá-los comprando obras a 1000 artistas vivos e fazendo com elas um museu para interesse público ou gastando esse valor com 100 obras um de artista estrangeiro morto, mesmo de grande nomeada. É óbvio que os efeitos desta decisão são muito diversos a todos os níveis em especial na consolidação de uma realidade cultural artística e dos seus valores sem os quais ela não existe. Mas o que interessa é que a primeira decisão assenta na defesa de valores que reconhecemos como de esquerda, racionalidade, integração, solidariedade, partilha, identidade e a segunda em mitologia, cosmopolitismo, moda, elitismo, alienação, etc. Isto é ideologia.
30 Janeiro 17


esquírola cento e cinquenta e um

O que tem concorrido para que a vida do homem, só e em grupo, tenha melhorado sempre, e tanto, são os esforços da tecnociência. Será ela também que nos pode salvar dos seus excessos e erros. O instrumento ou método para esse êxito é o conhecimento, a racionalidade. Nada se deve à religião, à arte e à política, embora esta se dedique a tentar dominar e gerir a tecnociência. Elas baseiam a sua ação num método e em instrumentos que são dependentes da sabedoria e também da irracionalidade e de como sentimos o que somos. Muitos de nós, mas nem todos, pensam que a procura da satisfação, o bem-estar, o conforto, a segurança são os objetivos máximos do ser -se humano, de levar esta vida, que não terá outro sentido. Muitos outros, mas nem todos, aproveitam algumas das capacidades da nossa mente, que é capaz do conhecimento e do saber, para atribuir um valor, mesmo supremo, à procura de sentido para a existência, para a expressão pessoal, para a vida subtil, imaterial ou transcendente, coisas que  nada têm a ver com o conhecimento e o bem estar físico mas que nos desafiam por vezes até ao sofrimento e ao mal estar. Esta saga continuará, como o milagre da arte, que se realiza todos os dias para que nada se resolva.

esquírola cento e cinquenta e dois

O que caracterizará mais a contemporaneidade das artes plásticas é o deslocamento, já iniciado ou apontado desde os surrealistas, da ação do artista, da disciplina para a temática ou o conceito, o projeto. Ao artista interessa mais tratar um conceito ou um tema – a dor, ou a guerra palestina do que a estética ou a poética que se aprofunda no exercício disciplinar. A utilização de vários médios para trabalhar sempre foi uma tradição em diferentes culturas artísticas. Fazer pintura, escultura, cerâmica, etc., sempre muitos artistas o fizeram. Outros sempre só utilizaram um médio e mesmo uma só técnica, com total satisfação. Mas desde há umas dezenas essa deriva nos média, a concentração numa área e numa poética, ou numa atitude, ou projeto que vive acima da condição física da obra é o que sustenta o experimentalismo como método. Dantes o artista acreditava que o exercício da sua disciplina, do seu ofício era a forma que tinha de criar de descobrir, de descobrir-se . No nosso tempo essa corrente experimentalista não cuida que esse esforço e dedicação, essa entrega, seja compensadora.  A vida é breve e a arte também deve ser. Mas porque só nas artes plásticas esta tendência tem relevância e projeção pública, ao contrário das outras artes?

esquírola cento e cinquenta e três


Hoje todos “descobrimos” que estamos assoberbados, inundados de informação, de dados, de imagens, etc. Mas aquilo que se chama realidade nunca foi menos que isso. Foi e é muito maior ou mesmo infinita. O mundo físico, atmosférico, químico, elétrico, etc., é constituído por uma infinita variedade de possibilidades e de variantes. E todos nós podemos experimentar a hipótese da possibilidade infinita de introduzir variantes em qualquer situação, ou forma. Aquilo que o homem pode perseguir é aperfeiçoamento, é elevação, é purificação, normalmente associadas ao modo espiritual. Mas em muitos domínios, no desporto por ex., a superação e é o finalidade do jogo. Ninguém se interroga se não vai conseguir ou pensa que não vale a pena tentar, ou que está tudo feito. O nosso destino como seres conscientes é a superação mesmo sem saber que isso seja cumprir o aperfeiçoamento da espécie. A natureza tende em muitas situações para a entropia e isso está presente na abundância e facilidade de acesso dos meios de comunicação contemporâneos. E isso tem uma forte carga entrópica nas artes. As doutrinas anarquistas, dadaístas e concetuais vieram introduzir e afirmar o niilismo, o cinismo e a descrença nos valores e no sentido do aperfeiçoamento como força e energia vital contra as forças entrópicas. Somos todos iguais, todos artistas e todos valemos o mesmo. O resultado está à vista. Um panorama perto da miséria criativa, da mediocridade, da repetição, do desvario, da obsolescência, da  vulgaridade. Tudo se resume à falta de critério. O critério é a imposição da consciência sobre as energias divergentes do inconsciente. Ter critério é ter um fim e ter diversas finalidades. Está isso à nossa frente, esperando.


esquírola cento e cinquenta e quatro

Nos anos 60 e setenta medrou a consciência e cognição do ato artístico e da sua socialização como Cultura . Foram os anos de ouro da crítica de arte. Depois tudo foi sendo lentamente destruído pela ideologia e dinâmica comunicacional do vazio, do desvario, da hiperliberdade, da explosão disciplinar e o culto do experimentalismo. Há trinta anos a vida das artes plásticas era referenciada, recenseada e estimulada pela crítica, arte literária na sua função mais cognitiva. Hoje é dominada pelo curador. São seres muito diversos e custa a compreender como o aparecimento de um deu com a morte do outro. Serão incompatíveis. Assim, algo se perde embora se diga que tudo se transforma. A crítica desapareceu ou há poucos vestígios e o curador é o “dono disto tudo”.  O que fazia o crítico e que o público esperava?  Estava atento à realidade emergente, às obras dos autores, aos textos dos outros e à evolução dos fenómenos nos diversos contextos.  Interpretar os fenómenos e noções surgidas, assumir posição e propor  visões críticas e prolongar nos média as exposições, ou atos artísticos, e assim criar uma rede de conexões, e permanência pública das obras, base da cultura artística. Era um meio e um estatuto de referenciação. A partir dele poderíamos encontrar o sentido que as coisas poderiam formar ou indiciar. Robert Hughes foi na Time o paradigma magnífico e exemplar. Era um analista e um sintetizador das vertentes das obras, um apaixonado pelas disciplinas artísticas que mais cultivava e um rigoroso intérprete de noções convencionais na prática da disciplina e um inovador e criador de novas noções. Era estimulação intelectual, mais do que recenseador. O que faz o curador? È um criador. Ele faz parte do processo artístico. Ele usa os artistas e as suas obras para mostrar ao público as suas conceções existenciais da obra artística. Ele não estabelece uma relação isenta, independente, esclarecedora e reveladora por isso, entre a obra/artista e o público. Ela cria o contexto, a obra, ele é um condicionador. As obras dos artistas são manancial para ilustrar conceções projetos, ações de socialização da arte. A compreensão e o acompanhamento da realidade artística nos últimos 30 anos é impossível pois não há um permanente e sistemático tratamento e recolha de informação sobre obras, artistas e tendências que possa permitir fazer isso e, acima de tudo, fazer cultura. Há 50 anos em revistas especializadas e nos semanários e diários a realidade artística era tratada por vários críticos o que hoje nos permite investigar e compreender e estabelecer criticamente uma história. A secção portuguesa da AICA – Associação Internacional de Críticos de Arte tem cerca de 80 sócios. Como cumprirão eles os objetivos da associação criada nos meados do séc. XX?
Abril de 2017

esquírola cento e cinquenta e cinco


Como bem se sabe a perseguição religiosa é a mais antiga, e que hoje continua, embora mitigada em certas religiões. O que está em causa é que a perda de sentido da vida e do valor da sua crença, coisa quase sempre muito débil, que a religião lhe oferece e que, como tal, só pode ser única, a única verdade. Dizer que apesar de tudo acreditam todos em Deus é pouco, pois ficam para odiar os ateus. A arte na modernidade da cultura ocidental veio para estes criar esse espaço de vida espiritual que lhes dá o sentido de salvação como corpo social e cultural e como verdade. A arte substitui para os ateus a religião.  E ao fazê-lo não perdeu vícios e virtudes. Então é compreensível que os artistas desejem a morte da arte e dos artistas que não pensam e sentem como eles. Todos sabemos que é uma verdade politicamente incorreta mas verdadeira. Mas na arte a perseguição é mais hipócrita e mais cínica e dissimulada. Ignoram-se, desprezam-se, destróiem-se, abandonam-se, escondem-se, calam-se as obras dos outros.  A política cultural dos governos e das instituições é muito criteriosa face aos valores consagrados e às correntes na moda ou no cimo da onda dos média. Os pintores figurativos evitam sequer ver a pintura dos abstratos. Os concetuais denigrem qualquer ato artístico centrado na execução manual, os informalistas desprezam os geométricos. Todos esperam que o futuro se encarregue de fazer desaparecer ou esquecer esses esforços, convicções, desejos. Queremos, acima de tudo, viver tranquilos e em segurança, mesmo que não se saiba bem o que seja. O futuro não se vai preocupar com isso.

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